
Ex-ator em atividade, Mario Frias, como tantos, viu na onda bolsonarista que se formou no fim dos anos 2010 uma oportunidade de descarregar as mágoas e frustrações de uma vida inteira de piadas sobre insucesso de público, crítica e renda.
Eleito deputado em 2022, ele viu na produção de “Dark Horse”, cinebiografia do ídolo Jair Bolsonaro, a chance de se consagrar. Era a reunião perfeita de azarões (ou pangarés, à boca pequena) disposto a fazer história com h minúsculo.
Frias atuou como roteirista e produtor-executivo do filme, idealizado como a maior peça de propaganda da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), o filho do homem retratado na telona. Deu tudo errado.
A revelação de que o longa contou com recursos de Daniel Vorcaro, o homem mais tóxico da República, por meio de estranhas transações até hoje não explicadas, virou a pedra no sapato do presidenciável. Ele era o elo entre os produtores e o mecenas, a quem chamava de irmão e cobrava repasses dos valores atrasados. Algo como R$ 60 milhões, que a polícia desconfia ter bancado até o vidão do irmão, Eduardo, nos Estados Unidos.
Frias, em busca de recolocação profissional, não tinha nada com isso até o UOL revelar um repasse de R$ 2 milhões em dinheiro público do deputado a organizações ligadas a Karina Gama, responsável pela produtora de "Dark Horse".
Ambos agora são alvo de uma ação da Polícia Federal que cumpre 49 mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro Flávio Dino, relator das investigações sobre desvios de emendas parlamentares no Supremo Tribunal Federal.
A PF quer saber o que foi feito do dinheiro repassado pelo ex-ator de “Malhação”.
É um fio de novelo que, uma vez puxado, revelam movimentações de R$ 19 milhões entre novembro e dezembro de 2025 em um circuito financeiro do qual Frias é suspeito de fazer parte – em triangulação com entidades, empresas contratadas e a produtora do longa.
Tudo isso enquanto Frias, camisa amarela e rosto de Bolsonaro pai silkado no peito, perambula pelo estado de São Paulo em busca de um novo voto de confiança do eleitor.
A ação da PF deveria obrigar o ex-ator a rever o roteiro. Não do filme, mas da campanha à reeleição à Câmara, cujo slogan agora é quase um funk proibidão: “Não fecho com ladrão, a nossa tropa é a tropa do capitão”.