Para filósofo, Francisco fez questão de mostrar aos líderes políticos que ele tem mais militantes e mais poder que eles

Francisco desembarcando do avião da Alitália no aeroporto de Roma, nest asegunda-feira, após viagem de sete dias pelo Brasil. Ele seguiu em helicóptero até Vaticano
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Francisco desembarcando do avião da Alitália no aeroporto de Roma, nest asegunda-feira, após viagem de sete dias pelo Brasil. Ele seguiu em helicóptero até Vaticano

Os dias são agora de ressaca. Depois da bebedeira na balada religiosa, temperada pelo mar gelado, filas imensas, show das “vadias” e rebuliço antigoverno estadual e, talvez, federal, a antiga capital da República quer colocar os pés de molho. Foi uma semana catártica, vivida como algo muito mais interessante que o carnaval.

O carnaval, cá entre nós, está ficando cada vez mais chato, uma vez que o inusitado já não tem mais vez. A miscelânea festiva da semana passada não! Ela tinha agenda, mas apenas com rabiscos. O que ia mesmo ocorrer, ninguém sabia. Realmente houve emoção de todo lado e todo tipo. Aliás, em determinado momento, tudo isso deve ter deixado Obama maluco. Ele, espionando tudo, deve ter dito: “what the hell is this?”.

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Enquanto o papa pedia para os jovens saírem às ruas, fazendo a juventude católica chorar de emoção, ali do lado havia um bocado de jovens alheios a qualquer reverência à religião institucional, ainda nas ruas, gritando contra o governador Cabral. No mesmo contexto, apareceram as “vadias”, umas repetindo a performance das marchas anteriores, com seios de todo tipo de fora – e até alguns belos e resistentes à gravidade –, enquanto outras exibiam um teatrinho de rua em que esfregavam crucifixos nos sexos e quebravam imagens de santos. Deus e o demônio em Copacabana – quer melhor lugar para duas figuras tradicionais que, enfim, nem sabem mais como ganhar uma alma? Afinal, nesse tabuleiro, o que é agora pecado?

Veja fotos da Marcha das Vadias em Copacabana durante a JMJ 

Mas o Brasil emergente disso não tem forças para contabilizar o saldo, se é negativo ou positivo, e quem saiu de fato ganhando. A ressaca é realmente brava. Nunca se gastou energia de modo tão diversificado como dessa vez. Foram muitas “maiorias” e “minorias” no desejo de participar de um país que finalmente está vivendo a democracia que nunca conseguiu viver. Todos os pequenos períodos democráticos que tivemos antes mostraram manifestações hegemonizadas por algum grupo ou ideário ou conflito com cartas marcadas. Agora, a marca é a diversidade e os interesses em várias direções mostram a batuta e dão o tom.

Os políticos e os partidos, com seus militantes (pagos, claro), estão sem saber como lidar com isso tudo. É engraçado vê-los, os políticos e seus funcionários-militantes, como baratas tontas, isto é, mais tontas do que já são corriqueiramente. Nas redes sociais essa confusão chega a ser uma boa comédia: a esquerda e a direita tradicionais não se entendem mais com seus chefes e com seus destinatários, pois não sabem quem atacar. Perderam o rumo uma vez que não possuem mais o controle da democracia, das ruas e até mesmo das pesquisas de opinião. Como sorte, talvez em algum momento deste ano ainda, possamos dar uma de cachorro peludo molhado, chacoalhando todo o corpo, jogando pulgas partidárias atordoadas bem longe. Quem sabe até o final do ano isso não ocorra, fazendo-nos livres de determinados parasitas?

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Na ressaca, isso parece pouco plausível. Estamos todos cansados. Mas na quinta-feira já teremos recuperado o fôlego, e novas jornadas de rua terão sua vez. Não há cidade que não tenha tido o seu protesto de rua. E não há lugar que inusitadas manifestações não continuem surgindo. Há uma inquietação no ar. Qualquer novo vinte centavos pode ser o elemento detonador, até porque, no cotidiano, nada está realmente calmo e parado. Todo dia é dia de uma greve aqui ou acolá ou uma manifestação de um grupo com reivindicações novas.

Todo papa diz “quero trazer paz e conforto”. Mas um papa argentino jamais iria dizer isso de coração. É próprio do argentino trazer confusão. Esse papa gosta disso. Ele gosta de ser papa, de fustigar, de mostrar aos líderes políticos que ele tem mais militantes que eles. Ele gosta mesmo de mostrar que a Igreja Católica pode fazer um estardalhaço que outras forças, com mais dinheiro, armas, propaganda doutrinária e aparente abraço com a história, não conseguem nem iniciar. Durante todo o tempo aqui no Brasil, no encontro com políticos, Francisco fez questão de exibir-se assim, com poder. Dilma e sua colega Argentina perceberam isso. Também elas estão de ressaca.

*Paulo Ghiraldelli Jr., 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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