Diante das movimentações no Congresso Nacional nas últimas semanas e do impasse gerado com o Executivo, o interesse sobre o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União) , aumentou. De acordo com o Google Trends, a pesquisa pelo nome do senador aumentou significativamente desde o dia 26 de junho, quando atingiu o pico mais alto. Depois, houve uma queda nas buscas, mas voltou a subir desde segunda-feira (1º), quando bombou nas redes sociais assuntos relacionados à política.
Em relação ao presidente do Senado, as principais buscas são sobre a idade, a religião, a qual partido pertence e a ligação entre Alcolumbre e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) . Segundo a plataforma de tendências do Google, houve um aumento repentino do interesse nesses termos nos últimos 30 dias. Além desses, as pesquisas com “Davi Alcolumbre Bolsonaro” e “Senador Davi Alcolumbre” subiram mais de 170% e 50%, respectivamente, desde o mês passado.
Apesar de exercer cargos de destaque, como a Presidência do Senado e do Congresso Nacional, Alcolumbre não é um nome amplamente conhecido entre o eleitorado brasileiro em geral. Ele não tem forte presença nas redes sociais nem adota um perfil midiático , o que contribui para o seu relativo anonimato fora de Brasília.
Por outro lado, o senador amapaense tem uma carreira política sólida e é hoje uma das figuras mais influentes do parlamento, com forte poder de articulação e protagonismo na definição da agenda legislativa, o que leva às pesquisas na internet sobre seu nome e trajetória.
Em 2019, durante o governo do ex-presidente Bolsonaro, Alcolumbre chegou, inclusive, a assumir a presidência do Brasil por dois dias. Apesar do curto período, ele assinou o decreto que regulamenta a transferência definitiva de terras da União ao estado do Amapá, atendendo a uma reivindicação do governo amapaense que tramitava há trinta anos.
Carreira política começou em 1999
O atual presidente do Congresso Nacional iniciou a carreira política em 1999, quando se filiou ao Partido Democrático Trabalhista (PDT). Naquela época, aos 21 anos, Alcolumbre dava os primeiros passos na vida pública.
Em 2000 foi eleito para seu primeiro cargo político e, em 2001, assumiu como vereador de Macapá, cidade onde nasceu. Após as eleições, Alcolumbre logo assumiu protagonismo na Câmara Municipal, presidindo a Comissão de Indústria e Comércio e chegou à vice-presidência da Mesa.
Entre 2001 e 2002, também representou o Legislativo municipal no Conselho Tutelar da cidade. Mesmo antes de terminar seu mandato como vereador, em 2002, foi candidato a deputado federal pelo Amapá, cargo para o qual foi eleito e assumiu no ano seguinte.
Durante a legislatura, foi membro das comissões de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, e de Defesa do Consumidor. Foi também titular das comissões especiais de Proteção dos Direitos da Juventude, e do Plano Nacional da Juventude. Por dois anos consecutivos, foi coordenador da bancada de seu estado na Câmara.
Em 2005, filiou-se ao então Partido da Frente Liberal (PFL), legenda que viria a se transformar no Democratas (DEM) e, atualmente, chama-se União Brasil . No ano seguinte, concorreu à reeleição pela sigla, sendo reeleito com mais de 12.300 votos. No segundo mandato, integrou a Comissão de Agricultura e acumulou cargos de liderança partidária, inclusive como vice-líder do DEM na Câmara dos Deputados .
No início de 2009, Alcolumbre pediu licença do mandato para assumir a Secretaria de Obras de Macapá, durante a gestão de Roberto Góes. Um ano depois, retornou à Câmara e, nas eleições de outubro de 2010, renovou seu mandato nas urnas com mais de 14 mil votos.
Nas eleições municipais de 2012, Alcolumbre foi candidato à prefeitura de Macapá na coligação Macapá Melhor, composta por DEM, PSDB, PTB e PRP. Com 21 796 votos, ficou na quarta colocação no primeiro turno do pleito e retornou ao exercício do mandato de deputado. Também sofreu outra derrota nas urnas em 2018, quando concorreu ao governo de Amapá mas, angariando apenas 23,75% dos votos válidos, não conseguiu se qualificar para a disputa do segundo turno.
Salto na carreira política
Alcolumbre conquistou uma projeção nacional em 2014, quando ocorreu o salto mais expressivo de sua carreira até aquele momento. Disputando uma vaga no Senado, venceu o ex-senador Gilvam Borges com mais de 131 mil votos, tornando-se o primeiro amapaense eleito senador da República. Já em seu primeiro ano de mandato, assumiu a presidência da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo.
Nos primeiros anos de seu mandato como senador, assumiu posicionamentos vistos como polêmicos. Um deles foi quando, em julho de 2017, votou contra a cassação de Aécio Neves no Conselho de Ética do Senado, por quebra de decoro parlamentar em decorrência do envolvimento no esquema da Lava-Jato .
Em outubro do mesmo ano, voltou a se posicionar a favor de seu colega de Casa Legislativa, votando para manter o mandato de Aécio e, por consequência, derrubando decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) no processo em que o senador era acusado de corrupção e obstrução da justiça por solicitar dois milhões de reais ao empresário Joesley Batista.
Alcolumbre manteve influência nos bastidores do Senado e ganhou ainda mais visibilidade em 2019, quando se lançou na disputa pela presidência da Casa. Com apoio de parte da base do governo do então presidente Jair Bolsonaro e da oposição ao concorrente Renan Calheiros, venceu a eleição interna com 42 votos. A sessão que o elegeu foi marcada por embates acalorados, como o episódio em que a senadora Kátia Abreu subiu à Mesa Diretora e o acusou de conduzir a sessão de forma ilegítima, já que era candidato.
Apesar da acusação, a vitória de Alcolumbre para a presidência do Senado foi considerada um feito histórico, já que se tornou o primeiro judeu a ocupar esse cargo na história do Brasil e o presidente mais jovem do Senado desde a redemocratização. Sua gestão foi marcada por avanços na modernização do Legislativo e na condução de temas estratégicos para o país.
Durante o exercício à frente do Senado e do Congresso Nacional, Alcolumbre teve momentos simbólicos, como em outubro de 2019, quando, por ocasião de viagens do presidente Jair Bolsonaro e do vice Hamilton Mourão, e da ausência no país do então presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, assumiu interinamente a Presidência da República .
Nos anos seguintes, presidiu a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), a mais importante do Senado. Por dois mandatos consecutivos, teve papel fundamental na análise e aprovação de matérias estruturantes para o Brasil. Sua atuação na CCJ consolidou sua imagem como um dos senadores mais influentes da atual legislatura.
Como senador, destinou recursos para programas que ampliaram o acesso a serviços públicos e incentivaram o esporte e a conectividade na região Norte. Entre eles, o programa “Mais Visão”, que oferece atendimentos e cirurgias oftalmológicas; o projeto “Passaporte para Vitória”, voltado à formação de jovens através do esporte; e o “Norte Conectado”, que levou infraestrutura de internet para municípios da Amazônia Legal.
Polêmicas
Alcolumbre também esteve no centro de polêmicas. Em 2020, a proposta de emenda à Constituição que permitiria sua reeleição à presidência do Senado gerou forte repercussão negativa e levou à desativação temporária da ferramenta digital que permite o acompanhamento de propostas em tramitação na Casa. Já na presidência da CCJ, foi criticado por atrasar a indicação do relator do projeto que visa combater os chamados supersalários no serviço público.
Em 2021, o senador esteve envolvido em outro episódio polêmico. Uma reportagem publicada pela revista Veja apontou irregularidades no gabinete de Alcolumbre , relacionadas um suposto esquema de rachadinha. De acordo com o veículo, por anos o político ficou com salários de seis assessoras do gabinete, resultando no montante de R$ 2 milhões, onde elas abriam conta no banco, entregavam o cartão e recebiam apenas parte do dinheiro.
À época, Alcolumbre divulgou nota negando envolvimento com qualquer irregularidade e disse estar sendo vítima de “uma campanha difamatória sem precedentes”. Em 2024, o senador se tornou alvo de investigação no Ministério Público Federal (MPF) e no Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) pelo suposto uso de um jatinho particular em nome da empresa Saúde Link, que tem contratos com o governo do Amapá e teria sido beneficiada por emendas parlamentares.
Apesar dos embates, o senador manteve sua base eleitoral. Nas eleições de 2022, foi reeleito com quase 200 mil votos (47,88% dos votos válidos), para um novo mandato como senador.
Segunda vez presidindo Senado
Atualmente, mais de duas décadas depois de iniciar na política, Alcolumbre ocupa um dos cargos mais poderosos da política brasileira. Em 1º de fevereiro de 2025, o senador foi reconduzido à presidência do Senado Federal e do Congresso Nacional com uma votação expressiva, onde recebeu o apoio de 73 dos 81 senadores .
O retorno ao comando da Casa marcou uma nova etapa de protagonismo legislativo e, de acordo com seu discurso de reeleição, reforçou seu compromisso com a independência do parlamento, a consolidação da democracia e a busca por consensos capazes de enfrentar os desafios do país.
Ao assumir o cargo, Alcolumbre defendeu o equilíbrio entre os Poderes, o diálogo institucional e a pacificação do cenário político nacional. Em seu discurso de posse, reforçou o compromisso de liderar o Senado com responsabilidade e serenidade, dando prioridade a pautas que promovam o desenvolvimento econômico, a justiça social e a estabilidade do governo.
Casado com Liana Andrade e pai de dois filhos, Davi e Matheus, Alcolumbre possui trânsito entre diferentes grupos políticos e habilidade nas articulações internas do Congresso. Mesmo depois de mais de 20 anos e algumas polêmicas, o senador segue como uma das figuras centrais da política nacional.
Relação com Bolsonaro
A relação entre Davi Alcolumbre e Jair Bolsonaro tem sido construída com base em alinhamento pontual de interesses. Embora o senador mantenha um discurso público de independência institucional, o apoio do ex-presidente à sua reeleição ao comando do Senado, em 2025, evidenciou um acordo estratégico que vem repercutindo diretamente na dinâmica do Congresso Nacional.
Em outubro de 2024, Alcolumbre e Bolsonaro selaram o apoio do PL à recondução do senador amapaense à presidência da Casa. O encontro, realizado em Brasília, tratou da distribuição de cargos na Mesa Diretora e em comissões estratégicas, como a de Constituição e Justiça (CCJ), além da sinalização para pautas de interesse bolsonarista, entre elas a possível anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro.
Ao garantir o apoio de Bolsonaro, Alcolumbre ampliou sua base de sustentação e consolidou a articulação que garantiria, meses depois, uma vitória expressiva na eleição interna. Em contrapartida, o ex-presidente viu no acordo uma forma de manter influência no Legislativo e abrir espaço para o PL em posições-chave, como a vice-presidência do Senado — função que, na ausência do presidente do Senado, pode ser determinante para decidir a pauta da Casa.
Apesar da parceria, Alcolumbre fez questão de reafirmar sua autonomia no discurso de posse, em fevereiro de 2025. Disse que nunca sofreu imposição de agenda, “nem de Bolsonaro, nem de Lula”, e reforçou o compromisso com o equilíbrio entre os Poderes. Sobre o debate da anistia aos golpistas, foi categórico: ouvir não significa apoiar.
Durante os quatro anos do governo Bolsonaro, o senador também exerceu um papel central no tabuleiro político de Brasília. À frente do Senado Federal entre 2019 e 2021, foi ao mesmo tempo colaborador estratégico da pauta econômica do Planalto e um dos principais freios institucionais a avanços considerados radicais pela base bolsonarista. A relação entre os dois nunca foi de fidelidade ideológica, mas de conveniência política – com Alcolumbre operando como um articulador moderado em meio às tensões entre os Poderes.
Nos bastidores, a leitura é de que Alcolumbre atua como uma ponte entre campos políticos antagônicos, mas com um olhar atento à governabilidade do Senado. A relação entre ambos, para alguns senadores, é vista como um cálculo político e não uma afinidade pessoal. Enquanto Bolsonaro via em Alcolumbre um operador hábil para garantir a aprovação de projetos e o avanço de nomes aliados, o senador amapaense manteve seu perfil de mediador, controlando a pauta e reforçando a autonomia do Legislativo.