E se terroristas decidissem atacar São Paulo? O GATE resolve

O Grupo de Ações Táticas Especiais é uma tropa de elite, com treinamento e uso de equipamentos especializados, pronto para resolver crises criminais complexas, que infelizmente se tornaram parte integral do nosso cotidiano
Foto: foto: André Jalonetsky
Típica Unidade de Invasão Tática composta por 5 Policiais do GATE. Cada PM possui um papel distinto no momento da invasão; treinados a exaustão

O Brasil é um país abençoado pois não possui catástrofes naturais nem terrorismo. Certo em relação ao primeiro motivo, mas 200% errado em relação ao segundo. O terrorismo existe aqui, e seus números absolutos e relativos são mais contundentes do que em países que estão em guerra, ou que são alvos frequentes de terroristas. Em São Paulo, a Polícia Militar possui um antídoto eficiente para combater esta situação, o Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE).

Conheça o GATE em detalhes e leia a entrevista de seu Comandante, Major PM Racorti aqui

De alguns anos para cá, os criminosos passaram a portar fuzis de combate com munição supersônica, que perfuram coletes a prova de bala e atingem mortalmente alvos a mais de 1 quilometro de distância. Usam metralhadoras desenhadas para derrubar helicópteros e aviões. Atacam bancos, empresas, carros-fortes e presídios com explosivos de alta potência. Mais recentemente passaram a usar drones e mensagens criptografadas para organizar suas ações, não raramente envolvendo dez ou vinte bandidos simultaneamente. Este é o cenário que o GATE enfrenta, e que claramente não pode ser classificado como combate ao crime. Em qualquer lugar do mundo essas situações são definidas como guerra ou atos de terror com altíssimo poder ofensivo. Você acha isso um exagero? Veja os seguintes números:

1- Síria x Brasil

De 2011 a 2015 morreram 256.124 pessoas na Guerra da Síria. No mesmo período 278.839 brasileiros foram assassinados. 

2- Vietnã x Brasil

Nos 10 anos da Guerra do Vietnã morreram 58.220 soldados americanos. No Brasil, apenas em 2015, foram assassinadas 58.467 pessoas.

3- Estados Unidos e Reino Unido x Rio de Janeiro

Em 2016 foram mortos 64 Policiais nos Estados Unidos e 2 no Reino Unido. Somente no Rio de Janeiro, até setembro de 2017, foram assassinados 101 Policiais.

Dado este cenário, o que explica a contínua redução de crimes violentos no estado de São Paulo nos últimos 15 anos? (veja aqui)  Boa parte da resposta está no apoio que a Secretária de Segurança Pública dá para a sólida estratégia da Polícia Militar paulista em manter diferentes batalhões de elite, cada um especializado em enfrentar situações criminais bastante específicas, com treinamento e uso de equipamentos exclusivos e sofisticados.

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O GATE é uma dessas forças e sua especialidade é intervir em crises urbanas que envolvam reféns, sequestros e explosivos. Seu contingente é composto por atiradores de longa distância, equipes táticas de invasão de cativeiro, esquadrão antibombas e negociadores, prontos para intervir e resolver situações criminais complexas.

Como qualquer força de elite, estes PMs operam em silêncio. Suas táticas, ações, equipamentos e treinamentos não são divulgados. Isso explica o fato de que, mesmo atuando em mais de 400 ocorrências por ano em São Paulo, envolvendo sequestros, explosivos, resgates e motins em presídios, poucas pessoas sabem de sua existência. O GATE prefere assim.

Terroristas armados e com bombas invadem a Câmara Municipal

Seguindo seu cronograma de treinamentos, há algumas semanas o Comando do Grupo de Ações Táticas Especiais decidiu fazer uma simulação de grande porte de intervenção e controle na Câmara Municipal de São Paulo.

Foto: foto: André Jalonetsky
GATE - Os dois 'criminosos' são Policiais veteranos do GATE. Foram instruídos a tomar ações específicas e inesperadas para que os Policiais em seu encalço possam colocar em prática os protocolos de respostas corretas

“O cenário de crise que passamos para nossos Policiais foi o seguinte: dois indivíduos armados, um deles carregando uma bomba, atacaram o 9 andar, efetuaram disparos, fizeram vítimas e possuem reféns. Não sabemos aonde os criminosos estão agora. A missão é isolar o prédio e fazer uma varredura completa, neutralizar a ameaça de novos tiros e explosões, resgatar os reféns e impedir novas vítimas”, explica o Tenente PM Gobbi, Comandante de Pelotão do GATE.

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Nesse treinamento a Polícia Militar decidiu envolver o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) para socorrer os voluntários que vão simular os feridos, e testar protocolos de ação conjunta. Os médicos e enfermeiros vão acompanhar de perto a ação policial e uma vez que o GATE controle uma área com feridos, o SAMU entrará em ação, prestando primeiros socorros e removendo as vítimas com ajuda dos Policiais.

Foto: foto: André Jalonetsky
Neste treinamento de antiterrorismo, feito na Câmara Municipal de São Paulo, o SAMU foi convidado a participar para testar ações de socorro e evacuação de feridos num prédio com múltiplos ambientes confinados em vários andares
Foto: foto: André Jalonetsky
Briefing do treinamento em conjunto para o SAMU e GATE

A operação inicia às 20:00hs. Os PMs isolam o prédio, acessam as escadas de emergência, controlam todos andares em minutos e localizam os dois “criminosos” no subsolo, onde estão os caixas eletrônicos e os auditórios. Os dois “bandidos”, (que na realidade são Policiais veteranos do GATE), vão adotar diferentes posturas de ação, obrigando as equipes a decidir, em frações de segundo, qual a reação correta a ser tomada.

O Capitão PM Wellington,  responsável pela operação explica: “O GATE possui diferentes equipes especializadas para atuar em situações muito específicas. Esses times podem ser usados individualmente ou em conjunto, dependendo do cenário que encontramos. Neste exercício não vou usar a Equipe de Negociação, pois os “criminosos” não aceitam mais conversar e ameaçam atirar nos reféns e explodir uma bomba. Também decidi abrir mão do Atirador de Elite em função das peculiaridades deste ambiente: múltiplas salas sem janelas em vários andares, muitos corredores e escadas. Esta operação será executada por duas outras unidades que tenho à minha disposição: o Grupo de Invasão Tática e o Esquadrão Antibombas.”

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Grupo de Invasão Tática

O uso da invasão tática costuma ser o último recurso usado pelo Comando do GATE. Esse grupo entra em ação apenas quando todas opções de negociação se esgotaram e os agressores entrincheirados estão prestes a ferir ou matar os reféns. Durante a invasão, o principal protocolo que norteia os Policiais é: preservar todas as vidas, inclusive as dos criminosos.

Foto: foto: André Jalonetsky
Na escadaria da Câmara Municipal, ao lado da área a ser invadida, o Capitão PM Wellington (centro) repassa os detalhes da ação para a Equipe de Invasão Tática (de capacete). Ao fundo e em baixo, de boné, estão alguns membros do Esquadrão Antibomba

Mas no caso dos agressores nem sempre é isso que acontece. Por mais estranho que possa parecer, quem define as ações que os Policiais irão tomar durante uma invasão e como será o final da ocorrência, são sempre os próprios criminosos. Se eles abaixarem suas armas e se renderem, serão presos e a crise está resolvida. Caso decidam usar de violência, contra as vítimas ou os Policiais, a reação do GATE será instantânea e fulminante. De qualquer forma a crise será resolvida.

Voltando ao cenário do treinamento, o GATE acaba de localizar os dois marginais na área dos caixas eletrônicos da Câmara Municipal e os mantém cercados. A Equipe de Invasão Tática está do lado de fora, numa escadaria, apenas uma porta separando-os dos agressores. Os Policiais não conseguem ver a localização exata dos bandidos, não sabem que tipo de armamento estão portando e também não conhecem o número preciso de reféns.

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Essa incerteza é parte do exercício: no momento seguinte da invasão, quando os Policiais entrarem em contato visual com o ambiente de crise, deverão avaliar as condições táticas e tomar as decisões corretas. Os PMs do GATE possuem ao seu dispor frações de segundos para fazer isso.

Foto: foto: André Jalonetsky
Unidade de Invasão Tática segundos antes de invadir a área com dois criminosos armados, com uma bomba e reféns. Os armamentos que os Policiais do GATE usam são diferentes em função do papel específico que cada PM irá desempenhar
Foto: foto: André Jalonetsky
Momento de invasão. A ação é extremamente rápida e enérgica. O principal protocolo do GATE é o de preservar todas as vidas, inclusive dos criminosos

“Todo mundo vai morrer, já matei um monte de filho de puta, mais alguns não vai muda nada. Praquela merda da cadeia eu não volto, vou atirar na tua cabeça e explodir tudo”

O Comando do GATE entede que este é o momento em que a segurança dos reféns sofre uma ameaça real e iminente, e dá luz verde para o Grupo de Invasão Tática entrar em ação. Cinco PMs ingressam no ambiente dos caixas eletrônicos e se deparam com duas cenas simultâneas: enquanto um criminoso corre para uma porta lateral de acesso ao auditório, o outro começa a atirar contra os Policiais. Como reagir?

1) Como o bandido que foge não representa um perigo imediato e também carrega uma mochila, provavelmente contendo uma bomba com mecanismo de detonação desconhecido, os 5 Policias tomam a decisão instantânea de não disparar contra ele. A resolução deste problema será postergada por mais alguns segundos.

2) Enquanto permitem que o primeiro bandido fuja para o auditório, os PMs percebem que não há reféns perto do outro marginal que está disparando sua arma. Com uma linha de tiro segura e desobstruída, os Policiais neutralizam o agressor. Assim que este ambiente é controlado, os médicos do SAMU entram em cena para prestar os primeiros socorros ao criminoso.

“Agora os Policiais possuem um problema ainda mais sério. Além de ter que conduzir uma segunda invasão tática, desta vez no audotório, e novamente correndo o risco de serem recebidos a tiros, desta vez o agressor possui uma bomba e pode tomar a decisão de detoná-la”, explica o Capitão PM Wellington.

Após um rápido reconhecimento, os PMs do GATE confirmam que o auditório, onde o segundo criminoso está entrincheirado, não possui reféns. Novamente o agressor está agitado, ameaçando disparar sua arma e detonar a bomba.

O Comando do GATE, mais uma vez, dá luz verde e os cinco PMs da Equipe de Invasão Tática executam uma nova invasão, desta vez mais enérgica e rápida. O segundo bandido toma a decisão de viver e se rende. Ele solta a arma e joga a mochila contendo o artefato explosivo no chão. Ele é imobilizado, algemando e levado sob custódia. Nenhum dos PMs disparou suas armas.

No canto do auditório está a mochila abandonada com uma bomba. Diferente dos outros aspectos deste exercício, essa bomba é real.

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Veja abaixo o video da invasão tática. Note que antes da Equipe de Invasão Tática disparar, você irá ouvir alguns tiros efetuados pelo agressor, só então os PMs revidam. As pontas laranjas das armas indicam que a munição é inerte:


Esquadrão Antibomba

O cenário que o GATE se depara agora é um dos mais complexos que uma força policial pode encontrar: uma bomba de potência e mecanismo de acionamento desconhecidos, dentro de um ambiente fechado, no subsolo de um prédio. Dependendo da quantidade e tipo do explosivo, se um erro for cometido, sua detonação pode resultar em mortes e até na demolição completa do edifício.

Os Policiais do Esquadrão de Bombas montam uma central de comando e controle do lado de fora do auditório, contendo computadores, equipamentos de transmissão e recepção, raio-x, hastes manipuladoras e um robô. Ao lado, um destes PMs começa a vestir o traje anti explosão, que pesa 40kg.

Foto: foto: André Jalonetsky
Membros do Esquadrão Antibomba preparam o centro de comando e controle desta crise. O equipamento que o PM do GATE está manipulando irá receber as imagens de raio-x da bomba e fazer análises detalhadas da sua composição e construção

O traje anti explosão é um dos equipamentos mais sofisticados e tecnológicos que a PM tem. Ele possui sistemas de refrigeração líquida, ventilação, iluminação, comunicação e blindagem para não emitir faíscas, nem pulsos eletromagnéticos que poderiam causar a explosão do artefato a ser neutralizado. O controle dessas e de várias outras funcionalidades do traje é feito através de um painel, um pouco maior que um celular, que fica preso no braço do traje.

Fabricado no Canada ao custo de USD$100 mil a unidade, o traje é feito de Kevlar, um tecido que resiste ao impacto de fragmentos; Nomex, outro tecido que é anti-chamas, e placas de aço para absorver a força da explosão. Os detalhes do nível de proteção são mantidos sob sigilo, mas uma coisa, infelizmente todos sabem. Para manipular os explosivos sem perder a sensibilidade do toque, as mãos do Explosivista ficam 100% expostas, sem nenhuma proteção.

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Voltando ao cenário, apesar de ser um treinamento, a mochila contém uma bomba real e ativa. Os homens do Esquadrão Antibomba, não sabem qual é sua potência nem qual o tipo de explosivo usado. Em relação ao mecanismo de detonação, eles já chegaram a algumas conclusões: não é acionado por uma ligação física com o criminoso, já que ele foi removido do local, algemado sob custódia. Também não deve ser ativado por impacto, pois o criminoso correu com a mochila e quando se rendeu, jogou-a no chão.

Os PMs do Esquadrão Antibomba possuem várias opções para lidar com essa sitação. Podem remover a mochila para um local mais seguro, podem desarmar a bomba, ou detoná-la. Como esta crise acontece num ambiente fechado, no susbsolo do prédio, os PMs decidem que o curso de ação mais seguro e lógico é fazer uma imagem de raio-x da mochila para conhecer em detalhes o tipo de construção e funcionamento do artefato, para depois decidir o que fazer.

Foto: foto: André Jalonetsky
Explosivista recebe suas instruções finais antes de entrar no auditório para instalar o equipamento de raio-x que irá ajudar a analisar a bomba
Foto: foto: André Jalonetsky
Explosivista coloca o transmissor de raio-x na frente a mochila, a placa receptora atrás e conecta o equipamento de transmissão que irá enviar as imagens para a equipe de comando, fora da sala. Note que as mãos do Explosivista não possuem nenhuma proteção, para que ele não perca a sensibilidade de manipulação

Já vestido com o traje protetor, o Explosivista entra no auditório, coloca o canhão emissor de raio-x de um lado da mochila, a placa receptora do outro e conecta o equipamento de transmissão de imagens. No posto de comando, o video é recebido e analisado. Em poucos minutos o Esquadrão de Bombas identifica com precisão todas características da bomba e decide não desarmá-la, nem removê-la do local. A forma mais segura de lidar com este tipo de artefato é desativar seu mecanismo de detonação através de um choque hidrostático gerado pela explosão de outra bomba.

É difícil acreditar, mas num local onde há uma bomba ativa, deixada por um terrorista, o Esquadrão Antibomba decide fabricar outra bomba! Para isso eles usam uma garrafa plástica, água e uma carga explosiva de acionamento elétrico. A quantidade de água e explosivo colocados dentro da garrafa são calculados com extrema precisão. O Explosivista volta para o auditório e acomoda a “Bomba do GATE” dentro da mochila, numa distância e angulo corretos da bomba original, e cobre tudo com uma manta balística para reduzir os efeitos colaterais da explosão.

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O objetivo ao se explodir a garrafa plástica é de se direcionar a água, em altíssima velocidade, contra a bomba original, gerando um impacto suficientemente forte para destruir seu mecanismo de acionamento, mas sem a energia que cause sua explosão. Um equilíbrio bastante delicado com uma margem de erro bem estreita. Lembre-se que agora o Explosivista está lidando com duas bombas reais, sem nenhuma proteção nas suas mãos.

Foto: foto: André Jalonetsky
Após o GATE determinar o tipo de bomba e seu mecanismo de detonação, o Explosivista volta para o auditório e coloca uma segunda bomba, feita pelo GATE, dentro da mochila, que ao ser detonada irá desativar a bomba original. Note que tudo está sendo coberto por uma manta balística para minimizar os efeitos da explosão. Sem proteção nas mãos, o Explosivista manipula agora duas bombas
Foto: foto: André Jalonetsky
O explosivo do GATE é detonado e incapacita a bomba original

Com tudo preparado, o Explosivista sai do auditório, outro PM se assegura que toda a área esteja desocupada, faz a contagem regressiva e aciona a "Bomba do GATE". Apenas uma explosão é ouvida. A bomba original foi neutralizada.

Provavelmente você nunca irá ver o GATE em ação. Esses PMs vão continuar resolvendo crises criminais complexas com extrema competência e em silêncio, mas se você precisar da ajuda deles, basta discar 190.

Veja abaixo o vídeo completo do Esquadrão Antibomba em ação. Note que as mãos do Explosivista não possuem nenhuma proteção. A explosão no final é da pequena bomba que o GATE construiu para neutralizar o mecanismo de detonação da bomba maior:




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