Matheus Pichonelli

Brasil vai às urnas dividido por 2 projetos antagônicos de nação

Quatro anos após tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro vê no filho a chance de reiniciar planos da família em eleição afetada por crise no STF

O presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro
Foto: Reprodução/redes sociais
O presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro

Se tudo sair como as pesquisas indicam, o Brasil elege neste domingo (4) os finalistas das eleições presidenciais.

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chegam à reta final em cenário de empate técnico nas simulações de segundo turno dos institutos.

Apesar da desidratação dos adversários, que não embalaram na tabela, dificilmente o campeonato acaba já neste fim de semana.

A disputa revive a campanha de quatro anos atrás, quando Lula desafiou o pai do atual adversário, Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição. O petista levou a melhor, com margem apertadíssima de vantagem.

Jair nunca reconheceu a derrota, e nas semanas entre a eleição e a posse do rival, tramou um golpe de Estado que resultou numa onda de depredações nas sedes dos Três Poderes, em Brasília, a oito de janeiro de 2023, e levou o ex-presidente, militares e ex-ministros à prisão.

Flávio foi escolhido pelo chefe do clã como representante. A promessa principal é tirar o pai da prisão e abrir as comportas do Planalto para governar em parceria com seu principal cabo eleitoral, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

Lula fez do discurso da soberania a principal bandeira da campanha.

Tanto ele quanto Flávio apostaram no debate sobre economia para ganhar os eleitores pelo bolso.

Na propaganda eleitoral, o candidato do PL explorou à exaustão a dificuldades de famílias brasileiras devido à redução do poder de compra e ao endividamento.

Lula mostrou que seu mandato foi de transição. Disse que teve trabalho para colocar os trilhos da economia no lugar, e que a vida do trabalhador vai melhorar com o impacto da isenção dos impostos da cesta básica a partir de 2027.

Mesmo assim, com índices medianos de aprovação, Lula notou a reeleição em risco e abriu a caixa de ferramenta. Reajustou o valor do Bolsa Família, extinguiu as bets – principais responsáveis, no diagnóstico dele, pelo rombo no orçamento familiar – e prometeu até caneta emagrecedora na rede pública.

O conjunto de medidas brecou o movimento ascendente de Flávio, que não caiu nas pesquisas nem quando foram aprofundadas as suas conexões com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master com quem se encontrou perto da prisão, pediu dinheiro, emprestou aeronave e viajou para a Flórida.

No fim da campanha, até suspeitas de participação em orgias surgiram contra o Zero Um.

Nada que desabasse a moral do candidato que tem no conjunto de eleitores conservadores da sociedade a principal base de apoio.

Flávio, durante a campanha, usou uma vacina para escapar dos ataques relacionados ao caso “Dark Horse”: a de que Alexandre de Moraes também mantinha conexões pra lá de estranhas com o banqueiro.

A ideia era associar Lula a Moraes, a quem ele responsabiliza pela prisão do pai e a eleição do rival, em 2022. Também explorou as suspeitas envolvendo Fabio Luis Lula da Silva e lobistas que tentavam emplacar seus clientes no Planalto.

Nada que abalasse significativamente, também, o desempenho do presidente nas pesquisas.

As revelações do caso Master dragaram o Supremo Tribunal Federal para uma crise interna sem precedentes. E os estilhaços chegaram à campanha. André Mendonça, que se encontrou secretamente com Vorcaro, virou heroi em versão boneco inflável das manifestações bolsonaristas. E Lula se afastou como pode de Moraes, alvo de um pedido de investigação dentro da Corte.

Dessa Justiça fraturada partiram decisões importantes para as campanhas de Lula e Flávio.

De Mendonça, indicado ao STF por Bolsonaro, partiu a decisão de remover das redes sociais postagens que associavam Flávio a um projeto para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

De Flávio Dino, indicado por Lula, saiu o despacho que liberou publicações como a de Antonio Tabet, humorista que postou nas redes uma imagem da santa e a legenda: família miliciana odeia mulher preta.

No fim, coube ao plenário do TSE liberar as postagens.

A três dias da eleição, o decano do Supremo Gilmar Mendes garantiu a participação de Renan Santos (Missão) no debate da TV Globo, na quinta-feira (1). Era a senha para Flávio, que tinha confirmado presença, pular fora. Ele era o alvo preferencial do líder do MBL.

Sem debate, Lula correu livre em uma entrevista amigável ao Flow Podcast, em que teve chance de mostrar o que está em jogo na disputa. A barbárie, num caso, e a democracia, em outro.

Lula tinha acabado de receber a notícia de que, ao menos no Datafolha, seguia à frente do adversário, situação que pouco mudou ao longo da campanha. E, ao que tudo indica, prorroga por algumas semanas uma disputa tão ou mais acirrada quanto aquela com o pai do atual adversário, em 2022.