Matando todos aos 13 anos

Por Paulo Ghiraldelli - iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Filósofo discute o interesse coletivo pela história do garoto apontado como autor da morte dos pais, da avó, da tia-avó em São Paulo

A conclusão da polícia é de que o garoto de treze matou a família, foi à escola e, voltando para casa, se matou. Dito assim parece uma bobagem sem tamanho. Soa ainda mais tolo quando se nota que o menino não era violento na escola e que os vizinhos o qualificaram como incapaz de fazer o que se diz que fez, ou seja, atirar em alguém.

Leia também:

Menino relatou sonho de fugir de casa e matar os pais, afirma delegado

Vizinhos não entendem crime: "O menino era um amor"

Menino pode ter ido à escola após matar a família, diz a PM

Todavia, vamos supor que a polícia tenha acertado. Tomemos também a hipótese de que acreditamos que a polícia tenha acertado. O que nos faz ficar perturbados? O que faz com que passemos a ler a notícia em vários lugares, procurando mais elementos?

Boa parte de nós lê sobre o assunto vorazmente menos para saber do garoto e do crime, ainda que gostemos de novela policial, e mais porque queremos saber sobre nós mesmos. Queremos saber o que se passa na cabeça de alguém no tempo que é decorrido entre matar pais e avós, ir à escola, voltar e então e só então se matar. Nosso desejo de saber disso vem de querermos nos conhecer.

Todos nós somos enigmas para nós mesmos. Quando nos deparamos com casos assim, ficamos obcecados porque queremos nos imaginar no lugar do garoto e tentar sentir o que ele sentiu nesse tempo em que esteve na escola e voltou. Temos a impressão de que se fizermos na imaginação o que o garoto tirou da imaginação e colocou em prática, saberemos afinal quem somos nós ou, melhor dizendo, o que somos nós.

Polícia faz perícia na casa da família de PMs, assassinados na Vila Brasilândia. Foto: Edison Temoteo/Futura PressCâmeras de segurança mostram momento em que garoto vai à escola no início da manhã de segunda-feira (05). Foto: Futura PressFoto em site de relacionamento mostra casal de policiais militares e o filho. Foto: ReproduçãoCarro da polícia patrulha a rua da residência onde foram encontrados os cinco corpos (06/08). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressViatura policial em frente a residência no dia (06), na Vila Brasilândia. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGCasa onde foram encontrados os cinco corpos no bairro da Brasilândia, zona norte da cidade de São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressPoliciais em frente a casa na Brasilândia, na manhã de terça-feira (06/08). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressParte do portão e do muro da casa onde o corpos foram encontrados, na Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressA porta de entrada da casa do policias encontrados mortos na segunda-feira (05/08). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressAuto de lacração na casa onde foram encontrados os cinco corpos. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressDetalhe do portão da casa do policiais mortos em São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressCasa onde foram encontrados os cinco corpos na segunda-feira (05/08), no bairro da Brasilândia, zona norte da cidade de São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressPoliciais em frente ao portão da casa na tarde de terça-feira (06), em São Paulo . Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGFachada da escola onde estudava o menino de 13 anos. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGA escola do garoto também fica na zona norte de São Paulo. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGO delegado Itagiba Vieira Franco, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso . Foto: Eduardo Ferreira/Futura PressO delegado geral da Polícia Civil, Luiz Mauricio Blazeck chegando ao DHPP, na quinta-feira (8). Foto: Futura PressColégio Stella Rodrigues, na zona norte de São Paulo, onde estudava o garoto . Foto: Futura PressResidência da família Pesseghini amanheceu pichada na sexta-feira (09). Foto: Futura PressPedestres caminham e observam a casa número 42 da família Pesseghini, na sexta-feira (09). Foto: Carolina Garcia/iG São PauloFachada do colégio onde o menino estudava em São Paulo, uma semana depois do crime. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMovimentação em frente ao colégio na volta às aulas (12/08). Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMovimentação de policiais em frente a escola na Freguesia do Ó, em São Paulo, nesta segunda-feira (12). Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMuros da casa pichados nesta manhã de segunda-feira (12). Foto: Wandeley Preite SobrinoPara chegar até a casa, pichadores precisaram pular os muros. Foto: Wandeley Preite SobrinoCasa ao lado direito da residência dos Pesseghini também foi pichada. Foto: Wandeley Preite SobrinoPortão da casa estava pichado desde a semana passada.. Foto: Wandeley Preite SobrinoMuro em frente à casa onde ocorreu o crime também foi pichada. Foto: Wandeley Preite SobrinoDona da casa reclamou das pichações em seu muro. Foto: Wandeley Preite SobrinoNotícia do crime completa uma semana nesta segunda-feira (12). Foto: Wandeley Preite SobrinoMoradora tenta apagar as pichações no muro de sua casa. Foto: Wandeley Preite SobrinoOração fixada no portão da casa onde aconteceu as cinco mortes em São Paulo. Foto: Wandeley Preite Sobrino

Entramos na pele do garoto e nos pomos a pensar: “bem, acabei de matar pessoas – meus pais! Opa! Hora da aula, não posso faltar”. É isso? Logo em seguida, dizemos para nós mesmos: “ah, mas se foi assim, nada podemos aprender disso, o garoto estava maluco”. Em um terceiro momento, reagimos de maneira diferente: “sim, ele estava maluco, mas e nós?” Não podemos esperar grande adrenalina de um ato nosso e ao praticá-lo não recebermos nada em troca? Cada um de nós, ao menos os mais velhos, já se pegou em desespero por questões mínimas e já se manteve extremamente calmo em situações que deveriam ser apavorantes e desestabilizadoras. Bem, se é assim, então temos mesmo de entender o garoto. Matar, ir para a escola e voltar para então se matar pode sim ocorrer conosco. Cada um de nós sabe que, de certo modo, aos treze anos, poderíamos sim realizar uma coisa desse tipo e continuarmos uma rotina. Aos treze anos é fácil agir assim. Por quê?

Em nossa sociedade, treze anos é mais ou menos um período de término de algo que começa por volta dos oito ou nove anos, que é a pré-adolescência. Nessa época, não raro, negamos os valores e comportamentos dos adolescentes, que para o nosso paladar são desregrados, apaixonados, emotivamente instáveis. Estamos na beira de agirmos como eles, e então os negamos peremptoriamente, adotando o comportamento de nossos pais ou de qualquer outra autoridade que nos dê uma moral rígida, uma regra acordante com a sociedade. Nada mais linha dura em moral que um pré-adolescente. Um adolescente pode matar os pais para experimentar a adrenalina e também para impressionar a namorada. Um pré-adolescente mata os pais para cumprir um projeto de vida, um ideal moral.

Matar pais e avós enquanto eles dormem é um modo de dar um passo na direção de se fazer um cumpridor de um ideal profissional, por exemplo, o de ser um matador. Muitos de nós testamos profissões com os de casa: abrimos uma lojinha e nossos primeiros clientes são nossos pais e avós. Ora, podemos abrir um escritório de serviços, um lugar onde se contrata matadores de aluguel, e podemos escolher como clientes ou como vítimas nossos pais. Não desejamos cumprir o serviço e, então, nos desesperar de modo a mostrar que não cumpríamos um segundo serviço. Cumprimos um serviço, depois, fazemos o que temos sempre feito em seguida, que é ir à escola, e então voltamos. Só então avaliamos que fizemos um serviço “barra pesada”.

Um adulto agindo dessa forma é claramente um psicopata. Um garoto de treze anos agindo dessa forma pode até ser um candidato a se transformar em psicopata, mas não necessariamente é um psicopata. Pode muito bem ser apenas um “ideia fixa” em uma fase em que ser tal coisa é um brinquedo levado a sério.

A pergunta dos treze anos é clara: “agüentarei a adrenalina que sinto que vai cair no meu sangue quando todos os hormônios estiverem no pico?” Na busca dessa resposta, podemos tentar várias coisas. Uma delas pode ser esta: “vou ver o que ocorre se eu quiser ser aquilo que quero ser, vou ver se isso que quero ser me dará emoções que eu posso suportar, tanto quanto imagino que não posso suportar a nova fase da minha vida, que é a adolescência”. Uma pessoa que se observa e que possui boa memória sabe muito bem do que estou falando, do que estou apontando. Estou falando não dos dez anos ou dos quinze. Estou falando dos treze anos.

Por volta dos treze anos é quando os últimos momentos de indistinção entre fantasia e realidade tendem a desaparecer. Daí para diante há a realidade. Claro que, daí para diante, se trata de uma realidade de aventuras, a realidade do adolescente. Mas a aventura é bem diferente do sonho acordado. Aos treze é bem possível o sonho acordado e certa indistinção a respeito disso. Juntando esse estranho dado com o elemento moral rígido típico da pré-adolescência e algum treinamento no manejo do que precisamos manejar e pronto – eis aí a poção que se pode beber para se ter a mágica. Ou, digamos, mais acertadamente no caso, a bruxaria.

Paulo Ghiraldelli, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Leia tudo sobre: Paulo Ghiraldelli Jr.igspmorte de pmsmaislidas

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas