Quadrilha diz ter pago propina de R$ 1 milhão a policiais, revela escuta

Grupo de traficantes foi preso em 2010 e condenado em dezembro. O iG teve acesso à sentença. Nenhum agente foi identificado

Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro |

Futura Press
Policiais federais deixam presídio após cumprirem mandados da Operação Patente em 2010
Escutas telefônicas feitas pela PF (Polícia Federal) em 2010 captaram conversas em que integrantes de uma quadrilha internacional de traficantes de drogas e armas comentaram sobre supostas propinas milionárias (de até R$ 2 milhões) que teriam pago ou iriam pagar a policiais para soltar comparsas presos ou se livrarem de interceptações.

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Dezessete integrantes do bando, que foi desarticulado pela Operação Patente da PF em 2010, foram condenados em dezembro pela Justiça Federal do Rio de Janeiro. O iG teve acesso à sentença que traz trechos das interceptações.

Dois dos condenados, o traficante apontado como chefe do bando, Lenildo da Silva Rocha, o RD, e uma advogada, pegaram quatro anos de prisão pelo crime de corrupção ativa. Apesar da suspeita, nenhum policial foi indiciado ou condenado. Nomes dos possíveis suspeitos e não foram mencionados nas conversas interceptadas.

'Perdemos 1 milhão'

Uma das escutas flagrou uma conversa entre uma advogada e o traficante conhecido como Playboy. Na gravação, os dois falam que o grupo teria pago R$ 1 milhão para se livrar de uma interceptação telefônica.

"Já te falei para não me ligar, estou no grampo. Está achando que é brincadeira, perdemos 1 milhão para tirar nós de uma escuta hoje", disse a advogada para o bandido.

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Em uma outra interceptação citada no processo, a mesma advogada comenta com uma integrante do bando que um suposto funcionário do sistema penitenciário cobraria R$ 5 mil para a regularização de presos que se encontravam em regime aberto ou semiaberto, providenciando inclusive atestados médicos para justificar ausências anteriores dos detentos que não compareciam mensalmente à Justiça como manda a lei.

O processo traz ainda outra escuta em que a advogada conversa com Playboy e menciona o suposto pagamento de propina (sem dizer para quem) para colocar o chefe da quadrilha, Lenildo da Silva Rocha, o RD, em liberdade.

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Na interceptação, ela diz que "um cara está agitando a liberdade dele (no caso, RD)" e que pediu R$ 5 mil. A advogada afirmou ainda que "já teria dado uma parte do dinheiro e faltava uma parte" e que "era para ele (RD) sair no Carnaval".

Telefone de delegado

Em uma outra escuta citada nos autos, uma integrante do bando fala a um comparsa que teria conseguido junto a um policial o telefone de um delegado a mando do chefe do grupo, RD.

Segundo o relatório, o líder da organização pretendia conversar com a autoridade sobre a prisão de dois aliados, conhecidos pelos apelidos de Gildo e BG. Quando foram presos, ambos teriam oferecido R$ 25 mil a PMs, mas o dinheiro não foi aceito

Sobre este mesmo caso (a prisão de Gildo e BG), o documento da Justiça Federal traz um trecho de uma interceptação em que RD comenta sobre o pagamento de propina para soltar os comparsas.

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"O Gildo e o BG, na medida do possível, estão bem. Estou tentando perder um dinheiro alto para soltar eles".

Há ainda trechos de escutas em que os traficantes dizem que pagariam propina para soltar um outro comparsa, de nome Givanildo. De acordo com as gravações, eles teriam que desembolsar R$ 2 milhões.

"Os advogados ja estão agitando pra recolher R$ 1 milhão. Estamos vendo se vai ter acerto. Estão querendo R$ 2 milhões. Estamos levantando", disse um dos traficantes para um comparsa.

‘Estamos tentando acerto’

As escutas revelam também que a quadrilha teria tentado pagar propina para soltar outro traficante, conhecido como PL, que foi preso pela Polícia Civil do Rio em abril de 2010.

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"Prenderam agora o PL e estamos tentando um acerto. Estão pedindo R$ 1 milhão...", revela conversa entre dois bandidos.

Sobre a mesma prisão de PL, o traficante Playboy disse a um outro bandido que a quadrilha já havia arrecadado o dinheiro para soltá-lo.

"Ainda estamos aguardando eles soltarem o mano (PL). Fomos na caixinha do CV (Comando Vermelho) e inteiramos todo o valor pedido para soltar ele".

As investigações indicam que o traficante Playboy teria supostamente oferecido R$ 1,5 mil a policiais rodoviários federais para não apreender um carro onde foram achadas drogas em Petrópolis, na Região Serrana.

O relatório da sentença traz ainda uma informação de uma escuta em que um integrante da quadrilha diz ter pago propina também a policiais paraguaios.

‘Não há provas contra policiais’, diz procurador

Autor da denúncia, o procurador federal Renato Silva, disse ao IG que não houve punições a policiais porque as conversas não mencionaram nomes de possíveis suspeitos.

“Os diálogos são muito vagos. Não há provas contra policiais”, disse ele.

Segundo o representante do MPF (Ministério Público Federal), apesar de os criminosos mencionarem o pagamento de propinas, os traficantes que seriam soltos após a suposta corrupção continuaram presos e as interceptações telefônicas não foram interrompidas. De acordo com ele, não há escutas com agentes falando.

Na sentença, a juíza Karla Nanci Grado, da 6ª Vara Federal Criminal, afirmou "que não restou efetivamente demonstrada a efetiva prática ilegal por parte de agentes."

Procurada pelo iG , a PF (Polícia Federal) informou não ter aberto procedimento investigatório para apurar supostos indícios de corrupção porque nomes não foram mencionados.

Sobre a suspeita levantada nas escutas de que policiais civis ou integrantes do sistema penitenciário teriam recebido propina, a assessoria de comunicação da PF no Rio informou ter pedido à delegacia responsável pela investigação, a Delearm (Delegacia de Repressão ao Tráfico de Armas), que faça um levantamento para saber se o inquérito trouxe indícios suficientes para a comunicação com outras instituições, mas a pesquisa ainda não foi concluída.

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