Expulsões de deputados ferem cofres dos partidos, mas não mudam fundo partidário

Reforma política de 2017 permitiu que valor do fundo partidário fosse definido pela porcentagem de votos obtidos na última eleição, mas fundo de campanha tem relação com cadeiras que a sigla têm na prévia do pleito

Foto: Reprodução/Instagram
Felipe Rigoni (PSB) e Tabata Amaral (PDT) podem ser expulsos de seu partido por não seguirem a orientação partidária na votação da reforma da Previdência


A votação da reforma da Previdência no plenário da Câmara dos Deputados gerou as primeiras discussões internas entre partidos da oposição em 2019. Com vários deputados que votaram a favor da proposta do governo, contrariando a orientação partidária, PSB e PDT anunciaram punições aos parlamentares, que podem culminar, inclusive, em expulsões. A decisão, ainda que não altere o fundo partidário, pode trazer consequências para as próximas duas eleições (2020 e 2022).

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Após a reforma política aprovada pelo Congresso em 2017, o fundo público para campanhas passou a ser definido pelo número de cadeiras que cada partido tem na Câmara dos Deputados. Este dinheiro, com a proibição da doação de empresas para eleições, passou a ser o principal financiamento dos partidos para candidatos. Além dele, também existe o fundo partidário , verba recebida por cada sigla que é definida pela porcentagem de votos recebidos por seus deputados federais eleitos.

Ou seja, a expulsão de um parlamentar não altera os percentuais que cada partido tem hoje do fundo partidário, já que o valor não é atualizado após o resultado das eleições. A "economia" da sigla, porém, é afetada, nas próximas eleições, quando o número de cadeiras define o valor do fundo para campanhas.

Únicos partidos que já anunciaram punições a deputados "infiéis", PDT e PSB podem ser bastante afetados. 11 dos 32 deputados do PSB votaram a favor da reforma da Previdência, enquanto oito dos 27 parlamentares pedetistas fizeram o mesmo. Ambos os partidos orientaram votos contrários ao projeto.

Qual a diferença de fundo partidário e fundo para campanhas?

Foto: Elza Fiúza/ABr
Resultados das eleições para a Câmara definem fundo partidário e fundo eleitoral


Tanto o fundo partidário como o fundo para campanhas (também conhecido como fundo eleitoral ) são públicos . O primeiro é uma espécie de "salário" que cada sigla recebe mensalmente para manter a máquina partidária. Já o segundo foi criado em 2017 justamente para compensar a proibição de doações de empresas a partidos e candidatos. 

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Como o fundo partidário vem dos recursos obtidos pela União, há uma série de normas para o seu recebimento. A primeira delas é a exigência da obtenção da cláusula de desempenho, medida pela votação para a Câmara .  É necessária uma bancada de pelo menos nove deputados federais em nove unidades da federação ou pelo menos 1,5% dos votos válidos distribuídos em um terço das unidades da federação, com no mínimo 1% em cada uma delas.


Além disso, a sigla que recebe o fundo partidário precisa destinar pelo menos 20% do valor para criação e manutenção de fundações. Também é obrigado a pelo neos 5% do valor ser investido em programas de participação feminina na política (simpósios, palestras, chamadas de candidatas, inclusão feminina, etc).

O fundo eleitoral, ou fundo para campanhas tem outro critério. Este é dado a cada partido em anos de eleições, como meio de financiar as candidaturas. O valor depende do número de cadeiras que cada sigla possui na Câmara. Quanto mais deputados federais, maior o benefício. Atualmente com as maiores bancadas, PT e PSL, por exemplo, teriam mais recursos se as eleições fossem hoje.

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É justamente aí que os partidos perdem nas expulsões de parlamentares. Além de perderem recursos do fundo para campanhas, ainda permitem que esses deputados se filiem a outras siglas e, assim, aumentem o valor recebido por elas nas próximas eleições.

Fundo partidário pode ser usado como fundo eleitoral

Foto: Najara Araújo/Câmara dos Deputados
Atual líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP) faz parte da bancada feminina


Em decisão de 2018, o Tribunal Superior Eleitoral autorizou que os recursos do fundo partidário fossem usados nas eleições, mas exigiu que do valor total utilizados, 30% fossem destinados para candidaturas femininas.

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O objetivo da autorização de uso fundo partidário era aumentar a discrepância entre o número de deputados e deputadas na Câmara e senadores e senadoras no Senado, o que, de certa forma, aconteceu. A Bancada Feminina cresceu de 51 para 77 deputadas. No Senado, porém, houve redução de 13 para 12 mulheres.