Caixa dois em campanhas é utilizado "por todos os partidos", diz Sérgio Cabral

Ex-governador do Rio de Janeiro prestou depoimento à Justiça Federal nesta segunda em inquérito da Operação Mascate, um desdobramento da Calicute

Ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) está preso desde novembro do ano passado
Foto: Reprodução/TV Globo
Ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) está preso desde novembro do ano passado

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB) afirmou nesta segunda-feira (10) que receber doação de campanha por meio de caixa dois é uma prática disseminada em "todo o Brasil” e usada “por todos os partidos”. Para o peemedebista, que está preso desde novembro do ano passado, o Brasil “é um país de muito pouca tradição democrática”.

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“Este é o modelo do Brasil, esta distorção", destacou Sérgio Cabral , reconhecendo que a prática de caixa dois "é um erro", embora se veja isso "o tempo todo” no país. O ex-governador prestou depoimento perante o juiz da 7ª Vara Federal no Rio de Janeiro, Marcelo Bretas, dentro do inquérito da Operação Mascate, um desdobramento da Operação Calicute.

Antes do peemedebista, o ex-assessor da Casa Civil do governo Ary Filho, preso em fevereiro na Operação Mascate, sob acusação de lavagem de dinheiro e organização criminosa, afirmou ter recebido ao todo entre R$ 9 milhões e R$ 10 milhões em espécie, como bônus destinado por sobras de campanha. Ele disse que coordenou todas as campanhas políticas de Cabral de 1998 até 2010, além das duas de Eduardo Paes à prefeitura do Rio , em 2008 e 2012, e a do atual governador Luiz Fernando Pezão, em 2014.

Ary Filho disse que, por sugestão do empresário Adriano Martins, dono de concessionárias envolvidas no esquema e da Imbra Imobiliária, usou esses recursos para comprar imóveis. “Ele disse: 'se você tem esse dinheiro, traz pra cá, compra esses imóveis e recebe aluguel, o dinheiro não fica parado'. Eu viajava com ele, ele frequentava minha casa. Eu dei o dinheiro pra ele comprar os imóveis. Inclusive comprei um dele, em Jacarepaguá. Ele disse: 'é bom porque os imóveis ficam na minha empresa'. Ele disse que eu poderia ser assaltado, então era para usar para ter lucro. Não comprei no meu nome porque não tinha caixa. Não tinha a origem desse dinheiro.”

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Ele disse que Martins também intermediava o aluguel de carros para as campanhas, cerca de 150 veículos, além de dez blindados, com acerto de lançar apenas 20% do valor na nota fiscal a ser apresentada na prestação de contas ao Tribunal Regional Eleitoral. Os 80% restantes eram pagos em espécie. Ary Filho também contou também que intermediou reunião entre Carlos de Miranda, apontado pelo Ministério Público como operador financeiro da organização criminosa liderada por Cabral, com representantes da cervejaria Itaipava e do supermercado Prezunic. Na Itaipava e no Prezunic teriam sido arrecadados cerca de R$ 10 milhões, R$ 5 milhões em cada.

Outro lado

No depoimento, Cabral admitiu que entregou a Ary Filho algum recurso de sobra de campanha, mas ressaltou que o volume não chegou a 15% do que o ex-assessor afirmou. “Não reconheço esse valor. Eventualmente, após a campanha, alguma sobra pode ser, mas menos de 15% desse valor. Um milhão pode ser. Eu li no processo, mas eu não tenho nada a ver com esses imóveis, com essa compra e venda. Não é verdade isso, não reconheço esse valor de R$ 9 milhões.”

Segundo Cabral, é “comum na política” assessores próximos usarem o nome dos ocupantes de cargos eletivos para pedir contribuição. O ex-governador disse que ficou surpreso com o número de apartamentos, com os carros. "Eu não sabia. Agora, justificar o recurso [obtido] com essas empresas ou [como] sobra de campanha, não é o caso. Muitas vezes, os assessores próximos usam o nome do governador, do parlamentar, do juiz. Eu fui chefe de dois poderes, então sei como funciona.”

Sobre a Itaipava e o Prezunic, Cabral admitiu que as duas empresas fizeram doações para suas campanhas, mas disse que não se recorda se foram legais ou em caixa 2. O ex-governador também rechaçou a acusação de que havia um esquema de propina de 5% em contratos públicos para dividir entre os acusados.

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“Isso eu posso afirmar ao Ministério Público Federal: nunca houve contrapartida. Nunca houve propina. O Ministério Pública colocou que os delatores falam de 5%. Nunca houve isso – eu vejo e fico atônito com isso. Que 5% é esse? Nunca houve isso. Reconheço, sim, que houve caixa 2. Mas esses valores para compra de apartamentos eu desconheço, nunca soube disso”, finalizou Sérgio Cabral. Carlos de Miranda também foi convocado para depor, mas, por orientação dos advogados, permaneceu em silêncio. Para quarta e sexta-feira, estão marcados depoimentos relativos ao inquérito da Operação Eficiência.


* Com informações da Agência Brasil