
Nem começou a Copa do Mundo de futebol e parte dos atletas, integrantes das comissões técnicas e até profissionais da imprensa já sentiram o que será disputar uma competição na casa de Donald Trump.
O Mundial acontece em um momento em que o anfitrião declara guerra a meiomundo. E se apoia em um frágil cessar fogo em sua ofensiva ao Irã, para não dividir os holofotes com os drones lançados por Teerã sobre bases norte-americanas no Oriente Médio. A contragosto ele aceitou dividir as atenções com Claudia Sheinbaum e Mark Carney, chefes de Estado do México e do Canadá, as outras sedes do torneio.
Nas redes sociais, circulam imagens da delegação de Senegal abordada por agentes norte-americanos ainda na pista do aeroporto, sem ao menos adentrar o local. Jogadores e comissão técnica permaneceram sentados e foram revistados por cães farejadores e detectores de metais no corpo inteiro, inclusive nos pés, seus instrumentos de trabalho.
Com a seleção do Uzbequistão a recepção foi parecida.
Em Chicago, o craque da seleção iraquiana, Aymen Hussein, foi interrogado por sete horas pela segurança do Aeroporto Internacional O’Hare. Ele disse ter sido tratado como um terrorista.
Já a Federação de Futebol do Irã acusa o governo Trump de liberar os vistos para os atletas apenas na sexta-feira, dia 5, uma semana antes da estreia, após barrar a entrada de vários integrantes da comissão.
A seleção iraniana também teve de mudar a base dos treinamentos de última hora para Tijuana, no México. A ordem e só entrar nos Estados Unidos no dia exato das partidas e deixar o território norte-americano assim que o juiz soltar o apito final.
Ou seja: enquanto as outras seleções descansam no hotel ao fim do jogo, os iranianos precisam pegar estrada por ordem do anfitrião – o mesmo que bombardeia seus amigos, familiares e vizinhos a léguas dali.
Copa do Mundo é aquele momento em que o espírito de Pollyana entra em campo para pedir união e solidariedade entre povos. Ao menos durante 90 minutos.
Sob Trump, o anfitrião que desestabiliza a ordem mundial e agora decide quem é cidadão de primeira e de segunda categoria em seu país, o evento extrapolou de vez as atrações das quatro linhas. Virou questão de honra. E resistência. O lugar de Trump na história está guardado.