Matheus Pichonelli

Com Marçal na pista, STF pode ganhar ministro terrivelmente coach

Por Ranieri Costa*, autor convidado

Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal em live
Foto: Reprodução
Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal em live

A história recente da política brasileira é pródiga em redefinir os critérios para a ocupação das mais altas instâncias do poder público. Quem não se lembra do compromisso assumido por Jair Bolsonaro de indicar para o Supremo Tribunal Federal um ministro “terrivelmente evangélico”? Promessa feita, promessa cumprida: a vaga acabou ocupada sob o selo do alinhamento dogmático e da identidade religiosa. 

Agora é Pablo Marçal, neoaliado de Flávio Bolsonaro (PL), quem se apresenta a uma vaga no STF em um eventual governo do Zero Um. Sim: o país corre o sério risco de testemunhar a ascensão de um ministro “terrivelmente coach”.

Marçal diz estar apto a assumir uma cadeira na mais alta Corte do país pelo simples fato de possuir "diploma de Direito". Uma vez lá dentro, garante, iria "tocar o terror".

A promessa é mais que uma provocação para alimentar algoritmos. Ela carrega um simbolismo sobre a degradação da cultura política e institucional do Brasil.


A farsa das credenciais

Se a promessa de um ministro "terrivelmente evangélico" já representava a instrumentalização da religião para fins de cooptação política, a figura do "terrivelmente coach" consolida a substituição da gravidade republicana pelo cinismo do entretenimento. 

O ponto mais grave dessa transição é a banalização das exigências constitucionais. 

A Constituição de 1988 estabelece dois pilares inegociáveis para a escolha de um ministro do STF: "notório saber jurídico" e "reputação ilibada". O notório saber não é um carimbo de cartório, nem uma credencial formal qualquer; é o reconhecimento de uma vida dedicada ao estudo denso do Direito, à maturação intelectual e à interpretação responsável das leis. 

Quando Marçal reduz essa exigência ao fato de ter um "diploma de Direito", ele opera um trocadilho perigoso com a Constituição. 

Substitui a densidade da formação histórica pelo atalho do certificado. 

Embora ostente o canudo, o influenciador nunca foi aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e, por óbvio, jamais exerceu a advocacia. 

Como falar em notório saber para quem sequer possui a habilitação básica para advogar? Na lógica da teologia coaching e do desempenho “fast food”, todo tempo de maturação do conhecimento é visto como "bloqueio mental". 

A mensagem implícita é que se qualquer um pode "destravar" o próprio destino com receitas rasas de sucesso, pode aplicar a mesma superficialidade para julgar os destinos da Nação.

O segundo pilar, a "reputação ilibada", também deveriam ser impeditivos a quem coleciona um histórico de investigações, condenações e escândalos – incluindo a sua recente inelegibilidade.

Exibir um diploma sem OAB e ignorar um histórico marcado por controvérsias judiciais é a celebração do mérito autoproclamado sobre as regras republicanas. Até parece conversa de coach.

"Tocar o terror" como método de governo

O segundo aspecto preocupante da declaração é a promessa de "tocar o terror" na Suprema Corte. 

O STF já vive sob um incêndio permanente. Enfrenta forte pressão popular, polarização política e uma crônica crise de credibilidade. Tudo o que a Corte não precisa é de alguém disposto a jogar mais combustível na fogueira.  

A atuação em um tribunal constitucional exige temperança, busca por consensos, escuta atenta e compromisso solene com a proteção das garantias democráticas. 

A autoridade da magistratura se ancora - ou pelo menos deveria - na sobriedade e na imparcialidade. Vocês conseguem imaginar como seria a sabatina de Pablo Marçal no Senado Federal?

Ao anunciar que pretende "tocar o terror" a mais alta Corte do país, o influenciador escancara o método do agressor performático. É a transposição direta da postura dos palcos de suas palestras para o topo do Judiciário: a ideia de que a liderança se exerce pela intimidação, pela lacração e pela subjugação dos adversários. 

"Tocar o terror" em uma instituição já fragilizada não é um plano de gestão judicial; é o desprezo verbalizado pela colegialidade e pelas regras do jogo democrático. 

O tribunal deixa de ser a arena da razão jurídica para virar um circo de engajamento digital. Perdoem-me os profissionais do circo. 

A república reduzida ao palco das redes

A hipótese de uma indicação desse tipo representa o ápice  – até o momento – do movimento em que a cultura da teologia coaching tenta colonizar as estruturas do Estado. Esse discurso se aproveita das angústias do cidadão para entregar uma ilusão perigosa: a de que o país não precisa de instituições sólidas, apenas de "chaves mentais" e líderes ruidosos.

Se o ministro "terrivelmente evangélico" atendeu a uma demanda ideológica e corporativa, um possível ministro "terrivelmente coach" seria o triunfo definitivo da cultura do espetáculo sobre o Estado Democrático de Direito. 

Julgar a Constituição exige saber, prudência e responsabilidade – virtudes que nenhum algoritmo, certificado raso, curso de autoajuda ou "código" de mindset coach é capaz de entregar.


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*Ranieri Costa é teólogo e jornalista, pastor batista, mestre em Linguagens, Mídia e Arte (PUC-Campinas), doutorando em Comunicação e Cultura (Universidade de Sorocaba), professor no curso de jornalismo da Universidade de Sorocaba e autor dos livros "Teologia Coaching: A ilusória ideologia de que nascemos só para vencer" publicado pela Fonte Editorial e "Uns aos outros: A dinâmica do Reino de Deus" publicado pela Livrepress.