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Juiz Marcelo Bretas expediu mandados de prisão contra operador financeiro e dois funcionários do Bradesco; entenda aqui como funcionava o esquema

Sérgio Cabral
Tânia Rêgo/Agência Brasil
Doleiros do esquema de Cabral criaram 'máquina de dinheiro', diz MPF

Alvo de nova operação da Lava Jato do Rio de Janeiro nesta terça-feira (28), a rede de doleiros que servia ao ex-governador do estado, Sérgio Cabral (MDB), e outros clientes lavou R$ 990 milhões com a ajuda de funcionários do banco Bradesco, de acordo com o Ministério Público Federal (MPF).

Agentes da Polícia Federal saíram às ruas para cumprir mandados de prisão contra Tânia Maria Aragão de Souza e Robson Luiz Cunha Silva e contra o operador que servia a Cabral , Alberto Lisnovetsky. No pedido de prisão, o Ministério Público Federal detalhou a movimentação financeira baseada em "chequinhos" e boletos bancários — esquema de corrupção que propiciou à organização criminosa, segundo o MPF, criar uma "verdadeira máquina de dinheiro".

Os irmãos Renato e Marcelo Chebar relataram que, a partir de 2007, em razão do "aumento exorbitante de propina" recebida por Sérgio Cabral, a organização criminosa liderada pelo ex-governador do Rio contratou os serviços dos doleiros Vinícius Claret Vieira Barreto, o "Juca Bala", e Cláudio Fernando Barboza de Souza, conhecido como "Tony".

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Com contratos de fachada, por meio do Banco BPA de Andorra, Juca operacionalizou a entrega de mais de US$ 3 milhões ao ex-político. As delações dos doleiros serviu de base para a deflagração da operação Câmbio, Desligo, que pediu a prisão de 47 operadores do esquema no país.

Desta vez, as investigações do MPF miraram o ex-gerente de banco Júlio Cesar Pinto de Andrade, identificado pelo codinome "Kit", que ajudou os delatores a abrir empresas "fantasmas" e contas bancárias para "gerar" dinheiro vivo por meio de depósito dos chamados "chequinhos" e de pagamentos de boletos bancários. Remunerado com 1% de toda a movimentação dessas contas, Júlio Andrade ainda fornecia telefones "frios" e indicava companhias que alugavam salas para guardar os montantes de dinheiro.

Como saques e depósitos de altos valores são comunicados pelos bancos ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras, e se tornaram condutas suspeitas, as organizações criminosas apostam no dinheiro vivo para encobrir os frutos de corrupção de Cabral e outros clientes.

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Criaram operações nas quais seria possível "gerar" reais em espécie sem sacar valores e creditar contas no exterior sem contrato de câmbio registrado no Banco Central, por meio da compra e da venda de dólares (entenda o esquema). Tais operações, no entanto, dependem da disponibilidade de cédulas.

"Associando vários ciclos de lavagem de dinheiro, foi possível, por meio do depósito de “chequinhos” e a quitação de boletos bancários, gerar reais utilizando-se do sistema bancário nacional e de falhas nos controles das instituições financeiras, criando uma verdadeira máquina de reais", aponta o MPF, no pedido de cautelar, acolhido pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio.

Como funcionava o esquema

Torre prédio da PF
Marizilda Cruppe / Agência O Globo
Torre do prédio da Polícia Federal no Centro do Rio

De acordo com o delator "Tony", a organização criminosa abria contas bancárias de giro para receber cheques no Brasil, sobretudo provenientes do comércio varejista de São Paulo. Estes comerciantes de produtos importados precisavam pagar seus fornecedores no exterior.

Os chamados "chequinhos" eram de baixo valor, no máximo de até R$ 10 mil, muito usados no mercado de câmbio paralelo por não deixarem rastro para fiscalização. Até o Caso Banestado, em 2003, eram criadas empresas frias, que compravam dólares no mercado oficial, hoje alvo de forte fiscalização de órgãos públicos.

Em vez de depositar os "chequinhos" na conta corrente e assinar contratos de câmbio para pagar as mercadorias importadas, o comerciante recorria aos doleiros. Estes doleiros então depositavam os cheques em contas bancárias em nome de empresas fantasmas, em instituições financeiras oficiais, e transferiam recursos no exterior.

Antes disso, a equipe do doleiro precisava carimbar e numerar os cheques, para saber a quem deveria cobrar o valor em caso de devolução do cheque. Os funcionários iam a várias agências fazer os depósitos e evitavam os caixas eletrônicos — caso houvesse alguma distorção nos valores, o depositante não poderia reclamar.

Ajuda de gerentes de banco

Para abrir as contas no Brasil, "Juca Bala" e "Tony" tinham a ajuda do ex-gerente Júlio Cesar Pinto de Andrade, chamado de "Kit", segundo o MPF. Júlio era responsável por abrir as contas e criar as empresas "fantasmas" que delas seriam titulares. Ele possuía uma rede de contatos com outros funcionários bancários que movimentava, ainda de acordo com os procuradores federais, de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões por mês, valores que serviram para os depósitos dos cheques recebidos, segundo "Tony".

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"Tony" contou na delação que conheceu "Kit" por meio do doleiro Favel Bergman, em 1996. Desde então, passou a usar seus serviços. Júlio Andrade cooptava outros funcionários de banco para o esquema e usava parte de sua remuneração para pagar os demais gerentes envolvidos no esquema que beneficiava Sérgio Cabral .