Ocupação da Rocinha foi determinada na troca de comando da PM, em setembro

Nova cúpula da corporação teve apenas 45 dias para planejar e executar delicada tomada da favela simbólica, no coração da zona sul

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Cléber Júnior/Agência O Globo
Bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro hasteadas neste domingo na Rocinha
A até agora bem-sucedida operação de ocupação da Rocinha, na “Operação Choque de Paz”, foi determinada pessoalmente pelo secretário de Segurança do Estado, José Mariano Beltrame, em 29 de setembro, dia da posse do novo comando da Polícia Militar.

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Agência O Globo
Pinheiro Neto, chefe do Estado-Maior operacional da PM, foi o principal artífice do planejamento da ocupação
Ao assumirem o cargo, o coronel Erir Ribeiro da Costa Filho (comandante-geral) e seus chefes de Estado-Maior Alberto Pinheiro Neto (Operacional) e Robson Rodrigues (Administrativo), ex-comandante das UPPs , aceitaram a missão e passaram a fazer o complexo planejamento operacional para uma das mais ousadas e delicadas operações de ocupação de favelas no coração da zona sul, área nobre do Rio. Tiveram exatos 45 dias para montar e executar o plano, que tem tido grande êxito, com a prisão dos chefes da quadrilha, tomada do território, e apreensão de armas e drogas em quantidade.

Além da extensão da Rocinha, população de 69 mil pessoas e do terreno complexo, as polícias do Estado teriam de enfrentar o armamento pesado dos traficantes da comunidade, que supostamente tinha mais de cem fuzis à disposição da quadrilha – cerca de 40 já foram apreendidos até esta segunda (14). Outro desafio era a necessidade de ocupar ao mesmo tempo duas outras favelas integradas à Rocinha pela Mata Atlântica, o Vidigal (de porte médio, 13 mil moradores) e a Chácara do Céu (pequena, 1.100).

Data escolhida pelo feriado, para minimizar "efeitos colaterais"

Fabrizia Granatieri
O secretário Beltrame, ao lado do comandante-geral da PM, Erir da Costa Filho, e da chefe da Polícia Civil, Marta Rocha
Até mesmo a data da ocupação, 12 de novembro, já estava programada pelo secretário Beltrame, e foi informada ao novo comando da PM, que conta com a força bruta e operacional principal da investida. A data foi escolhida precisamente por ser o domingo no meio do último feriadão do ano, momento em que não haveria tanto movimento na favela e na cidade, minimizando os possíveis “efeitos colaterais” em relação a vítimas e no trânsito – seria difícil não impactar o tráfego com a movimentação de viaturas policiais e de 18 blindados da Marinha circulando.

O temor era o de uma reação violenta dos traficantes parar a cidade e repercutir de forma negativa mundialmente, às vésperas da Copa do Mundo-2014 e das Olimpíadas-2016.

A Polícia Militar desde sempre contou com um plano de operações básico para a tomada da Rocinha. Ex-comandante do Bope e principal responsável pelo planejamento, o coronel Pinheiro Neto, chefe do Estado-Maior operacional, conhecia bem o terreno e contava com seu ex-subcomandante e homem de confiança na unidade, o tenente-coronel Renê Alonso , à frente da “Tropa de Elite”, e do Batalhão de Choque, que ganhou mais autonomia e papel de intervenção em sua gestão.

A operação, porém, foi uma união de esforços com a Polícia Civil, apoiada ainda pelas polícias Federal e Rodoviária Federal e pela Marinha, por meio do suporte logístico dos veículos blindados do Corpo de Fuzileiros Navais.

"Se tiver 'querência', tudo é possível", diz comandante do Bope

AE
Comandante do Bope, tenente-coronel Renê, sai de blindado da Marinha, no Alemão
Em um mês e meio, a Secretaria de Segurança realizou dezenas de discussões de planejamento e, à medida que se aproximava a data, foi feita a sintonia fina, com adaptação de planos a partir de novos dados de inteligência e alteração de procedimentos.

Questionado sobre a possibilidade de fracasso ao executar a invasão da simbólica Rocinha, e recuperar o território para o Estado, o tenente-coronel Renê não titubeia. “Se tiver ‘querência’ (vontade política), tudo é possível”, afirmou ao iG , repetindo o que dissera, em 2008, ao secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, ao ser consultado sobre a possibilidade de ocupar em definitivo o Morro de Santa Marta, para dar início ao ciclo de UPPs.

A partir de informações de inteligência das polícias Federal, Militar e Civil e da Secretaria de Segurança, além de informes de colaboradores dentro da favela, o cerco de segurança foi se estreitando. Sabia-se que o traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem, estava na favela.

Após sua ida à Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da Rocinha para ser atendido por uma suposta overdose, o cerco planejado pela secretaria para só ocorrer 96h depois foi antecipado e se apertou, asfixiando o chefe da quadrilha, que se desesperou, buscando sair dali.

Reproduçao TV Globo
O traficante Nem foi preso no Rio de Janeiro
Após uma tentativa de fuga, Nem acabou preso, em ação que se transformou em imbróglio, com a presença e disputa das polícias Militar (Batalhão de Choque), Polícia Federal e Polícia Civil. No mesmo dia, dois outros líderes do bando, Anderson Mendonça, o “Coelho”, e Sandro Amorim, o “Peixe”, haviam sido presos, mesmo sob a escolta de três policiais civis e dois ex-PMs, também detidos.

Enfim, no domingo (13), com 1.600 homens no campo – entre policiais militares, civis, federais e rodoviários federais, além de fuzileiros navais –, o Estado ocupou a Rocinha, o Vidigal e a Chácara do Céu. O efetivo de agentes para liberar o território equivaleu ao de dois batalhões militares em uma situação de guerra.

"É resultado de planejamento detalhado, profissionais experientes e honestos, forte liderança e ótimo apoio logístico", resumiu Pinheiro Neto.

A operação foi comandada a partir do 23º Batalhão da Polícia Militar (Leblon), onde foi montado o Centro de Comando e Controle, com telões recebendo informações em tempo real da câmera do helicóptero da Polícia Civil e de câmeras da Cet-Rio (Companhia de Engenharia de Tráfego). Os PMs contavam com 80 rádios com chip dotados de GPS, assim como os carros da polícia, permitindo o acompanhamento em tempo real da posição das guarnições, por um mapa digital.

No centro de comando e controle, estavam presentes os representantes de todas as corporações envolvidas, com alguma rivalidade, mas trocando informações de forma eficaz. Sem tiros ou violência, o Estado retomou o controle da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu.

Agência Estado
Movimentação de policiais e moradores no primeiro dia da ocupação da Força de Pacificação na Favela da Rocinha, em São Conrado, na zona sul do Rio de Janeiro em 14/11

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