Matheus Pichonelli

Dá pra apontar um vencedor do debate com presidenciáveis na Band?

No primeiro enfrentamento contra Lula, Flávio Bolsonaro mostra em rede nacional a teoria do pombo enxadrista

Candidato a Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL) e o Presidente e candidato a reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante debate presidencial promovido pela TV Bandeirantes, na sede da emissora, região sul de São Paulo, neste domingo (18)
Foto: Marina Uezima/Parceiro/Agência O Dia
Candidato a Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL) e o Presidente e candidato a reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante debate presidencial promovido pela TV Bandeirantes, na sede da emissora, região sul de São Paulo, neste domingo (18)

Quem venceu o debate?

É a pergunta que todos se fazem após o primeiro enfrentamento entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em rede nacional.

A única resposta possível é outra pergunta: teve debate?

Quem acompanhou com alguma atenção a disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2024 sentiu, além de vertigem, uma sensação de déjà vu no domingo (18). Pudera: um dos personagens principais daquela disputa é hoje o principal estrategista de um dos candidatos. E ele está disposto a jogar sujo.

A eleição daquele ano foi marcada por uma cadeirada de um candidato contra o outro. Foi um golpe na ideia de política como aprendemos na escola. Dez anos antes ela até apontava uma febre alta. Agora está na UTI.

O triunfo da violência quebrou o ideário secular de que é na política que resolvemos nossas diferenças e buscamos acordos e conciliações. Nela até quem ganha aprende a ceder. Aprende-se também a perder.

A cadeirada quebrou essa ideia, e se de dois anos pra cá minimizamos tudo isso com memes e figurinhas de WhatsApp foi por conta do autoengano de que aquela era uma disputa local, sem consequências para a vida prática da maioria dos cidadãos. Ledo engano. Não era um problema dos paulistanos, e sim um alerta para o país. A resposta veio nas urnas. Nenhum dos brigões se elegeu.

Corta a cena e Lula, um símbolo da conciliação, vivenciou em tempo real a teoria do pombo enxadrista. Significa que se você jogar xadrez com um pombo ele não vai fazer cavalos, bispos e peões caminharem conforme as regras. Vai derrubar as peças, defecar no tabuleiro e sair voando cantando vitória.

Mas ninguém ganha quando a sensação no dia seguinte é a de adoecimento.

Flávio, que passou a campanha tentando mostrar que é um Bolsonaro moderado, levou pouco tempo para revelar quem de fato é: um playboy debochado que faz da vida uma grande brincadeira. Chegou até onde chegou por obra do pai, outro piadista, e alguma ajuda dos amigos. Tem de tudo nessa teia de relacionamento. De milicianos representados em seus gabinetes a advogados suspeitos de lavar dinheiro em sociedade. Tem também banqueiro disposto a abrir a carteira para financiar um filme cujo patrocínio ninguém sabe, ninguém viu. Tudo pelo sonho da casa própria, e ela não seria comprada com salário de parlamentar.

Flávio provocou, debochou, riu, tomou enquadro dos apresentadores. Mentiu. Só não responder às perguntas do oponente, que ficou tão fora de si que sentiu dificuldade para detalhar projetos e propostas com um papagaio de pirata às costas.

No limite, era um senhor de 80 anos que teve a trajetória resumida e desrespeitada por quem jamais aprovou um projeto como parlamentar.

Na escola, os moleques da quinta série são advertidos, punidos, expulsos.

No campo da política, hoje tensionada por minas terrestres, querem assumir a direção. Para serem moleques em tempo integral e bolar um jogo com as próprias regras.

Em duas horas de confronto, quem assistiu ao debate sentiu raiva, revolta, medo, desalento. São os afetos que enferrujam os motores do jogo de conciliação, com enfrentamento de ideias, teses, antíteses e sínteses que costumávamos chamar de política.

Nesse novo jogo, ganha quem grita mais, quem mente melhor, quem foge melhor de qualquer chamado à responsabilidade da vida adulta.

O debate é só o spoiler do que vem por aí.

Com golpes baixos ou não, quem vence precisa no dia seguinte negociar, buscar consensos, governar. Com representantes de outros Poderes, outros partidos, com a sociedade civil, com a própria equipe, com outros chefes de Estado. Não dá pra fazer cara de bobo e vestir o nariz de palhaço quando se é contrariado e não tem resposta para uma pergunta.