Médicos param em todo o País em protesto contra planos de saúde

Eles dizem que paralisação, com objetivo de obter reajuste de repasses, não afeta pacientes porque foi anunciada com antecedência

iG São Paulo | 07/04/2011 16:50

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Nesta quinta-feira, médicos de todo o País credenciados às operadoras de planos de saúde cruzaram os braços e fizeram uma paralisação de advertência. Eles protestam contra as operadoras dos planos de saúde. Segundo os médicos, as operadoras não repassam aos médicos os reajustes que cobram dos pacientes. Segundo as associações que representam os médicos, a adesão é de 70%.

Em São Paulo, os protestos se concentraram na Praça da Sé, no centro da capital paulista. O presidente da Federação Nacional Médica (Fenam), Cid Carvalhaes, afirmou que a população não sofre com a greve pois todos os médicos da classe estavam orientados a não marcar consultas para esta quinta-feira.

Foto: AE

Médicos usam nariz de palhaço durante protesto em São Paulo: eles dizem que valores dos repasses estão defasados e que planos de saúde interferem demais nas consultas

“Programamos essa paralisação há algum tempo. Todos estavam orientados a não marcar consultas para hoje. Quem marcou é porque não aderiu à greve e vai atender seus pacientes normalmente. Seja por não acreditarem na causa ou por medo de serem descredenciados”, afirma ele.

Segundo Carvalhaes, o valor pago pelas consultas é muito baixo. “Não podemos aceitar que estas entidades paguem apenas R$ 25 por consulta, quando, na verdade, achamos razoável um valor de R$ 60. Além disso, eles também têm muita liberdade para interferir nos nossos atendimentos, o que é um absurdo. A grande parcela de culpa nisso são as brechas que a Agência Nacional de Saúde (ANS) deixa na lei. Eles impõem obstáculos que influenciam no nosso trabalho e, consequentemente, no atendimento dos pacientes.”

A interferência das operações é ressaltada pelo secretário geral da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), Rodrigo Bueno. “Existe uma pressão velada e muitas vezes direta das operadoras para que façamos mais exames com menos recursos. Na minha área, muitas vezes eu prefiro indicar que meus pacientes façam hemodiálise pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O atendimento lá é demorado, mas não tanto quanto a liberação das operadoras de planos de saúde”, conta ele.

Existe uma pressão velada e muitas vezes direta das operadoras para que façamos mais exames com menos recursos. Na minha área, muitas vezes eu prefiro indicar que meus pacientes façam hemodiálise pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O atendimento lá é demorado, mas não tanto quanto a liberação das operadoras de planos de saúde”, afirma médico

A greve da classe contou com apoio, em São Paulo, inclusive de pacientes que não tiveram atendimento nesta quinta-feira. Maria de Fátima, de 45 anos, acompanhava o protesto e disse que tentou agendar sua consulta para hoje, mas foi orientada sobre a suspensão das atividades durante o dia. “Não fiquei nervosa com o reagendamento. Acho que eles precisam ter condições para nos atender bem e se, para isso acontecer, for necessário parar, que parem. Não fui prejudicada.”

Para o mecânico Wilson Aparecido da Silva, de 47 anos, a preocupação é que, caso aconteça este repasse, ele tenha algum impacto no bolso do cliente. “Eu acho justo que eles reivindiquem um aumento no que é pago a eles, contanto que para isso os planos de saúde não aumentem o valor de nossas mensalidades. Já pagamos muito caro.”

Os profissionais argumentam que, além de a consulta valer apenas R$ 40, em média, com uma variação que pode chegar a R$ 25,00, as operadoras chegam a pagar ao médico R$ 162,00 por uma cesariana, R$ 150,00 por um cateterismo cardíaco e R$10 por um eletrocardiograma. Segundo eles, valores abaixo do razoável.

Secretário aprova

A paralisação no atendimento dos médicos credenciados às operadoras de planos de
saúde em todo o País é vista com bons olhos pelo secretário estadual de saúde de São Paulo, Giovanni Guido Cerri.

Em conversa com a reportagem do iG, ele afirmou que o protesto dos profissionais é legítimo e pode colaborar para que os reajustes sejam repassados à classe. “Existe um desequilíbrio de interesses entre as operadoras e dos médicos credenciados. Nos últimos 12 anos os reajustes propostos pelas empresas não foram repassados aos profissionais, o que não é aceitável. Mas o problema é que quem sofre com essa manifestação é a população, que não tem atendimento”, avaliou o secretário.

Bahia

A paralisação nacional do atendimento a planos de saúde teve adesão de 85% na Bahia, segundo o Sindimed-BA (Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia). Dos 17 mil médicos da Bahia, 8.500 (50%) atendem pelo sistema de saúde suplementar.

O movimento, contudo, não causou grandes transtornos à população. Na maior parte dos casos, as unidades de saúde avisaram os pacientes sobre a paralisação e remarcaram consultas e exames com antecedência.

Foto: AE

Médicos tomam as ruas de São Paulo durante os protestos contra os planos de saúde

Foi o caso do Hospital Espanhol, no bairro da Barra, em Salvador. Na manhã desta quinta-feira (7), a pequena movimentação no setor de consultas indicava alta adesão à paralisação. Atendentes informaram à reportagem que médicos de todas as especialidades, exceto uma ginecologista, haviam cancelado suas agendas.

Apenas casos urgentes recebiam atendimento. A aposentada Francisca Brandão, 62 anos, esperava a saída do marido, doente renal, de uma cirurgia dentária. “Fiquei até indecisa sobre o funcionamento, mas atenderam porque era urgência”, disse.

A aposentada disse concordar com as reivindicações dos médicos, que defendem reajustes nos honorários e fim da interferência dos planos nos tratamentos. “Os planos ficam controlando as consultas, eles têm cotas”, afirmou.

A médica Debora Angeli, coordenadora da Comissão Estadual de Honorários Médicos e diretora do Sindimed-BA, disse que a Bahia enfrenta os mesmos problemas nacionais que motivaram a paralisação. “O plano não pode dizer quantas vezes por semana eu vou atender um paciente em hospital, isso depende do quadro clínico”, disse.

Segundo Angeli, a paralisação na Bahia suspendeu também a realização, por convênios, de exames de raio-x. “Os radiologistas assumiram compromisso de não realizar exames eletivos.”

Mato Grosso

Em Mato Grosso, todos os dois mil médicos que atendem por planos de saúde irão cruzar os braços hoje. Com a paralisação, a estimativa é de que 40 mil atendimentos deixem de ser realizados no Estado, conforme estimativa do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso (Sindimed-MT). Somente os atendimentos de urgência e emergência serão mantidos.

A paralisação de 24 horas faz parte de uma mobilização nacional da categoria, em manifesto aos repasses feitos pelas operadoras de planos de saúde aos profissionais.

Mesmo com o expressivo número de atendimentos não realizados, o presidente do Sindimed-MT Edinaldo Lemos, considera que um dia de protesto não acarreta em graves prejuízos à população. “Será como num feriado. As pessoas que estiverem em situação mais crítica podem procurar o seu hospital conveniado que será atendida pelo profissional responsável pela urgência ou emergência”, ressaltou Edinaldo.

Segundo ele, a paralisação de hoje serve como um alerta para que as pessoas percebam que o alto valor pago nos planos de saúde, beneficia apenas às operadoras, e não a categoria médica.

“Em dez anos, o valor dos planos de saúde subiu mais de 600%, enquanto o pagamento dos honorários aos médicos que atendem por eles aumentou cerca de 40%. Há um disparate muito grande”, observou Edinaldo.

A situação tem feito com que muitos médicos deixem de aceitar convênios, pois enquanto uma consulta pelos planos de saúde sai por R$ 40,00, por exemplo, uma particular custa R$ 150,00, no mínimo.

Além do reajuste dos valores, a categoria quer que seja estipulada uma data anual para o reajuste dos valores pagos pelos planos.

Paraná

Aproximadamente 85% dos médicos que fazem consultas por planos de saúde no Paraná não atenderam os pacientes nesta quinta-feira. Sem atendimentos para consultas eletivas, o movimento migrou para hospitais.

O Hospital Evangélico, em Curitiba, foi um dos locais da capital que registrou uma quantidade atípica de atendimentos por convênios, de 40% a 50% maior do que o normal. Ninguém ficou sem ser atendido, de acordo com o hospital, e a procura maior ocorreu no período da manhã.

Em outros hospitais de referência de Curitiba, como o Hospital de Clínicas, o Hospital da Cruz Vermelha e o Hospital Cajuru, o atendimento foi normal. Como a paralisação foi informada com antecedência, os médicos dizem que a maioria dos pacientes conseguiu remarcar as consultas para outro dia.

“Descontando água, luz, telefone, serviço de secretária e outras despesas, o valor pago ao médico é extremamente baixo”, afirma o presidente da Associação Médica do Paraná (AMP), José Fernando Macedo.

Descredenciamento

Caso não haja avanço nas negociações com as operadoras, os médicos ameaçam pedir descredenciamento dos planos de saúde. No Paraná, o descredenciamento já começou a ocorrer em algumas cidades. A união da categoria no município de Ivaiporã, na região norte do Estado, fez com que todos os médicos pedissem o descredenciamento dos planos de saúde.

O anúncio do descredenciamento foi feito no final de fevereiro. Assim, a medida começa a valer a partir de 23 de abril. Desta data em diante, os pacientes de Ivaiporã podem continuar sendo atendidos por seus médicos de confiança, mas vão ter que pagar a consulta e pedir ressarcimento posterior ao plano de saúde. Outras iniciativas individuais de descredenciamento já estão ocorrendo em Foz do Iguaçu (oeste do Paraná) e União da Vitória (sul do Estado).

Paraíba e Pernambuco

Em João Pessoa, muitos pacientes deixaram de receber atendimento nesta quinta-feira. Além do protesto dos médicos contra as operadoras de planos e seguros de saúde, a capital paraibana sofre com a paralisação de cerca de 600 médicos do serviço municipal de saúde.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, os mais prejudicados são os pacientes que buscam atendimento no Hospital Santa Isabel e no Ortotrauma. Algumas cirurgias tiveram que ser canceladas.

A categoria não aceitou a proposta do governo municipal de reajuste de 45% na gratificação dos médicos que atuam durante a semana e de 100% aos plantonistas no fins de semana.

Os médicos se reuniram em frente ao busto de Tamandaré, na Praia do Tambaú, para distribuirem panfletos e explicar à população os motivos da paralisação ao atendimento à rede de planos e seguros de saúde.

Em Pernambuco, representantes de entidades médicas se reuniram pela manhã na sede do Sindicato dos Médicos, em Recife, para discutir a suspensão de atendimento aos planos e seguros de saúde. Todas as consultas eletivas do dia foram remarcadas.


(Com reportagem de Helson França, iG Mato Grosso, Luciana Cristo, iG Paraná, Márcio Apolinário, iG São Paulo, Renata Baptista, iG Pernambuco, e Thiago Guimarães, iG Bahia)

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