Civil matou Matemático com metralhadora MAG 7.62mm, restrita às Forças Armadas

Por Raphael Gomide iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Armamento dos policiais do Grupamento Aéreo seria emprestado e dispara até mil tiros por minuto, em rajadas. É usado em guerras, como no Iraque. Comandante da ação, piloto Adonis Lopes de Oliveira, foi afastado

Reprodução
Usada pelo Exército dos EUA no Iraque, a MAG foi empregada para matar Matemático

O atirador do helicóptero da Polícia Civil usou uma metralhadora belga FN MAG 7.62mm para matar o traficante Márcio José Sabino Pereira, o Matemático, em maio de 2012. O Fantástico, da TV Globo, mostrou as imagens da morte de Matemático, em vídeo que não era segredo para as autoridades de Segurança Pública do Rio nem da Polícia Civil. 

Leia mais: Vídeo da morte de Matemático não era segredo para polícia e autoridades do Rio

Esse armamento é de uso restrito das Forças Armadas e, portanto, não autorizado para uso por policiais civis ou militares, devido ao seu alto poder de destruição, pelas rajadas, que disparam à cadência de 650 a mil tiros por minuto – inadequado para ambientes civis urbanos.

Fernando Quevedo/Agência O Globo
Carro onde o corpo do traficante Matemático foi achado, após ser atingido pela MAG da polícia

O iG ouviu de ao menos dois interlocutores com contato com a equipe aérea da Civil, antes da divulgação do vídeo pela TV Globo, que a arma lhes teria sido emprestada pela Marinha do Brasil. 

Em nota, na tarde desta quarta-feira, a Marinha negou ter emprestado uma metralhadora MAG à Polícia Civil. O Centro de Comunicação Social da Força afirmou que "não há registro do empréstimo de armamento da Marinha do Brasil, em especial de metralhadora MAG 7,62mm, para qualquer órgão de Segurança Pública durante o período citado na matéria".

Ao se observar o vídeo, as rajadas da MAG 7.62mm são características e facilmente reconhecíveis por um especialista. O alcance máximo da MAG é de 3.800 metros de distância, e alcance efetivo de até 1000 metros, com bipé, ou 1.500 metros, se apoiada em tripé.

Leia mais: MP pede que inquérito sobre morte de Matemático seja desarquivado

Não se trata de uma arma de “sniper”, ou atirador de precisão, como se poderia imaginar de um equipamento embarcado em helicóptero de polícia, a fim de minimizar ao máximo os “efeitos colaterais” – ferimentos de inocentes por “bala perdida”. Com a trepidação da aeronave e os movimentos bruscos como os feitos pelo piloto na ação, como se vê no vídeo, o tiro fica ainda mais difícil.

A MAG é, ao contrário, usada por forças armadas como “apoio de fogo”, ou seja, para atingir determinada área e permitir a fuga ou abrigo de soldados e impedir o ataque dos inimigos. O modo de dispará-la é segurando a coronha com a mão esquerda por cima – a fim de diminuir o recuo da arma –, apoiando-a no ombro direito. O tiro de rajada reduz ainda mais a precisão, por conta do constante recuo provocado pelos disparos sucessivos.

Divulgação
Matemático foi morto em maio de 2012 pela polícia

A Polícia Civil não tinha autorização do Exército, que regula o uso de armas no País, para utilizar a MAG 7.62mm. A assessoria de comunicação da corporação informou que o uso da metralhadora MAG pela equipe aérea está sendo apurado.

A Polícia Civil afirmou que as imagens não tinham chegado ao conhecimento da chefe de Polícia Civil à época, e só chegaram após serem encaminhadas à Corregedoria Interna - à Globo, ela disse ter sabido há 15 dias. A Corregedoria Interna está apurando o caso, que deve estar concluído em 30 dias.

O iG enviou uma série de perguntas à Secretaria de Segurança, que não as respondeu. A asessoria reafirmou nota de domingo: "O secretário, José Mariano Beltrame, entende que há um setor especializado nessas ações que tem que dar uma resposta à sociedade. Quem teve a responsabilidade de agir, tem que ter a responsabilidade de arcar com as consequências".


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