
Era o tipo de casamento que não tinha como dar certo.
Fruto da fusão entre o DEM, o antigo PFL -- partido cujos mandatários pediam "o fim da raça" do PT -- e o PSL, que elegeu Jair Bolsonaro em 2018, o União Brasil entrou na canoa do governo Lula sem nunca ter mostrado a que veio.
A legenda tinha até ontem o controle do Ministério do Turismo. Celso Sabino era o titular da pasta encostado num canto que já foi de Daniela Carneiro. Ela perdeu a vaga justamente quando se desfiliou do União Brasil.
Desde então a relação entre governo e o partido é como a de casal que não se bica. Um finge que dá os votos que o governo precisa no Congresso e o outro finge que acredita que uma hora tudo iria melhorar. E assim o barco segue (ou seguia) em nome de uma aliança que não durou um ciclo eleitoral.
União Brasil e Progressistas anunciaram, no mês passado, uma fusão e o desembarque do governo. Faziam isso com um olho nas chances de reeleição do atual presidente e outro no julgamento que tirou Jair Bolsonaro (PL) do jogo.
Como sempre, a decisão ficou pra depois e a relação seguiu em banho-maria.
Tudo mudou na semana passada, quando Antônio Rueda, presidente do União Brasil, viu seu nome envolvido em uma investigação sobre os tentáculos do PCC no mundo financeiro e político de Brasilia.
Rueda foi um dos principais articuladores da PEC da Bandidagem, que pretendia blindar políticos investigados e dava aos parlamentares o poder de decidir quem deles podia ser preso ou investigado.
O projeto tinha um jabuti: beneficiava quem tinha cargo eletivo e também os presidentes de partidos, mesmo sem cargo no Congresso. Foi uma mudança pensada para beneficiar gente como Rueda.
O chefe do União tinha pressa, pelo jeito, mas não se conformou que o governo não deu os votos suficientes para o projeto na Câmara e, depois, articulou para barrar a brincadeira no Senado.
Rueda ainda acusa o Planalto de alimentar as notícias sobre o suposto envolvimento dele na Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal. Uma das suspeitas é que ele é dono de jatos que transportavam os chefes da facção.
Rueda estaria tranquilo se a PEC já estivesse aprovada, mas não está.
Diante da avalanche, ele deu 24 horas, contadas a partir de quinta-feira (18), para os filiados da legenda deixarem o governo oficialmente. A medida atinge diretamente Celso Sabino, sem contar os ocupantes de segundos e terceiros escalões. Ele se demitiu uma semana depois, nesta sexta (26).
Lula pode dizer que já foram tarde.
Mas a frente ampla desenhada desde a campanha de 2022 é agora cada vez menos ampla. E isso vai respingar em 2026.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG