Tráfico de classe média é desarmado e entre amigos

Jovens que vendem drogas 'no asfalto' são freelancers que compram em favelas, mas repudiam violência, revela estudo de antropóloga

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

O tráfico de drogas entre jovens de classe média no Rio é amador, desorganizado, baseado em relações de amizade e feito por consumidores que se tornam traficantes. Entre inúmeras diferenças para as quadrilhas das favelas, os vendedores de drogas do “asfalto” são empreendedores individuais que se associam pontualmente, e condenam o uso da violência em seus negócios.

Essas são conclusões da antropóloga Carolina Grillo, autora do trabalho “Fazendo o doze na pista: um estudo do mercado ilegal de drogas na classe média” e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana, da UFRJ.

De alguma maneira, o perfil desses jovens se assemelha ao de João Guilherme Estrela, o protagonista do livro e do filme “Meu nome não é Johnny”. Para Carolina, apesar das diferenças de geração – Estrela atuou nos anos 80 – há muitas semelhanças na atuação, embora Estrela tenha sido “mais profissional”, na sua opinião. “Não cheguei a conhecer pessoas que tenham se profissionalizado.”

Normalmente, o primeiro passo na sutil transformação de um usuário de classe média em vendedor é comprar drogas para um amigo, usando seu “contexto”, contato com um traficante. “Não se pode colocar um amigo ‘na fita’ de um traficante sem que este seja antes consultado e esteja de acordo. O jovem interessado em ‘adiantar’ seus amigos não pode oferecer o contato de seu fornecedor e deve ele mesmo comprar em maior quantidade e repassar”, explica Carolina, que mergulhou nesse universo a partir de uma rede de conhecidos.

Ao servir como intermediário, “fazendo a ponte”, enxerga a possibilidade de lucrar com o negócio e passa a atuar como traficante, muitas vezes a partir de uma série de “empreendimentos descompromissados, através do qual se encaminha para o tráfico, sem se dar conta da gravidade do processo”, diz a pesquisadora.

Os jovens são consumidores de maconha, e muitos passam a consumir outras drogas. Como a atividade exige muito tempo, eles normalmente abandonam eventuais trabalhos e estudos. Poucos têm fornecedores próprios, portanto, no caso da maconha, é principalmente nas favelas que adquirem a mercadoria ilegal a ser revendida à clientela, formada por amigos e conhecidos.

Comércio sem violência

Parte intrínseca ao negócio nos morros, o uso de violência é evitado e condenado pelos traficantes de classe média do Rio. Na “pista”, as armas não fazem parte da operação comercial, nem mesmo nos casos de “volta” – quando um comprador não paga pela droga –, ou delação. Como a droga é quase sempre vendida “no fio” (fiado, a crédito), essas ocorrências são frequentes.

O uso de armas pesadas pelas quadrilhas de favelas se deve à necessidade de manter o domínio de seu território, onde estão montadas “lojas” informais, as bocas de fumo, para serem mais visíveis e identificáveis para clientes de fora do morro.

“Lá no morro, se o patrão falar que o maluco vacilou, tu tem que apagar o cara e é isso aí. Mas agora, tem um cara aí me devendo R$ 1.500 há meses, um outro aí também no erro. O que eu vou fazer? Sair matando?”, questionou Júnior, um dos informantes da pesquisa. “O caráter individual dos negócios do asfalto isola e desorganiza os traficantes. Há uma dificuldade do uso de violência pela ausência do respaldo de um grupo ou quadrilha. Cada um responde sozinho por seus atos. Mesmo quando há vontade, falta disposição diante das possíveis conseqüências”, diz o texto.

De acordo com a socióloga Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, “o que é fora dos padrões no Rio é a violência e o controle territorial”. “A idéia de que o traficante é o dono da favela, com controle de entrada e saída, senhor da vida e da morte é só aqui. O natural é a venda ilegal, não a violência”, afirmou Silvia.

O traficante da pista considera ainda que a investigação da morte de um jovem de classe média é frequentemente esclarecida. Assim, em um rápido cálculo de custo e benefício, é melhor arcar com o prejuízo que se vingar.

Boates e as próprias casas são pontos de venda

Sem um ponto de vendas fixo nem área para defender - as "bocas" nas favelas - as armas passam a ser dispensáveis. A atuação é pulverizada, em apartamentos, boates, universidades.

A maconha é comercializada em quantidades a partir de 25g ou 50g, normalmente para o usuário habitual, muito superior às pequenas trouxinhas de R$ 2, R$ 5, R$ 10, pesadas “no olho”, das favelas.
A venda de droga pelos jovens da classe média é quase um ritual, que leva tempo. Como é pelas relações pessoais que se forma a clientela, mesmo quando o objetivo é unicamente comercial, força-se uma aproximação. “É um trabalho que não cessa: o amigo passa na casa, aí o cara pega 25g, tira um pedaço, fuma maconha com ele; conversa, vende, fala de outros assuntos... Aí chega outro cliente e o ritual se repete. Toma o dia todo, e tem pouca produtividade”, diz Carolina.

Sem um ponto de venda fixo, os traficantes da pista se veem no dilema de ampliar a rede de clientes ao mesmo tempo em que procuram restringir contatos para minimizar a chance de ser preso. Há algumas regras de segurança, nem sempre seguidas, como a de não vender drogas em casa, ter boas relações com vizinhos e não “explanar”, ser indiscreto. Apesar das notícias de prisões após interceptações telefônicas, os traficantes continuam a usar celulares como principal instrumento de trabalho, tomando encomendas. Para tentar despistar eventuais escutas, usam códigos para se referir à droga, como “planta”, “CD”, “camisa”, “parada”. A tão falada venda de drogas em festas é vista como coisa de iniciantes, porque representa risco de prisão.

Devido à desorganização na venda, os traficantes de classe média têm dificuldade de guardar dinheiro e investir. “Pouquíssimos são capazes, por exemplo, de comprar um carro. Eles se perdem nas contas, porque o mesmo produto varia de preço de acordo com o comprador e a quantidade. A vida social que levam é intensa e cara: viver escondido é mais caro”, afirma a pesquisadora.

Mulheres são raras nesse negócio, a predominância é masculina. Aparecem só como “mulas” ou namoradas, e chegam a participar, mas não têm protagonismo.

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