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Mais de quatro mil indivíduos já morreram desde o início da guerra no Iêmen, em 2015; casa de Abdullah al-Ibbi foi atingida por volta da meia-noite

BBC

Abdullah al-Ibbi perdeu três gerações de sua família em um ataque aéreo; casa foi atingida por volta da meia-noite
Ayman al-Ibbi
Abdullah al-Ibbi perdeu três gerações de sua família em um ataque aéreo; casa foi atingida por volta da meia-noite

A guerra no Iêmen tinha começado havia apenas dois meses quando Abdullah al-Ibbi foi fazer uma refeição com suas duas esposas, filhos e netos. Naquele momento, sua casa foi atingida por um bombardeio aéreo, que matou 27 membros de três gerações de sua família.

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Al-Ibbi sobreviveu e ficou sabendo das mortes apenas seis semanas depois, quando acordou em uma cama de hospital. "Se eu não temesse a Deus, teria cometido suicídio naquela hora. Teria pulado de um prédio... mas Deus me deu paciência", lembra o iemenita.

A família vivia na região de Saada, que é reduto dos rebeldes Houthi. A área foi alvo de muitos ataques da coalizão liderada pela Arábia Saudita, que apoia o presidente iemenita exilado Abdrabbuh Mansour Hadi.

A casa foi atingida por volta da meia-noite, lembra Al-Ibbi. As equipes de resgate e escavadeiras trabalharam até a manhã para retirar os corpos presos sob os destroços. Entre os mortos estavam 17 crianças – a mais nova, uma neta do iemenita, tinha apenas um mês de idade. Além dele, três filhos adultos sobreviveram.

Crianças que morreram no ataque (da esq. para dir.): Iman, Ibrahim, Mona, Yaaqoub, Zakariya; Ishaaq (centro) e Ismail
Ayman al-Ibbi
Crianças que morreram no ataque (da esq. para dir.): Iman, Ibrahim, Mona, Yaaqoub, Zakariya; Ishaaq (centro) e Ismail

Desde que a guerra no Iêmen começou, no início de 2015, os civis foram os mais atingidos. Já são mais de quatro mil mortos, a maioria deles nos ataques aéreos liderados pelos sauditas, segundo dados da ONU.

Memórias

Abdullah al-Ibbi passa a maior parte de seu tempo em um quarto na mesquita onde vive agora. Lá, fica ansioso pelas visitas dos filhos, que vivem em outras partes da cidade.

As noites são mais difíceis – ele teve ferimentos na cabeça e na mandíbula e precisa de um tratamento que não existe em Saada. Mas não são apenas os problemas físicos que fazem o iemenita perder o sono – há também as memórias da vida antes da tragédia.

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"Às vezes eu durmo duas, três horas e então acordo e fico até de manhã... lembro dos filhos e da minha casa", explicou. "Nossa vida era humilde, mas tranquila. Era uma boa vida, éramos felizes... perdemos tudo."

Al-Ibbi cresceu na província de Ibb, região central do Iêmen, e depois se mudou para Saada. Lá, abriu duas barbearias, nas quais ele e seus filhos trabalhavam. "Lutei e trabalhei durante anos e construí nossa casa, tijolo por tijolo."

Futuro

Desde a tragédia, há 18 meses, a família não recebeu nenhum apoio financeiro, apesar das muitas entrevistas que concedeu e das visitas de representantes de várias organizações.

Yunus, um dos filhos de Al-Ibbi, sobreviveu, mas perdeu um dos olhos; na imagem, ele está com a filha de dois anos, Duaa
Ayman al-Ibbi
Yunus, um dos filhos de Al-Ibbi, sobreviveu, mas perdeu um dos olhos; na imagem, ele está com a filha de dois anos, Duaa

Eles tiveram de pegar dinheiro emprestado para pagar o tratamento de um dos filhos de Al-Ibbi, Yunus, que passou seis meses em um hospital por causa dos ferimentos graves causados por estilhaços – e acabou perdendo um olho.

"Quero dar uma vida de volta aos meus filhos. Quero que eles vivam em suas próprias casas", disse Al-Ibbi. O iemenita fica perturbado quando fala dos filhos mais novos, Ismail, Ibrahim, Ishaaq e Yaaqoub, que morreram no bombardeio. Mas o nascimento recente de um neto trouxe alegria ao que restou da família.

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Seu filho, Ayman, resolveu dar o nome de Ismail ao recém-nascido para homenagear ao irmão mais novo, que tinha apenas dois anos quando morreu. Al-Ibbi falou sobre a alegria de ver o neto pela primeira vez. "Senti como se tivesse ganhado o mundo... Senti como se Deus tivesse nos compensado por tudo o que perdemos."

Ele diz esperar que Ismail não passe pelo mesmo que a família passou. "Que ele não veja esta humilhação e esta guerra... Que tenha um futuro melhor."

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