
Alexandre de Moraes pode ser tornar, a partir desta terça-feira (15), o primeiro ministro do Supremo Tribunal Federal a ser investigado pelos pares.
Razões para isso não faltam.
O escritório de advocacia da mulher do ministro, Viviane Bacci, recebeu uma bolada para defender os interesses do Banco Master, de Daniel Vorcaro, em órgãos como Banco Central, Receita e CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
Conversas vazadas do celular do banqueiro indicam que Vorcaro se aproximou de Moraes no período. A ponto de consultar o ministro sobre se deveria ou não deixar o país às vésperas de sua prisão, pouco antes de tentar embarcar (vulgo fugir) para os Emirados Árabes. Grave. Gravíssimo.
O simples contrato deveria impedir Moraes de julgar qualquer caso relacionado ao sócio da companheira. A suspeita de que repassava informações de investigações a um investigado é razão suficiente, se comprovada, para que ele perca as condições de seguir na Corte. Em nome da própria credibilidade do Supremo.
O problema é que, se Edson Fachin quiser mesmo passar a história a limpo, e a partir dali estabelecer o protocolo idealizado sobre condutas de magistrados, quase metade do STF deveria estar hoje sob investigação – ou julgamento.
Segundo as mensagens de Vorcaro, agora tornadas públicas, um filho de Kassio Nunes Marques recebeu pagamentos de R$ 500 mil por mês para prestar consultoria ao grupo criminoso.
Kevin Marques tem apenas 25 anos e, ainda que seja um prodígio, já coloca o pai em suspeição para analisar qualquer caso relacionado ao empresário que apostou tanto no talento de um rebento.
Rodrigo Fux, filho de outro ministro, Luiz Fux, manteve conversas com o banqueiro durante um ano. Na época o esquema de pirâmide montado pelo Banco Master já estava desmoronando, carta por carta.
Vorcaro intensificou contatos, e não pensou duas vezes antes de pedir "ajuda num caso" não identificado pela PF. Os dois combinam encontros em diversas cidades, e Vorcaro chegou a oferecer ao advogado e à família convites para um camarote no Carnaval do Rio.
Parece claro que o interesse do banqueiro era outro. Tanto que, em março de 2025, Fux filho orientou Vorcaro a enviar um email à secretária de Fux pai no STF para discutir alguma pendenga.
Alçado a heroi pelas hostes bolsonaristas por revelar as conversas no mínimo estranhas de Moraes com o banqueiro, André Mendonça também se aproximou demais do objeto investigado.
Lobista conhecido em Brasília, Ciro Soares, advogado que fez campanha pela indicação de Mendonça e levou Vorcaro, um de seus clientes, ao escritório do ministro em 2025, celebrou com o banqueiro um habeas corpus concedido pelo ministro ao então governador do Rio Cláudio Castro, em outubro de 2024. Mendonça e Castro, o governador do estado que mais colocou recursos no poço sem fundo do Banco Master, também têm registros de conversas fora da agenda.
Soares, segundo o portal UOL, intermediou convites para eventos do Iter, instituto fundado pelo ministro e que ganhou milhões em contratos com empresas privada,s algumas ligadas a grupos políticos.
Foi Soares quem levou Mendonça a uma alfaiataria de elite em São Paulo e celebrou, com Vorcaro, uma foto ao lado do ministro, como se fosse mais uma peça no tabuleiro que acabava de jantar.
Ele atuava em dobradinha (às vezes em competição) com o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), alvo de uma operação da PF por supostamente vender trânsito facilitado com ministros do Supremo. Não por acaso, ele também ajudou Vorcaro a se encontrar com Mendonça fora da agenda.
Pior ainda fez Dias Toffoli, que assumiu a relatoria do Banco Master mesmo diante da suspeita de que ele fosse o proprietário de fato do fundo de investimento em participações Arleen, que teria recebido cerca de R$ 35 milhões de Daniel Vorcaro em uma negociação envolvendo o Tayayá Resort, localizado em Ribeirão Claro (PR) e que pertencia à família do ministro.
Toffoli deixou a relatoria do caso, e nunca mais se falou no assunto.
Mendonça, herdeiro do inquérito, sabia o que pesava sobre cada um dos colegas, e também sobre os filhos do presidente responsável por sua indicação à Corte.
Sabia também que um pedido de investigação sobre Moraes seria um tiro no peito da fama de justiceiro do ministro que colocou Jair Bolsonaro na cadeia. Mas Moraes não é o único que deveria estar sentado hoje no limbo do banco dos réus do tribunal.