
Os Estados Unidos decidiram retirar o visto da embaixadora Maria Luiza Viotti às vésperas das eleições no Brasil.
A alegação é uma farsa. Washington acusa Brasília de dar um chá de cadeira em Daniel Perez, indicado por Donald Trump para a embaixada norte-americana no país há mais de um ano e meio.
A indicação foi feita sem consulta ao país. Um desrespeito com as normas diplomáticas. Foi por isso que seu nome ficou na geladeira.
Não é o único caso. Atualmente, dos 195 postos de embaixador ou embaixadora dos Estados Unidos pelo mundo, 106 estão vagos. É o maior sinal de desrespeito da futura ex-potência hegemônica com os povos com os quais se relaciona.
Só no Brasil a demora resultou em punição.
Sob as orientações do secretário de Estado Marco Rubio, o mais radical integrante do primeiro escalão de seu governo, Trump olha para a América Latina como um ponto estratégico para barrar as pretensões chinesas. A lição de casa começa no próprio quintal.
O encarregado por instalar representações políticas na região é Marco Rubio. Javier Milei (Argentina), Abelardo de la Espriella (Colômbia), José Antonio Kast (Chile), Keiko Fujimori (Peru) são hoje marionetes de Washington, mais ou menos como as peças que o líder norte-americano distribui num tabuleiro de “War”.
Falta a grande joia da coroa. Rubio não vai poupar esforços para eleger Flávio Bolsonaro (PL) em outubro. Tem, a seu lado, o incendiário Milei como representante da intervenção aberta.
Lula tem margem estreita de reação.
Sabe que não tem nada a ganhar se a corda com os norte-americanos se esticar ainda mais e for rompida de vez. Sabe também que o discurso em defesa da soberania é hoje o maior trunfo para oferecer aos eleitores. Ao menos os que não querem acordar em 1º de janeiro de 2027 como habitantes dos Estados Unidos do Sul.
A estratégia, até aqui, é mostrar, em pronunciamentos públicos, que Trump é um sujeito até que razoável (spoiler: não é), e que o tratou com alguma cordialidade durante conversas pessoas e por telefone. O problema, segundo Lula, é Marco Rubio, que ele acusa de odiar a América do Sul.
"Ele [Trump] tem um cidadão que não gosta do Brasil. Que não gosta da América Latina. E que é um bolsonarista. Que é o secretário de Estado, que é o Marco Rubio", disse Lula em discurso no fim de semana em São José dos Campos (SP).
"Ele é um anti-latino-americano ou um latino-americano frustrado porque ele foi embora de Cuba, o avô dele, o bisavô, é de lá, ele nunca morou em Cuba. Mas ele foi embora, ele é um descendente de cubano de Miami, então ele odeia. Odeia Cuba, odeia a Colômbia, odeia o Brasil. E ele faz as coisas diferentes daquilo que a gente conversa com o Trump", completou.
O discurso é uma maneira de tirar do foco a até aqui frustrada tentativa de evitar sanções e tarifaços usados por Trump para alterar a rota das eleições presidenciais e conseguir, num possível novo governo Bolsonaro, instalar por aqui quem quiser na embaixada, sem precisar de qualquer agrément , o consentimento de um Estado para que determinado diplomata estrangeiro seja nomeado para função em seu território.
Na dúvida, o Itamaraty deve deixar o nome de Perez esperando até outubro, mesmo com o aval do Senado norte-americano para que ele ocupe o posto.
Tem razões de sobra para temer a influência de um representantes golpista no momento mais delicado da campanha eleitoral.