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Integrante diz ao iG que organização defende a liberdade e quer ter parceria equilibrada como parte da sociedade egípcia

Vista pelos EUA, Israel e pelo governo egípcio como uma ameaça ao Estado laico, a Irmandade Muçulmana é tida como legítima integrante da mobilização popular e da sociedade egípcia pelos manifestantes da praça Tahrir, símbolo dos protestos pela saída do presidente do Egito, Hosni Mubarak. Para a maior parte dos que querem a queda do regime, o grupo tem o direito de ocupar seu espaço politicamente em um Egito democrático.

“Eles são egípcios, não são extremistas e têm direito a sua voz política. A maioria aqui está cansada dessa enorme quantidade de teorias da conspiração”, disse a estudante de Ciência Política da Universidade Americana do Cairo Farida El-Gueretly, referindo-se aos temores de que o grupo conduza o país para uma revolução islâmica similar ao do Irã em 1979.

Cartuns sobre a atual situação do Egito e com críticas ao presidente Hosni Mubarak são expostos na praça Tahrir, Cairo
Raphael Gomide
Cartuns sobre a atual situação do Egito e com críticas ao presidente Hosni Mubarak são expostos na praça Tahrir, Cairo
Uma das forças mais bem organizadas e disciplinadas da sociedade egípcia, a entidade proscrita pelo governo foi fundada em 1928 e centra suas ações no trabalho social, embora mantenha atuação política. A Irmandade, cujos adeptos contam representam cerca de 15% a 20% da população do país, prega que as leis tenham origem no Alcorão (o livro sagrado dos muçulmanos). Pela mistura de religião com política, é frequentemente acusada de ser extremista.

Para o professor de Ciência Política da Universidade Americana do Cairo Kareem Kamel, essa visão  de "ameaça islâmica" é perpetrada com a intenção de manter o status quo, e Mubarak tem se valido desse "bicho-papão" para garantir o apoio externo e justificar o autoritarismo. "Na realidade, a Irmandade pode ser considerada um movimento islâmico moderado que já demonstrou adaptabilidade e boa-vontade de atuar sob regras democráticas para mudar o sistema. É uma linha que se foca em reformas sociais sob a perspectiva religiosa e flexível no que diz respeito à implantação da lei islâmica. Mais importante, são inimigos da Al Qaeda. Rejeitam o conceito de jihad global e devem ser distinguidos desse grupo terrorista", afirmou Kamel.

A Irmandade tem enorme capacidade de mobilização e, na quarta-feira de 2 de fevereiro em que houve choques entre os grupos anti e pró-Mubarak, cerca de 5 mil homens do grupo foram rapidamente arregimentados para lutar na praça.

“Não somos uma ameaça, vivemos na pluralidade, pela democracia e a liberdade. Por que nos temem? O Ocidente precisa escolher entre apoiar a democracia ou a ditadura. Eles dizem apoiar a democracia e a liberdade, então precisam fazer suas ações práticas coincidirem com as palavras. Não devem resistir a derrubar Mubarak”, disse ao iG um dos líderes da Irmandade Ahmed Diab, professor universitário e membro do Parlamento entre 2005 e 2010.

“Queremos uma parceria equilibrada. Somos parte dessa revolução e queremos dividi-la com a juventude e seus líderes. Integramos a sociedade que está se rebelando. Não queremos guerra com ninguém [referência a Israel, que manifesta seu temor em relação ao grupo] e não teremos candidato à presidência do Egito”, afirmou Diab. Oficialmente, o grupo já havia manifestado a intenção de só lançar nomes ao Parlamento nas próximas eleições.

Para o engenheiro Ibrahim Saleh, “essa não é uma revolução islâmica” e “a Irmandade Muçulmana não quer a cadeira de presidente”. “Essa é a beleza da revolução. Eles [da Irmandade Muçulmana] são sinceros, e são tantos. Agora são [vistos como] egípcios, e estão lado a lado com os outros grupos em uma mobilização ampla”, disse a especialista em turismo Amina Abd Al Salem.

Na opinião de Haysam Nour, 30, morador da Itália, “não há medo da Irmandade Muçulmana”, trata-se de uma jogada psicológica do governo para dividir a população. “Essa é uma revolução de todos os egípcios, todos querem eleições livres. O governo quer confundir com essa história de que os islamistas vão comandar o país, para assustar as pessoas. Tenho muitos amigos cristãos, e Mubarak tenta convencer que a Irmandade Muçulmana vai tomar a frente e o controle, mas isso não é verdade. Muitos amigos meus coptas (cristãos ortodoxos) perderam a fobia da Irmandade”, disse Haysam, que voltou ao país três dias antes do início dos protestos.

O professor Kareem Kamil lembra que o grupo faz parte da cena política egípcia desde os anos 20 e "toda tentativa de liquidar o movimento ou negá-lo falhou, porque eles sempre conseguiram voltar à política". "Acredito que eles tenham legitimidade para atuar em um papel importante no governo e ser representados em qualquer sistema democrático. Negar-lhes um lugar ou marginalizá-los só vai criar as mesmas tensões, o que não contribuirá para a estabilidade do Egito. Não creio que pretendam instalar um regime islâmico no país. Eles entendem que o establishment militar egípcio - a mais poderosa instituição no país - não permitiria que isso ocorresse, nem os Estados Unidos, tendo em vista o papel central do Egito na estratégia americana para o Oriente Médio", afirmou.

Criança puxa coro de gritos contra presidente egípcio, Hosni Mubarak, na praça Tahrir, Cairo
Raphael Gomide
Criança puxa coro de gritos contra presidente egípcio, Hosni Mubarak, na praça Tahrir, Cairo
A convivência na praça parece aproximar a Irmandade de outros egípcios. “Eles não lideraram o início da revolução no dia 25, vieram depois do dia 28. Mas muitos estão conversando com civis, trocando ideias. É importante integrá-los à política. Eles vão mudar, e nós também. Definitivamente, eles estão entre as principais vítimas de Mubarak nos últimos 20 anos”, afirmou o urbanista Amr Fayez, 36.

Porém, permanecem temores em alguns setores da sociedade. Parte da elite econômica, a muçulmana Morwa Sharaf, 30, voltou ao país dias antes do início do movimento, que apoia, após um ano no Reino Unido - o marido trabalha para a British Petrolium. Em sua visão, a Irmandade "é uma ameaça". "Eles são violentos, se lhes derem a chance. Eles acham que aqui deveria ser a Arábia Saudita, mas nós somos progressistas." O estudante Mokhtar Samaha, 17, filho de um ex-assistente do Ministério da Fazenda e aluno da Escola Americana Internacional, diz que se o grupo chegasse ao poder seria "uma catástrofe".

Também na minoria cristã, persiste o medo. “Meu pai não queria que eu viesse à praça Tahrir. Ele disse: ‘Você vai ajudar a Irmandade Muçulmana a assumir o poder’. Ele é católico e, como os cristãos mais velhos, fica preocupado porque diz que Mubarak nos protege deles. Mas, outro dia, veio um cara barbudo da Irmandade, sentou-se ao meu lado, e passamos a discutir religião. Foi inusitado, mas muito interessante”, disse Christine Kamil Henri, 24, estudante de Direito.

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