Tamanho do texto

Economista foi o homem forte dos governos Lula e Dilma e comandou o Ministério da Fazenda durante período de forte crescimento do PIB

BBC

Ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega chegou a ser detido nesta quinta-feira (22), mas prisão temporária foi revogada
Agência Brasil - 5.2.2013
Ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega chegou a ser detido nesta quinta-feira (22), mas prisão temporária foi revogada

Um dos elaboradores das propostas econômicas das campanhas petistas à Presidência da República nos anos 1990, Guido Mantega deu início na década seguinte a uma trajetória que o transformou no ministro da Fazenda mais longevo da história recente do Brasil.

Mesmo assim, Mantega acabou preso na manhã desta quinta-feira (22) por causa de assuntos não necessariamente ligados à economia, onde fez carreira, mas à política.

Segundo o Ministério Público Federal (MPF), Mantega é acusado de ter solicitado ao empresário Eike Batista um repasse milionário ao PT para pagar dívidas de campanha. A prisão acabou revogada horas depois pelo juiz Sergio Moro.

Relembre, em quatro pontos, a atuação do ex-ministro no cargo e as acusações contra ele.

1. Chegada ao governo

Nascido em Gênova, na Itália, Guido Mantega mudou-se para o Brasil ainda bebê com os pais. Formou-se na USP, onde também fez doutorado, e participou do núcleo duro da economia das fracassadas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 1989, 1994 e 1998.

Em 2002, entrou na campanha dividindo as atenções com Antonio Palloci, principal articulador da icônica "Carta ao Povo Brasileiro", com a qual Lula acalmou o mercado financeiro, que temia sua chegada ao poder.

Com a vitória do petista, Mantega tornou-se ministro do Planejamento em 2003, enquanto Palocci ficou com a desejada Fazenda.

À frente da Pasta, ajudou a impulsionar o projeto das Parcerias Público Privadas (PPPs). Cerca de dois anos depois, em novembro de 2004, tornou-se presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), quando o presidente da instituição, Carlos Lessa, foi demitido após criticar publicamente o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. 

A chegada à Fazenda, em março de 2006, ocorreu quase que por acaso, quando denúncias veiculadas pelo jornal "O Estado de S.Paulo" envolvendo a quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo Soares Costa atingiram em cheio à imagem de Palocci, que resolveu deixar a Pasta, ocupada às pressas por Mantega.

2. Bonança econômica

Como ministro da Fazenda, Mantega guiou a economia brasileira em meio a um período de grande bonança econômica, impulsionada principalmente pela alta no preço internacional das matérias-primas ( commodities ).

No cargo, foi um dos arquitetos da política anticíclica que ajudou a reduzir os efeitos da crise internacional sobre o Brasil, em 2008. Dentro dessa estratégia, o governo expandiu seus gastos e investimentos, além de ampliar o crédito aos bancos públicos, estimulando o consumo.

Após o fim do governo Lula, Mantega permaneceu à frente da Fazenda no primeiro governo de Dilma Rousseff.

De 2006 até 2011, sob seu comando, a economia brasileira registrou o maior crescimento dos 30 anos anteriores (a média foi de 4,2% por ano; só em 2010, o PIB cresceu 7,5%). O desemprego também caiu fortemente, passando de 9,8%, em 2006, para 6%, em 2011 (a taxa ainda cairia ainda mais, para 4,7%, ao deixar o ministério, em 2014).

3. Derrocada e demissão

Mas a partir de 2011, com a retração da economia mundial, a situação de Mantega começou a mudar – a política de expansionismo fiscal (aumento dos gastos públicos e redução dos impostos) acabou tornando-se sua principal "pedra no sapato".

O ex-ministro começou a enfrentar a desconfiança não só do mercado, mas também do empresariado, que freou investimentos. Em dezembro de 2012, a revista britânica "The Economist" chegou a defender publicamente a demissão de Mantega.

No primeiro semestre de 2014, contudo, veio outra notícia que selaria de vez sua saída do governo.

Após dois semestres consecutivos de queda no PIB, o Brasil entrou oficialmente em recessão técnica. O afrouxamento fiscal também cobraria seu preço (o superávit primário – a economia para pagar juros da dívida pública – fecharia 2014 em 0,4% do PIB) e a inflação terminaria o ano em 6,41%, pouco abaixo do teto da meta (6,5%) e no patamar mais alto desde 2011.

A um mês das eleições presidenciais, a petista afirmou que, caso fosse reeleita, trocaria o ministro da Fazenda, mas não anunciou quem ocuparia o posto. Apesar do embaraço do episódio, Mantega decidiu permanecer no cargo até a troca ser efetivada, para não prejudicar a campanha petista.

Com a vitória de Dilma, ele deixou oficialmente o governo em 1º de janeiro de 2015, sendo substituído por Joaquim Levy, considerado mais próximo do mercado.

Com oito anos, nove meses e quatro dias à frente da Pasta, Mantega entrou para a história como o ministro da Fazenda mais longevo da era republicana.

4. Acusações e prisão

À saída do governo, seguiu-se um período longe dos holofotes da imprensa, com raras aparições públicas. Mantega voltou à FGV, onde dava aulas antes de ser ministro, e passou a liderar um grupo de pesquisas econômicas. Também dedicou mais tempo à mulher, Eliane Berger, que luta contra um câncer desde 2012.

Em novembro de 2015, foi alvo de condução coercitiva (quando o investigado é levado para depor) na Operação Zelotes, que apura um amplo esquema de sonegação fiscal.

O objetivo era investigar se Mantega tinha ligação com uma empresa que é suspeita de comprar decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), que integra o Ministério da Fazenda.

Na manhã desta quinta-feira, porém, ele foi preso na 34ª fase da Operação Lava Jato, intitulada Arquivo X.

Segundo o Ministério Público Federal, sob orientação do PT, o ex-ministro solicitou ao empresário Eike Batista a transferência de US$ 2,35 milhões a uma empresa do casal de publicitários João Santana e Mônica Moura para pagar dívida de campanha. Os pagamentos foram feitos no Exterior.

No momento da operação, Mantega estava no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, acompanhando a mulher, que se preparava para passar por uma cirurgia.

Horas depois, ele teve a prisão revogada pelo juiz federal Sérgio Moro. A decisão foi motivada pela saúde de Eliane.

"Considerando os fatos de que as buscas nos endereços dos investigados já se iniciaram e que o ex-ministro acompanhava o cônjuge no hospital e, se liberado, deve assim continuar, reputo no momento esvaziados os riscos de interferência da colheita das provas nesse momento".

Em entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo", o advogado de Mantega, José Roberto Batochio, descreveu a prisão como "abusiva e arbitrária" e que "não tinha razão de ser".

Já o presidente do PT, Rui Falcão, afirmou estar "revoltado" com a operação que culminou na prisão de Mantega. Segundo ele, o "estilo de arbitrariedade e violação de direito" da força-tarefa da Lava Jato é "insuportável".

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.