Rodrigo Bacellar e TH Joias, atualmente presos
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Rodrigo Bacellar e TH Joias, atualmente presos

No Rio de Janeiro, onde há pouco mais de um mês a polícia de Claudio Castro promoveu a maior chacina do país sob a justificativa de combater o Comando Vermelho, o chefe do Legislativo local acaba de ser detido por suspeita de vazar dados sigilosos de uma operação policial contra…o Comando Vermelho.

Rodrigo Bacellar, presidente da Assembleia Legislativa fluminense, foi detido nesta quarta-feira (3) pela Polícia Federal. O nome da operação não poderia ser mais autoexplicativa: Unha e Carne.

Ele é suspeito de repassar informações da Operação Zargun ao então deputado estadual TH Joias (MDB), em setembro. A suspeita é que ele teria orientado o colega a esvaziar a casa antes da ação da PF. A mesma sorte não tiveram os aviõezinhos de chinelo de dedo dizimados por ordem de Claudio Castro cerca de um mês depois. Quem tem amigo (e sapato social) nesta vida tem tudo. 

O mandado de prisão teve o aval do Supremo Tribunal Federal. Na decisão, o ministro Alexandre de Moraes afirmou que o crime organizado está infiltrado na política do Rio, o mesmo estado que empilha corpos para fazer campanha às vésperas da eleição. Parecia um recado ao governador Claudio Castro (PL), o líder máximo da política local. E era. 

Bacellar é (ou era) um dos nomes mais cotados para disputar o governo local.

Como explicou, no “X”, o repórter Igor Mello, craque na cobertura da política fluminense, a trajetória de Bacellar é exemplar de como as coisas funcionam por ali. Até outro dia, o deputado era um advogado inexpressivo. Foi eleito para a Alerj e se tornou um parlamentar de baixo clero, como são chamados os políticos sem grande destaque ou ambição aparente.

O estrelato só veio quando recebeu de bandeja a relatoria do processo de impeachment contra Wilson Witzel, governador eleito pelo PSC na onda bolsonarista e que entrou em rota de colisão com Jair Bolsonaro ao acreditar que poderia ser presidente um dia. Foi expelido da turma de um dia para outro, mesmo mantendo até o fim um discurso linha-dura no combate à criminalidade compatível com o que dizia os comparsas da extrema-direita. 

Com Witzel fora do jogo, graças ao relatório implacável de Bacellar, as chaves do Palácio da Guanabara caíram no colo de Claudio Castro, outro político inexpressivo que tinha como único mérito se comportar de maneira bovina em relação à cartilha bolsonarista. Como recompensa, segundo a definição de Igor Mello, Bacellar se tornou uma espécie de primeiro-ministro do primeiro governo Castro.

Ele tem as digitais no escândalo dos cargos secretos no Ceperj e na Uerj, que viabilizaram a reeleição de Castro. Os trabalhos prestados o levaram à presidência da Alerj. E, claro, ao enriquecimento relâmpago – como bem lembrou o Igor.

TH Joias é o nome de guerra de Thiego Raimundo dos Santos Silva. Ele foi eleito suplente e assumiu como deputado estadual em 2024, após a morte de outro parlamentar. 

Antes, ele era conhecido por atuar como joalheiro — daí o apelido “TH Joias”. As acusações apontam que ele teria usado o mandato parlamentar “para favorecer o crime organizado”, atuando como intermediário no tráfico de drogas, venda de armas de fogo (inclusive as de uso restrito, como fuzis) e equipamentos “antidrone” para o Comando Vermelho.

Nada que impedisse Claudio Castro de posar sorridente ao lado dele em uma foto icônica pouco antes da prisão.

O toque do amigo Bacellar não o salvou: após a prisão, ele foi destituído do cargo na Alerj e perdeu a imunidade parlamentar.

Mesmo operando nos bastidores para salvar um aliado com envolvimento notório com o tráfico, Bacellar gostava de posar como político linha-dura no combate ao crime organizado.

Ele era um dos entusiastas da Gratificação Faroeste, proposta que garante um bônus no salário de policiais que participem de determinadas ações — em especial apreensão de armas de grande calibre ou de uso restrito, e também em caso de “neutralização de criminosos”. “Neutralização”, no jargão oficial, costuma significar mortes em confrontos. 

A medida foi inserida como emenda a um projeto de reestruturação da carreira da Polícia Civil do Estado do Rio. 

Para Rodrigo Bacellar, a gratificação era “um anseio da população do Rio” por mais segurança.

Sabe o que deixaria a população mais segura, deputado? Limpar a Alerj dos agentes infltrados do crime – estes que a polícia de Castro, a mesma que sobe ao morro para matar, não ousa chegar nem perto. E de quem gente como Castro opera, em Brasília, para deixar a PF bem longe -- e só entrar em campo, quando entrar, sob autorização dos chefes dos exexcutivos estaduais. Dá pra ligar os pontos, não?

Em vez disso, Bacellar é suspeito de mandar um elo do tráfico a limpar a casa e fugir da polícia.

José Padilha errou o mote do filme “Tropa de Elite 2”. O inimigo não é outro. Sempre foi o mesmo. Nem muda de endereço. Só de nome.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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