Matheus Pichonelli

Vale Tudo? 8 'novelas' da eleição pra ficar de olho neste domingo

Em estados como PR, AL e CE, disputas intensas chamam atenção na corrida por governo do estado e/ou Senado. Listamos algumas

Requião Filho e Sergio Moro em debate da rede RPC, afiliada da TV Globo, no Paraná
Foto: Reprodução
Requião Filho e Sergio Moro em debate da rede RPC, afiliada da TV Globo, no Paraná


Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) protagonizam, no domingo (4), o jogo principal de um campeonato de tiro curto e alta voltagem.

Os olhos do mundo estarão voltados para a disputa nacional. 

Mas, pelos estados, há outras “novelas”, algumas bem shakespearianas, que valem a pena acompanhar ao longo da apuração.

Selecionamos oito delas:

Corrida de gato, rato e pato no PR

Enquanto se apresentava como candidato ao governador do Paraná, Sergio Moro (PL) liderava as pesquisas no estado. A participação trágica no debate da RPC, afiliada da TV Globo, quando mostrou nervosismo, tropeçou na língua e disse querer governar para os “paraenses”, pode ter assustado um pouco parte dos eleitores que ainda acreditavam na versão do herói de capa, espada e boca fechada das revistas semanais dos anos 2010.

A parada, ao que tudo indica, só vai ser definida no segundo turno. Resta saber quem leva a segunda vaga.

Sandro Alex (PSD), o candidato da família Massa (Ratinho e Ratinho Jr), vem logo atrás, mas ele tem no encalço, e no limite do empate técnico, Requião Filho (PDT), nepobaby que tem arrancado suspiros dentro e fora do Paraná com seu português correto, a barba feita, os óculos estilosos e os tríceps trabalhados na academia.

Na reta final, Requião Filho se rendeu aos memes do tipo “me governa” e apelou: “não vote no pato nem no rato. Vote no gato”.

Vai ser uma disputa animal.

Gomes x Gomes no Ceará

No Ceará, Ciro Gomes (PSDB) é a principal ameaça ao domínio da família Gomes no estado. O irmão, Cid (PSB), faz campanha para Elmano de Freitas (PT), e Ciro se afastou tanto das origens que, quando percebeu, já estava pedindo voto para (e ao lado de) bolsonarista com quem até outro dia trocava sopapo verbal no estado. Em vez do Rubicão, o ex-governador e ex-irmão de Cid atravessou o Rio Sena, de Paris, em 2018, e nunca mais foi o mesmo. O rebranding segurou, até agora, o favoritismo num estado em que o campo progressista tinha uma vitória certa até outro dia. Quem te viu, quem te vê. 


Lira x Renan: alguém tem que ceder

A disputa em Alagoas testa a força de dois clãs políticos declaradamente inimigos.

Ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP) tenta emplacar o aliado João Henrique Caldas (PSDB) ao governo do estado.

Ex-presidente do Senado, Renan Calheiros (MDB) entrou de cabeça na campanha de Renan Filho (seu primogênito, como o nome sugere).

As pesquisas indicam empate técnico entre os dois escolhidos pelos patriarcas. 

Lira e Renan travam uma disputa paralela pelo Senado. 

Eles estão empatados tecnicamente na segunda colocação da corrida, atrás de Marina JHC, esposa de Henrique Caldas – sim, uma aliada e uma ironia contra quem fez de tudo para emplacar Alfredo Gaspar (PL) como vice de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência e reduzir a concorrência na corrida particular. Lira ou Renan? Um dos dois caciques deve rodar no domingo. Quem? Veremos no capítulo final.


Agora vai, ACM Neto?

Com vantagem numérica nas pesquisas, do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) é a maior ameaça à hegemonia do PT na Bahia desde 2006, quando o partido elegeu Jaques Wagner e nunca mais saiu de lá.

O estado é governado por Jerônimo Rodrigues, que busca a reeleição no estado onde Lula teve um dos maiores desempenhos eleitorais de 2022. O partido se desgastou após anos de problemas relacionados à segurança pública no estado. E também com a suspeitas de que foram as lideranças no estado quem iniciaram as primeiras parcerias da turma de Daniel Vorcaro com o poder público.

A alternativa de renovação é o herdeiro direto do homem que mandou no estado por décadas.

Na reta final, surgiram acusações de que o neto de Antonio Carlos Magalhães estaria envolvido num esquema de desvios na prefeitura de Belo Horizonte…

O fato, claro, já é usado pelos adversários. Vai ser cabeça a cabeça.


Cosplay de catarinense

Na tentativa de eleger o maior número possível de aliados no Senado, o bolsonarismo decidiu “exportar” alguns quadros de seu reduto, o Rio, para outros estados. Carlos Bolsonaro (PL) deixou, assim, o cargo de vereador pelo Rio para concorrer em Santa Catarina.

Até agora, só mostrou que é capaz de descer a serra catarinense de moto sem precisar do pai. Ao que tudo indica, a eleição não vai ser a lavada que a turma esperava. Ele corre o risco, inclusive, de precisar voltar para a Câmara carioca e fingir que trabalha antes do fim do ano. 

O Bolsonaro de Roraima

Outro “Bolsonaro” exportado não é da família, mas é quase. Helio Lopes (PL) concorre a uma vaga ao Senado por Roraima, estado onde o amigo Jair Bolsonaro obteve larga vantagem sobre Lula em 2022. Na campanha, Helio precisou se reinventar. Já não tinha o ombro do padrinho para atuar em seu papel principal: o de papagaio de pirata do Jair. O próprio Bolsonaro, porém, está com ele no registro de campanha. Para convencer a turma a votar no forasteiro, Helio incorporou “Bolsonaro” ao sobrenome. E vestiu a camisa (amarela, claro) com a inscrição: “Roraima, terra que mana leite e mel”.

A expressão evoca Canaã, a Terra Prometida da Bíblia – um lugar de fartura, fertilidade e prosperidade, e usualmente usada pelos roraimenses para descrever os potenciais a serem ainda explorados no estado. É sob esta ideia que Bolsonaro fez uma legião de fãs em uma região marcada pelo conflito entre agricultores e povos originários. Em Roraima fica a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, reserva com cerca de 1,7 milhão de hectares – e alvo histórico da cobiça dos produtores rurais que hoje anseiam por um novo Bolsonaro para chamar de seu.


Elas contra eles em SP

A disputa ao governo de São Paulo tem tudo para ser liquidada no domingo (4).

A não ser que os eleitores de um ou de outro, já se antecipando ao resultado, resolva ficar em casa, Tarcísio de Freitas (Republicanos) deve obter outro mandato à frente do maior estado da federação já no primeiro turno. Fernando Haddad (PT) fez o que pode. Só não pode muito. Emoção mesmo ficou por conta da disputa pelo Senado. Candidatas de Lula (PT), Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) chegavam à reta final com boas chances de levar as duas vagas em disputa. Até que Ricardo Salles (Novo) decidiu retirar a candidatura e deixar o espólio de intenção de votos para os outros dois postulantes da extrema-direita, André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP).

Marina e Simone poderiam dormir mais tranquilas se não fosse o fogo amigo de Márcio França (PSB), vice de Haddad que conclamou as mulheres a votarem nas mulheres e os homens a escolherem uma delas. Tiraço no pé. Também ajudaria se Soninha Francine (Cidadania), também candidata, seguisse o exemplo de Salles e abrisse o caminho para as manas – uma expectativa que jamais aconteceu.


As vigas de Eduardo Paes

No Rio, Eduardo Paes (PSD) já mandava confeccionar o terno da posse quando Anthony Garotinho (Republicanos) se desprendeu de alguma geleira dos anos 2000 e na reta final roubou a cena no debate da TV Globo (em 2026!) com os candidatos ao governo do Rio.

Com 8% das intenções de voto e perguntas indigestas ao ex-prefeito (“onde foram parar as vigas da Perimetral?”) Garotinho bagunçou o coreto e pode estender uma disputa ganha, para Paes, por mais algumas semanas. Aí o jogo zera, e quem se beneficia é o bolsonarista Douglas Ruas (PL), o segundo colocado. No reduto bolsonarista, jogo zerado nunca é pouca coisa.