
Quem era criança nos anos 1980/90 vai se lembrar das danças de quadrilha nas festas juninas da escola.
Em pares mais ou menos fixos, a dança era orquestrada por um animador que apontava os perigos do caminho. Vinha a chuva – todos se assustavam, e mudaram a direção. Era mentira. E todos retornavam. Vinha a cobra. Todos se assustavam. Era mentira. E os meninos e meninas de camisa e vestido xadrez ziguezagueavam enquanto a música durasse.
Nos últimos dias o Supremo Tribunal Federal entrou numa dança típica de junho. Só que em setembro.
Primeiro, com uma sucessão de decisões monocráticas sobre quem deveria comandar a Polícia Federal e quem deveria ser investigado por quem no caso Master. Um rolo, que só parou de produzir estragos quando o presidente da Corte, Edson Fachin, assumiu a bronca e deixou a crise marinar longe dos holofotes.
De sexta pra cá a quadrilha foi reiniciada, graças ao mal-entendido envolvendo os aliados de Flávio Bolsonaro (PL) que rejeitam a imagem de Nossa Senhora Aparecida e um suposto plano para tirar dela o título de padroeira do Brasil.
Por ordem do Zero Um, o ministro terrivelmente evangélico André Mendonça, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, engoliu as próprias convicções sobre liberdade de expressão e mandou tirar do ar mais de mil postagens com referência diretas e indiretas ao caso.
Flávio Dino considerou aquilo um absurdo e suspendeu a ordem, à espera de uma discussão no plenário sobre limites do alcance das medidas do TSE – aparentemente a Constituição, a área do STF. E todos os posts foram autorizados durante o dia.
Quem dormiu na terra da liberdade acordou censurado na manhã seguinte. O tempo estava limpo! Era mentira.
Isso porque os advogados de Flávio Bolsonaro se anteciparam e acionaram Luiz Fux, relator no Supremo das ações que discutem a legalidade do marco civil, pedindo a derrubada das páginas que prejudicavam a imagem do candidato. Fux, então, derrubou tudo o que tinha sido restabelecido pouco mais 24 horas antes.
Não se sabe até quando.
Até o fechamento deste post, quem escrevesse qualquer menção a Flávio e a padroeira correria o risco de ter as postagens derrubadas, num efeito que o próprio Dino aponta em seu despacho sobre o medo de se posicionar sobre o caso, agora e no futuro.
Faltam cinco dias para as eleições, e até lá tudo pode acontecer. Inclusive nada.