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Ministro faz referência aos diálogos entre Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol que vieram à tona no último domingo em reportagem

Marco Aurélio
Nelson Jr./SCO/STF - 11.6.19
Marco Aurélio diz não ter medo de hacker e alfineta Moro: "Não mantenho diálogos fora do processo com as partes"

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse nesta quinta-feira (13) que não tem medo de ser hackeado porque, entre outros coisas, não mantém diálogos com as partes fora do processo. Foi uma crítica ao ex-juiz e ministro da Justiça, Sergio Moro, que segundo reportagem do The Intercept , quando ainda era juiz federal, orientou o procurador Deltan Dallagnol sobre como atuar nos casos da Lava Jato  por meio de um aplicativo de mensagens.

Questionado se tinha medo de ser hackeado, Marco Aurélio disse: "Não, eu sou um cidadão, sou homem público, devo contas aos contribuintes. Eu falo muito pouco ao telefone, muito
pouco mesmo", afirmou. Perguntado depois se temia um ataque a aplicativo de mensagens, o ministro respondeu: "Pelo WhatsApp, troco mensagens, né. Não tenho nada a esconder. E
não mantenho diálogos fora do processo com as partes", acrescentou.

O ministro Gilmar Mendes é crítico da Lava Jato e já disse que a eventual obtenção dos diálogos de forma ilegal não quer dizer necessariamente que provas oriundas disso serão
anuladas. Segundo ele, seu uso, dependendo do caso, pode vir a ser admitido quando favorável à defesa. Nesta quinta-feira, questionado se o hackeamento de autoridades o
preocupa, ele disse:

"Sem dúvida. Precisamos saber do que se trata. Não temos visão segura de que é hackeamento. Esse é o grande problema hoje, no mundo todo. Estamos vivendo essa realidade. Por qualquer descuido nossas mensagens ficam à disposição. Temos hoje no tribunal o plenário virtual, veja o tumulto que pode ocasionar uma invasão", ponderou.

"Preparamos votos no sistema, muitas vezes deixamos votos em elaboração, podemos mudar esse voto. Imagine o hackeamento, a violação no meio da preparação de um voto, isso tem
resultados trágicos, passa a ter valor de mercado. Isso é muito grave", completou.

A reportagem do site The Intercept mostrou mensagens trocadas entre o então juiz federal Moro e o procurador Dallagnol. Segundo o site, as orientações do ex-magistrado incluíam
um processo que investigava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Procuradores também teriam discutido como barrar uma entrevista do líder petista à Folha de S.Paulo ,
autorizada pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski.

Nesta quinta, a  defesa de Lula apresentou uma petição no habeas corpus que será julgado em 25 de junho citando as reportagens do The Intercept . No habeas corpus, que começou a
ser julgado em dezembro do ano passado, a defesa já citava outros episódios para argumentar que Moro não era imparcial com o ex-presidente. Questionado se os diálogos entre o
ex-juiz e Dallagnol poderão ser considerados nesse julgamento, Gilmar Mendes respondeu:

"Pode ser uma questão de ordem, talvez. Se documento pode ser considerado. Será objeto de consideração. Na verdade nada ali é novo. Tem muitas questões, gravação de advogados,
já aparece na petição. Apresentaram a guiza de reforço, mas certamente vai ter questão de ordem no início.

Indagado sobre a citação ao ministro do STF Luiz Fux em diálogo entre Moro e Dallagnol, Gilmar minimizou: "Conversa de terceiro", finalizou.

Nesta quarta, Lewandowski não quis responder perguntas sobre o assunto, mas, ao fazer isso, aproveitou para alfinetar Moro. "Juiz só pode emitir opinião se isso estiver
formalizado nos autos. Em tese, não posso dar opinião. Não estou acompanhando isso de perto. Estou acompanhando como leitor de jornais. Não vou fazer nenhuma análise sobre o
assunto", salientou.

Leia também: Relembre 'queda de braço' entre Teori Zavascki e Moro, citada em mensagens

Marco Aurélio voltou a criticar Moro: "Antes desse problema todo, que enxovalhou o perfil dele, eu disse lá atrás que ele (Moro) era não era vocacionado ao cargo de juiz. Mantenho (o que disse). Ele virou as costas à cadeira sem estar numa família rica. Se fosse de família muito rica, eu admitira que ele deixasse a cadeira para ter o ócio com dignidade, mas não é", alfinetou.