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Em primeira declaração, militar da reserva do Exército erra feio ao reduzir indígenas e negros a rótulos preconceituosos que ecoam desde a colonização

General Mourão fez sua primeira aparição pública como vice de Jair Bolsonaro em evento realizado em Caxias do Sul
Reprodução
General Mourão fez sua primeira aparição pública como vice de Jair Bolsonaro em evento realizado em Caxias do Sul

A estreia do General Antonio Hamilton Martins Mourão, conhecido como General Mourão (PRTB), na condição de candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL), foi estarrecedora. Em  evento realizado nessa segunda-feira (6) em Caxias do Sul (RS), o militar da reserva do Exército Brasileiro demonstrou pujante ignorância ao reduzir indígenas e negros, fundamentais na construção social, econômica e cultural de nosso País, a rótulos  preconceituosos surgidos ainda nos tempos do Brasil Colônia e que já deveriam ter sido extintos há muitos séculos de nossa sociedade.

"Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. E a malandragem. Nada contra, mas a malandragem é oriunda do africano", disparou o General Mourão ao expor sua visão sobre as razões pelas quais o Brasil não consegue "transformar seu porte estratégico em poder".

A associação dos indígenas à "indolência" remonta a argumento usado pelos portugueses para tentar validar a dizimação de vários povos que se negavam a serem escravizados no período entre o desembarque de Pedro Álvares Cabral e o grito de Dom Pedro às margens do Ipiranga.

Mourão ainda tentou amaciar sua declaração dizendo-se ele próprio um indígena, uma vez que seu pai é amazonense. Mas, ainda que compartilhe de laços genéticos com os índios, esse fato não o habilita a desmerecer a cultura dos primeiros brasileiros (assim como nenhum outro fato o faria). Não existe atenuante para preconceitos, muito menos justificativas. 

Além de "filho de pai amazonense", o vice de Jair Bolsonaro é ainda um general da reserva do Exército . E, nessa instituição, os índigenas são altamente respeitados e desempenham papel de suma importância. Alguns dos principais instrutores do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), por exemplo, são índios que compartilham de seus conhecimentos com os colegas de farda de Mourão. E o fazem sem qualquer lastro de "indolência". Fato, ao que parece, o candidato se esquece ou, mais provável, ignora.

Os negros e a "malandragem", segundo o General Mourão

General Mourão foi escolhido vice de Bolsonaro após recusas de Janaina Paschoal e de Magno Malta
Divulgação/Exército Brasileiro - 7.7.14
General Mourão foi escolhido vice de Bolsonaro após recusas de Janaina Paschoal e de Magno Malta

Na mesma toada do desrespeito aos indígenas, o General Mourão também reafirmou a ideia racista que atribui aos negros a pecha de "malandros". A malandragem, por definição, pode ser romantizada e compreendida como uma qualidade daquele que "emprega recursos engenhosos para sobreviver". Mas pode ainda ser atribuída àquele "que furta, que vive fora da lei; que é ladrão, gatuno e marginal". Ambas as definições constam do dicionário Houaiss. 

Voltando ao Exército Brasileiro (sobre o qual, talvez, Mourão tenha melhor conhecimento do que aparenta ter sobre nosso País em si), os negros são numerosos entre os quadros de patentes mais baixas, mas apenas cinco negros alcançaram o mesmo posto de Mourão (o de general) nos 370 anos de história dessa instituição.

Em seminário realizado na Câmara dos Deputados em 2006, o jornalista Sionei Ricardo Leão, que estudou o tema ao longo de mais de uma década, denunciou que os negros encontram dificuldades para ascender a patentes superiores no Exército, mesmo tendo sido fundamentais naquele que talvez tenha sido o episódio de maior glória da instituição, a Guerra do Paraguai (1864–1870). Um dos fatores que podem ajudar essa alegada dificuldade é justamente o preconceito ilustrado pela declaração de Mourão.

Terceira opção de Bolsonaro  para o posto de vice – escolhido só após negativas do senador Magno Malta (PR) e da advogada Janaina Paschoal, co-autora do pedido de impeachment contra Dilma Rousseff (PT) – o General Mourão  tentou provar o ponto de que o Brasil padece com heranças negativas de indígenas e negros. Mas acabou tendo êxito maior em expor outra herança que atrasa nossa evolução como sociedade: a do racismo e da ignorância.