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Juiz Sérgio Moro, responsável pelas decisões em primeira instância da Operação Lava Jato, negou solicitação feita por Roberto Prisco Ramos

Fachada da sede Odebrecht, na esquina da Avenida Eusébio Matoso com a Marginal Pinheiros, zona oeste de São Paulo
J.F.Diorio/Estadão Conteúdo 02.06.16
Fachada da sede Odebrecht, na esquina da Avenida Eusébio Matoso com a Marginal Pinheiros, zona oeste de São Paulo

O executivo Roberto Prisco Ramos , ligado à Odebrecht e à Braskem, fez uma solicitação à Justiça Federal para participar com a mulher de uma "peregrinação religiosa" em Roma no próximo mês. O pedido, no entanto, foi negado por Sérgio Moro a ele, que foi alvo da Operação Xepa da Lava Jato.

No pedido a Moro , a defesa do executivo disse que ele e a mulher, "desde que se casaram, em abril de 1973, têm como tradição viajar à cidade de Roma, na Itália, por ocasião dos chamados 'Anos Santos', para participar da peregrinação pelas 'Portas Santas' – Porta Santa da Basílica de São Pedro, de São João Latrão, de Santa Maria Maior e de São Paulo Fora-dos-Muros." Prisco foi preso temporariamente em março deste ano e acabou colocado em liberdade mediante, entre outros compromissos, proibição de deixar o País.

"Este 'Ano Santo', chamado 'Ano Santo da Misericórdia', se iniciou em 8 de dezembro de 2015, com a celebração dos 50 anos do final do Concilio Vaticano II, e terminará na Festa de Cristo Rei, em 20 de novembro de 2016, último dia do ano litúrgico. O ora requerente (Roberto Ramos) e sua esposa haviam programado participar da peregrinação à Porta de São Pedro, no dia 14 de abril de 2016, e já estavam com tudo agendado, quando o requerente, no mês de março, foi preso, motivo pelo qual a programação foi cancelada", relatou a defesa do executivo no pedido.

A Basílica de São Pedro, localizada na Cidade do Vaticano, em Roma: um dos lugares mais visitados da Itália
Ricardo André Frantz/Creative Commons
A Basílica de São Pedro, localizada na Cidade do Vaticano, em Roma: um dos lugares mais visitados da Itália

A advogada Leticia Lins e Silva declarou a Moro que "na expectativa" de que as investigações ligadas ao executivo "fossem concluídas a tempo, sua esposa fez uma nova inscrição para o dia 20 de setembro (2016)". 

Em sua decisão, o juiz federal classificou o pedido como inconsistente com o compromisso assumido de fazer delação premiada à Justiça e ressaltou que "a permanência do investigado no Brasil no momento é necessária para eventuais esclarecimentos já que há notícias de negociação de alguma espécie de acordo entre o Ministério Público Federal e executivos da Odebrecht."

Conexão com Marcelo Odebrecht

Roberto Prisco Ramos apareceu inicialmente nas investigações da Lava Jato após a investigação localizar email trocado entre ele e Marcelo Odebrecht, ex-presidente da maior empreiteira do País, que está preso desde 19 de junho de 2015.

O juiz federal Sérgio Moro durante palestra recente: ele classificou como
André Dusek/Estadão Conteúdo- 10.08.2016
O juiz federal Sérgio Moro durante palestra recente: ele classificou como "inconsistente" o pedido do executivo

A mensagem eletrônica fazia referência à colocação de "sobrepreço" de US$ 25 mil por dia no contrato de operação de sondas. Ramos ainda foi citado em relatório da Polícia Federalno qual indicou que executivos ligados à Odebrecht usavam em suas correspondências a palavra "acarajé" como senha para entrega de valores supostamente ilícitos.

A alusão ao famoso quitute baiano deu origem à Operação Acarajé, que culminou, em fevereiro de 2016, com a prisão do publicitário João Santana e de sua mulher e sócia, Mônica Moura, marqueteiros das campanhas presidenciais de Lula (2006) e Dilma (2010 e 2014).

Em uma das mensagens, de 27 de janeiro de 2014, Ramos escreveu a Hilberto Mascarenhas Alves da Silva Filho: "Tio Bel, você consegue me fazer chegar mais 50 acarajés na quarta-feira à tarde (por volta das 15hs) no escritório da OOG no Rio? Estou no México, mas chego de volta na quarta de manhã".

Em outra mensagem, de 29 de outubro de 2013, o executivo que teve o pedido de peregrinação recusado por Moro fez solicitação semelhante, usando o mesmo código do texto de meses depois: "Meu tio, vou estar amanhã e depois em SP; será que dava para eu trazer uns 50 acarajés dos 500 que tenho com você? Ou posso comprar aqui mesmo no Rio? Tem alguma bahiana de confiança, aqui?"

* Com informações do Estadão Conteúdo