Nova York redesenha linha do horizonte com novo World Trade Center

Ao contrário do WTC das Torres Gêmeas, a segurança é posta acima do custo e do design; infográfico mostra disposição de prédios

Carolina Cimenti, de Nova York, especial para o iG |

Quando as Torres Gêmeas foram destruídas no 11 de Setembro , não deixaram um buraco somente ao sul da ilha de Manhattan. Elas também criaram um rombo moral na maior potência do mundo e um vazio de 110 andares no orgulho dos americanos. As torres do World Trade Center (WTC) foram um ponto turístico, presença na linha do horizonte nova-iorquino e um símbolo da riqueza capitalista da maior economia da Terra durante 30 anos. O ex-governador de Nova York George Pataki chegou a dizer que reerguer o WTC “não era apenas um capricho, mas um dever patriótico”.

Em 2003, foi aberto um concurso para escolher o projeto do novo WTC, que foi então apelidado de Freedom Tower (Torre da Liberdade). O arquiteto Daniel Libeskind apresentou o projeto vencedor, que veio a ser modificado diversas vezes pelo arquiteto contratado David M. Childs até chegar à sua versão final, em 2005.

Em maio do ano seguinte, a construção no Marco Zero (onde ficavam as Torres Gêmeas) foi iniciada. Além do prédio mais alto - o One World Trade Center -, o novo WTC será composto por mais três edifícios e terá como vizinhos uma estação de transportes, um centro de apresentações culturais e um memorial e museu para as vítimas dos ataques. (Veja infográfico acima)

Quando concluído, em 2013, o One World Trade Center será o prédio mais alto dos EUA e o terceiro do mundo, com 1.776 pés de altura (quase 542 metros) - uma homenagem ao ano em que os EUA declararam sua independência. Contando com a antena que será colocada no seu topo, ela será ligeiramente mais alto que as Torres Gêmeas.

“A linha do horizonte de Nova York será finalmente corrigida”, disse o prefeito Michael Bloomberg quando a nova torre chegou ao 50º andar, em julho. Mas, pelo lado comercial, reconstruir o complexo de prédios talvez não faça muito sentido. Em primeiro lugar, os EUA ainda estão no meio de uma profunda crise econômica e apresentam altos índices de desemprego. Em segundo, quem pagaria para se mudar para o topo de um prédio que substituirá o maior alvo terrorista de todos os tempos? Medo nunca vendeu bem, e em maio o chefe do Departamento de Polícia de Nova York, Ray Kelly, publicamente descreveu o novo WTC como “o alvo terrorista número um da nação”.

Site do WTC/ Silverstein Properties
Ilustração mostra como ficará linha do horizonte de Manhattan após conclusão de novo complexo do World Trade Center, que substituirá o destruído no 11 de Setembro
Promessa de segurança

Para atrair inquilinos, a Autoridade Portuária, agência pública proprietária do WTC, terá de convencer a todos que a nova torre será infinitamente mais segura que as Torres Gêmeas .

O primeiro passo foi contratando a consultoria de uma equipe da Universidade de Illinois, constituída por engenheiros, arquitetos, policiais e bombeiros especializados em emergências em espigões. John Norman, um ex-chefe do Departamento de Bombeiros de Nova York, fez parte dessa equipe e concedeu uma entrevista exclusiva ao iG .

“Prédios muito altos podem resistir a um grande incêndio, mas não podem seguir as regras da construção atual; têm de ser construídos de forma mais conservadora”, disse. “Um exemplo disso é o prédio número 70 da rua Pine em Nova York. No 11 de Setembro, ele queimou por 24 horas descontroladamente, mas não entrou em colapso como as Torres Gêmeas, e continua em uso até hoje.”

Quando fala sobre as construções mais antigas, como o Empire State em Nova York, Norman se refere ao maior uso de concreto, em vez do predomínio atual de aço nas construções (que, com o vidro, era o material predominante no antigo WTC ). “Quanto mais concreto, menos o fogo se espalha, por isso é fundamental usar concreto mais que possível, principalmente nas escadas de emergência”, afirmou. 

Algumas das recomendações que Norman e seus colegas deram à Autoridade Portuária foram:
1. proteger as escadas de emergência com concreto reforçado;
2. construí-las mais largas e espaçosas, incluindo saídas de água para mangueiras e sprinklers (sistema anti-incêndio), além de exaustores de fumaça;
3. instalar cabos elétricos de emergência para o caso dos normais serem cortados ou interrompidos;
4. ter certeza de que os elevadores abrem as portas automaticamente em caso de emergência, e de que existem aberturas a cada três andares na parede da coluna de cada elevador (para que possam ser localizados rapidamente em caso de pane geral);
5. usar a maior parte do aço da construção dentro de armaduras de concreto em vez de simplesmente protegê-lo com spray anti-incêndio;
6. instalar detectores de fumaça, de agentes químicos, de agentes biológicos e de radiação em todas as salas de todos os andares.

“Todas as nossas recomendações procuraram aumentar a possibilidade de sobrevivência dos ocupantes do prédio no caso de um novo ataque”, disse o ex-chefe do departamento dos bombeiros.

Além de aceitar quase todas as recomendações (detectores de agentes químicos e de radiação provavelmente não serão colocados), a Autoridade Portuária também divulgou em seu site que o novo WTC “criará um novo modelo de segurança para prédios altos”. Esse modelo inclui múltiplos backups para as luzes de emergência, escadas de emergência pressurizadas (nas quais a fumaça não conseguirá entrar), proteção de concreto em todos os sprinklers e saídas de emergência “que facilitarão uma rápida e fácil retirada”.

Todos os veículos serão revistados antes de entrar no prédio, incluindo com tecnologia de detecção de material radioativo, em uma rua subterrânea que levará à garagem. Além disso, todos os visitantes passarão por uma área de segurança e revista parecida com a dos aeroportos. Mais de 400 câmeras monitorarão o WTC durante 24 horas, transmitindo o sinal diretamente para a polícia de Nova York, e um computador com um software de vídeo-analítico ajudará a apontar potenciais perigos, como bolsas e sacolas abandonadas ou fisionomias parecidas com a de supostos terroristas ou criminosos.

Além de tudo isso, o projeto inicial foi modificado para afastar o prédio de uma estrada próxima, pois a polícia temia que um carro-bomba pudesse ser acionado nas proximidades. Mais importante, o projeto foi radicalmente modificado para que fosse criada uma base de 60 metros de altura, feita toda em concreto e sem janelas, para protegê-lo no caso de um carro-bomba. Um espécie de bunker de entrada.

Apesar de ter a mesma altura das Torres Gêmeas, o novo One WTC terá menos andares. As torres originais tinham 110 andares, sendo o 106º o último a ser ocupado comercialmente. A nova torre terá 82 andares, sendo alguns subterrâneos e 74 acima do térreo. O primeiro andar acima da base de concreto será designado como 20º e será o primeiro andar de escritórios. Dos 82 andares, apenas 69 serão alugados como escritórios, contando dois andares especificamente para canais de televisão e dois restaurantes. Acima deles, estarão dois decks de observação e, no topo do edifício, uma antena de 124 metros de altura esculpida pelo artista Kenneth Snelson.

Mudança de jogo

Apesar de o prédio parecer mais sólido e mais seguro que o antigo WTC, fica a pergunta: quem, além de funcionários públicos da Autoridade Portuária, vão ocupá-lo? O ex-governador de Nova York Eliot Spitzer chegou a chamar o complexo de “elefante branco do mundo imobiliário” anos atrás. E, inicialmente, ele parecia realmente fadado a falir. Em 2008, os proprietários conversaram com grandes bancos, como Merrill Lynch e JPMorgan Chase, mas, em meio à crise financeira, nenhum deles considerou uma mudança de endereço.

Finalmente, em maio de 2011, o projeto conquistou seu maior voto de confiança de todos os tempos. A editora Condé Nast, que publica revistas como Vogue, The New Yorker, Wired e Vanity Fair, anunciou que alugaria um milhão de metros quadrados do novo prédio por 25 anos (acredita-se que por US$ 2 bilhões). Christopher Ward, o executivo da Autoridade Portuária responsável pelo WTC, disse em uma coletiva que o contrato com a Condé Nast era uma “fenomenal mudança no jogo” e a editora “criaria muito mais interesse na área sul de Manhattan”.

De acordo com a publicação New York Magazine, os dois lados foram rápidos para acertar o valor do acordo, mas fizeram dezenas de reuniões posteriores para alcançar “outros detalhes”, como a liberdade das centenas de carros da empresa entrarem e saírem sem revista e o cálculo de quanto tempo Anna Wintour, a famosa editora de Vogue, precisaria esperar para que um vestido subisse até a sua sala para que fosse aprovado. A Autoridade Portuária acabou dando luz verde para todos as requisições de Condé Nast, e o contrato foi assinado.

O novo One World Trade Center originalmente seria inaugurado em 2011, mas, em outubro de 2008, teve sua inauguração protelada para 2013. O valor estimado de toda a construção, que neste mês atingiu mais da metade de sua altura final, é de US$ 6,1 bilhões.

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