Abstenção em Belém preocupa líderes contrários à divisão do Pará

Apesar da possibilidade de alta abstenção no plebiscito, líderes acreditam que população votará contra a divisão do Estado

Wilson Lima, enviado especial a Belém |

Os líderes das frentes contra a divisão do Pará, chamados unionistas, afirmaram na manhã deste domingo que estão otimistas com relação ao resultado do plebiscito que acontece hoje no Estado , mas admitem que o baixo comparecimento às urnas em Belém preocupa. Os separatistas apostam em um alto índice de abstenção na capital para reverter o processo do plebiscito, amplamente favorável à não separação do Estado.

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AE
Vantagem da frente contrária à divisão do Estado é de 30%, segundo pesquisa
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O presidente da frente contra a criação do Estado de Tapajós, deputado estadual Celso Sabino (PR), estima que a abstenção na região metropolitana de Belém, em função do feriado prolongado, fique em torno de 20%. "A abstenção preocupa. Estamos conclamando a população para que compareçam às urnas neste domingo. Mas o resultado deve ser favorável", diz. O deputado votou às 9h30 em Belém.

Já o presidente da frente contra a criação do Estao de Carajás, deputado federal Zenaldo Coutinho (PSDB), acredita que, mesmo com a abstenção alta, não haverá impacto no resultado do plebiscito, já que pesquisa Datafolha aponta uma vantagem de 30%. "A nossa expectativa é muito positiva", afirma. Coutinho votou às 10h na capital paraense.

Favoráveis à divisão

Os líderes das frentes pró Tapajós e Carajás também estão otimistas. Citando uma suposta pesquisa de última hora que apontaria uma diferença pequena contra os separatistas, o deputado estadual João Salame (PPS), acredita que existe uma chance de vitória das frentes do “sim”. “Eu estou que nem ‘pinto no lixo’. Temos informações de que até a abstenção em Belém e Ananindeua é maior que se imaginava”, declarou o deputado.

Durante essa semana, o deputado afirmou ao iG que apostava em mudanças repentinas de opinião na última hora e na abstenção recorde para uma vitória do “sim”. Salame votou por volta das 11h, na Loja Maçônica da Marabá Remanescente, em Marabá.

O deputado federal Lira Maia (DEM) também demonstrou otimismoo, apesar das últimas pesquisas eleitorais apontarem uma ampla vitória dos grupos unionistas. “Eu estou otimista. Acho que nós podemos fazer história”, disse Maia. Ele votou em uma região no interior de Santarém, chamada Cipoal.

Nas ruas de Marabá e Santarém, o clima é de expectativa e esperança. Os moradores da região acordaram cedo para ir às urnas e moradores de outros Estados, como Tocantins ou Amazonas, que tem domicílio eleitoral, engrossaram as filas das sessões eleitorais na região. Na internet, também há uma mobilização muito forte das frentes do Sim chamando os eleitores a comparecer na votação neste domingo.

A abstenção também foi tema de um culto evangélico realizado neste sábado pela noite pela Assembleia de Deus de Marabá. A Igreja ratificou aos seus fieis a importância da votação no plebiscito deste domingo.

R$ 19 milhões

Em entrevista coletiva realizada hoje, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Ricardo Lewandowski, classificou como "tranquilo" o início da votação no plebiscito no Pará sobre a divisão do Estado. Lewandowski citou apenas um caso de apreensão de material ilegal de campanha. A apreensão ocorreu em Belém. O ministro, no entanto, não informou qual das frentes é responsável pelo material.

Até agora o plebiscito custou R$ 19 milhões. A previsão inicial era que custasse R$ 25 milhões. "O plebiscito está consolidando a democracia brasileira", disse o ministro.

Pará dividido

Mesmo que o plebiscito decisa pela união do Estado, o Pará sairá das urnas neste domingo dividido. Isso porque o eleitorado de Belém e arredores, muito mais numeroso, que deve impedir a separação - o que pode amplificar a sensação de "marginalidade" dos moradores das demais regiões do Estado.

A campanha mostrou que as áreas periféricas do Pará não se sentem economicamente atendidas pelo governo, nem são culturalmente identificadas com a capital. Mas Carajás e Tapajós também têm pouco em comum - são dois separatismos muito diferentes.

O sul, cuja "capital" é Marabá, é uma área de colonização recente, que começou a inchar a partir da construção da rodovia Transamazônica, nos anos 70, e que continua a atrair imigrantes. Tem hoje uma elite que veio de fora e que vê na criação de um Estado a oportunidade de ganhar influência política e gerenciar a exploração dos recursos naturais abundantes na região.

O oeste, por sua vez, tem uma população com raízes de mais de 300 anos e uma história de diversos conflitos com o poder central. Há registros de debates sobre a criação da Província de Tapajós já no século 19. Santarém, a principal cidade da região, tem muito mais vínculos com Manaus do que com Belém.

Enquanto Carajás vislumbra um boom de investimentos em mineração, siderurgia e agronegócio, Tapajós tem como principal aposta de viabilidade econômica repasses de recursos federais.

"Mágoas"

O governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), afirmou em entrevista coletiva na manhã deste domingo que a campanha do plebiscito “deve deixar mágoas” na população do Pará. Ele votou no Núcleo de Esporte e Lazer (NEL), no Centro de Belém. Há aproximadamente duas semanas, Jatene vem se manifestando preocupado com o Pará pós-plebiscito. Ele tinha se mantido neutro na disputa, mas ataques da frente do “Sim” à sua atual administração fizeram com que ele tomasse rumo contrário. Hoje, ele é abertamente contra a divisão do Estado.

Segundo Jatene, o grande problema agora é como repensar o Estado nesse novo momento. “Fica uma lição de que precisamos repensar o Pará e achar novas soluções”, declarou Jatene. Esse novo “repensar”, na realidade, já começou. Desde sábado, Jatene vem mantendo contato com líderes na região sul e oeste do Estado para achar algumas soluções para os maiores problemas da região.
No final do plebiscito, existe a expectativa do governador do Estado fazer um pronunciamento oficial aos moradores de todo o Pará.

(Com Agência Estado)


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