Maior favela do País, Rocinha vive ônus e bônus de cidade grande

Com 69.161 moradores, comunidade de origem nordestina enfrenta ruas lotadas, trânsito e falta de infraestrutura e busca redefinir relações após saída do tráfico

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

A Rocinha, maior favela do Brasil, com 69.161 moradores, de acordo com o IBGE , é a reprodução de uma grande cidade, com crescimento desordenado, seus problemas e benefícios. A fazendinha bucólica dos anos 1930 deu lugar a uma comunidade com ritmo frenético, de origem predominantemente nordestina, comércio intenso e volumoso, ruas lotadas, barulho, violência e engarrafamentos irritantes.

Cenário brasileiro: Mais de 11 milhões vivem em favelas no Brasil, diz IBGE

Agência Estado
Rocinha, maior favela do Brasil, com o mar de São Conrado e a Pedra da Gávea ao fundo

É impossível circular por ali sem ser quase atropelado pelo incessante vaivém dos cerca de mil mototaxistas locais. Como carros e ônibus não chegam a muitas áreas, eles são essenciais no transporte interno a R$ 2, para cumprir as distâncias pelas ladeiras muito íngremes e vielas estreitas – bem além da via principal, a Estrada da Gávea.

Há um mês, o tráfico foi expulso por uma megaoperação da polícia , que ocupou a área de 1,4 milhão de metros quadrados e 25 sub-bairros, após 30 anos de domínio de criminosos.

A prisão de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem , e a retomada do território foram celebradas pelo governno e a população como uma importante vitória, dada a importância simbólica da Rocinha no imaginário coletivo, de maior favela do Brasil.

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A população ainda se acostuma à nova ordem, desconfiada entre o alívio da opressão e as reclamações do surto de assaltos ao comércio local e brigas – antes raros –, iniciado na última semana . Muitos ainda temem o retorno do tráfico e a polícia convencional, após a saída do respeitado Bope.

Maior que os complexos do Alemão e da Penha

Raphael Gomide
Retrato da informalidade da Rocinha: churrasquinho na rua, mototáxis e "gatos"
O tamanho da Rocinha impressiona, visto de São Conrado, bairro vizinho (mais ou menos como Morumbi, em relação a Paraisópolis). A contagem do IBGE desmistifica duas confusões, comuns entre os cariocas: a de que a favela teria mais de 100 mil moradores, e a de que seria menor que o Complexo do Alemão.

Apesar de o conjunto de favelas na zona norte ser composto por 11 comunidades, elas somam 56.556 habitantes, número inferior aos 69.161 da Rocinha. A maior do Brasil também supera o Complexo da Penha, que soma 38.130 pessoas, segundo o IBGE.

Só se fossem adicionados os moradores dos dois grandes complexos vizinhos na zona norte é que se superaria a comunidade da zona sul, chegando-se a 94.686 moradores.

Música nordestina na favela "rica" da zona sul

Diferentemente de outras favelas cariocas, na Rocinha o som ambiente nunca foi o funk, mas o forró do Ceará, origem da maioria dos moradores. A ocupação cresceu com os migrantes nordestinos nas décadas de 60 e 70, devido à necessidade de mão-de-obra para a construção do túnel Dois Irmãos (hoje Zuzu Angel), que hoje passa por baixo da favela e ladeia o camelódromo com produtos os mais variados.

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Fincada na zona sul, área turística, a Rocinha, fica na fronteira entre São Conrado e Gávea, e a um túnel de distância do Leblon, tendo como cenário a vista da praia de São Conrado e da Pedra da Gávea. A comunidade ilustra a ocupação irregular dos espaços na cidade: de grande porte, localizada em um morro íngreme rejeitado pela urbanização formal na zona sul, com vielas e becos.

Raphael Gomide
Comércio forte atrai lojas grandes para a comunidade. Após a ocupação, surto de roubos assusta moradores e lojistas
Entretanto, pela localização e pela pujança do comércio, é considerada “rica” para os padrões fluminenses de comunidade. Tem três agências bancárias, associação comercial com 1200 membros, rádios comunitárias, TV a cabo (TV Roc), colégios, uma UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) e três associações de moradores.

Há rica vida cultural e esportiva, e em todo canto há uma atividade beneficente se desenvolvendo.

A política comunitária é disputada de forma séria – com rivalidades –, muitas vezes como trampolim para voos profissionais, em meio à influência do tráfico . Após ser presidente da associação, Claudinho da Academia, morto em 2010, foi o primeiro vereador eleito por uma comunidade, praticamente só com votos da Rocinha, embora sob suspeitas de ter sido financiado pelo crime. Após sua morte, muitos disputaram o espólio político, no último pleito .

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Por causa da notoriedade da comunidade, ao menos dois candidatos a cargos eletivos acrescentaram ao nome eleitoral o “Rocinha” como marketing político, em 2010 – um deles, o líder comunitário William de Oliveira, ou William da Rocinha, foi preso este mês, suspeito de associação para o tráfico . Políticos e atletas também mantêm projetos sociais lá, caso do judoca olímpico Flávio Canto.

Infraestrutura ainda é deficiente

Cléber Júnior/Agência O Globo
Bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro hasteadas na Rocinha, após a ocupação
Como mais da metade dos aglomerados subnormais do Estado, a Rocinha tem mais de mil domicílios. A favela tem, em média, três pessoas por domicílio, em suas 23.352 residências – mesmo número dos domicílios das áreas urbanas regulares – o “asfalto” do Rio – e inferior à média de todos os outros Estados do País, com a exceção da Bahia (3,2).

Nem o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) – que construiu prédios de apartamentos, abriu ruas e fez um moderno centro esportivo – nem a ocupação da polícia conseguiram, porém, livrar a comunidade da histórica falta de infraestrutura, serviços e saneamento básico.

Ainda há muitos lugares de pobreza extrema, como a Roupa Suja e a Macega. Até recentemente, 1500 famílias dependiam da doação de cestas básicas.

Mas não é preciso ir longe nem tão no alto no morro para ver a carência. Bem em uma das entradas principais da comunidade, entre restaurantes com ar-condicionado e becos que antes abrigavam bocas-de-fumo, o lixo é aparente e o cheiro ruim. No sub-bairro Valão, ex-quartel-general do traficante Nem , o rio de esgoto a céu aberto que dá o nome ao local exala um odor fétido e causa náuseas.

Raphael Gomide
Lixo ainda é problema. Faixa no poste tenta vencer o medo do voto imposto pelo tráfico, nas eleições internas antes da ocupação
A coleta de lixo é outro problema, apesar da coleta dos garis comunitários e com a entrada mais efetiva do serviço de limpeza público, desde a ocupação policial.

Favela com décadas de existência da antiga capital, que atraía intenso fluxo migratório interno, a acessibilidade é difícil e de alta densidade populacional – diferente de comunidades mais novas, como aponta o IBGE. Mesmo vizinha dos mais altos IDHs do Rio, a Rocinha pena com altos índices de tuberculose, pela falta de adequada circulação de ar e de atenção básica em determinadas áreas da comunidade.

Em diversos pontos falta água, questão antiga. O fornecimento de energia elétrica regular é um caso grave. No Estado do Rio, mais da metade (54%) não tinha medidor de energia, o que configura o “gato” (ligação ilegal) de energia. Uma visita à Rocinha rapidamente revela enorme quantidade de fios expostos em ligações clandestinas.

Em meio a um novo momento de definições sobre o futuro, a Rocinha busca firmar sua identidade e encontrar novas lideranças legítimas para organizar a maior favela do Brasil.

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