Tamanho do texto

Escutas fragilizam hipótese de que aparelho usado para vigiar Fernandinho Beira-Mar seja o mesmo encontrado por doleiro

Doleiro Alberto Youssef tentou explicar contradições durante depoimento na CPI dos Fundos de Pensão
Alex Ferreira/ Câmara dos Deputados - 27.10.15
Doleiro Alberto Youssef tentou explicar contradições durante depoimento na CPI dos Fundos de Pensão

A investigação que apurou a existência de um grampo dentro da cela ocupada por Alberto Youssef (sindicância 04/14 presidida pelo delegado Maurício Moscardi Grillo), denunciado na Operação Lava Jato, deverá sofrer outro golpe: a instalação de duas escutas ambientais na carceragem da Superintendência da Polícia Federal do Paraná em 2012. Os grampos foram demandados pela Divisão de Contra Inteligência da Polícia Federal em Brasília.

Deflagrada na região de Guaíra, na fronteira do Estado do Paraná com o Paraguai em 6 de julho de 2012, a Operação Erupção buscou desarticular um grupo composto por policiais federais e empresários suspeitos de facilitar o contrabando e o descaminho de mercadorias em área de fronteira. Eles teriam recebido vantagens financeiras de criminosos para deixar de combater as ações ilícitas. Esses dois grampos teriam sido instalados na Superintendência da Polícia Federal do Paraná pelo mesmo agente que diz ter feito a instalação do grampo na cela de Beira-Mar, esse com autorização judicial, e posteriormente na cela de Alberto Youssef.

Dalmey Fernando Werlang teria sido auxiliado pela mesma equipe que o ajudaria posteriormente a fazer a instalação na cela do doleiro. Os dois grampos da Operação Erupção foram instalados para possíveis monitoramentos dos detidos na ocasião. Segundo o iG apurou, eles nem chegaram a ser ativados. A instalação os equipamentos de escuta obedeceu à demanda do delegado Rodrigo de Campos Costa, atual delegado de combate ao crime organizado em São Paulo, e que na época foi o responsável pela deflagração da Operação Erupção.

Após a demanda vir de Brasília, da Divisão de Contra Inteligência, os grampos foram providenciados justamente por não haver nenhum escuta instalada disponível, confirmando a informação de que o grampo usado para monitorar Beira-Mar já não estava disponível na carceragem da Superintendência da Polícia Federal do Paraná em 2014, quando Youssef ocupou a cela cinco daquela carceragem. Esse dado fragiliza ainda mais a sindicância presidida por Moscardi.

Conforme concluiu a sindicância 04/14, presidida por Moscardi, a escuta encontrada por Youssef na carceragem de Curitiva datava da passagem de Beira-Mar na custódia e estava desligada. Esse parecer consta no relatório final da CPI da Petrobras.

“A sindicância sobre a escuta na cela de Alberto Youssef foi presidida pelo delegado Mauricio Moscard Grilo. A conclusão é de que a escuta fora instalada em 2008 para monitorar Fernandinho Beira-Mar e estava desativada”, informa o relatório final da CPI da Petrobras.

Não bastassem outros indícios apontando possíveis falhas nessa conclusão, como a que atesta que o aparelho encontrado no local era um AT 160, comprado pela Polícia Federal em data posterior à passagem de Beira-Mar pelo local, conforme o iG noticiou, surgem agora dois outros grampos. As novas investigações conduzidas pelo delegado Alfredo Junqueira, da Corregedoria-Geral da Polícia Federal, já concluíram que uma das escutas encontradas na Superintendência da Polícia Federal no Paraná em 2014, aquela colocada no fumódromo, era ilegal. Resta a conclusão sobre a escuta encontrada na cela de Youssef, cujo resultado poderia ter efeitos sobre a Operação Lava Jato como um todo.

Sobre o grampo instalado na cela de Youssef, Werlang disse à Justiça Federal o mesmo informado à CPI da Petrobras. Que o fez por demanda dos delegados Igor Romário de Paula, Marcio Adriano Anselmo e Rosalvo Ferreira Franco, superintendente regional da Polícia Federal do Paraná.

“Estiveram na minha sala no Núcleo de Inteligência o delegado Igor [Romário de Paula], o delegado Rosalvo [Ferreira Franco, superintendente da Polícia Federal no Paraná] e o delegado Márcio [Adriano Anselmo] solicitando uma instalação com urgência em uma das celas. Até então eu não sabia do que se tratava, apenas fui demandado para dar essas condições para que posteriormente talvez eles precisassem para executar alguma atividade que eles estavam investigando”, disse Dalmey na presença do juiz Sergio Moro.

Tanto De Paula como Anselmo negaram tal versão em depoimento na Justiça Federal. “Essa ordem não existiu por nenhuma das autoridades envolvidas na investigação Lava Jato e nem da Superintendência da Polícia Federal. Até o momento em que ela foi encontrada nós desconhecíamos que esse tipo de aparelho estava instalado no forro da custódia”, disse De Paula. “A testemunha que foi ouvida anteriormente [Werlang] era lotada em outro setor e eu não tinha qualquer relação hierárquica com ela. Eu não teria como ter dado qualquer ordem nesse sentido para ela sem um canal hierárquico”, afirmou Anselmo em seu depoimento.

Bolacha nega ter visto grampo
Nesse imbróglio, ganham força dois personagens, os agentes Paulo Romildo Rossa Filho, conhecido como Bolacha, e Maria Inês Malinowski de Paris Slussarek. Bolacha era o responsável pela carceragem da Superintendência da Polícia Federal no Paraná na época em que Youssef foi detido, em 2014. Na sindicância 04/14, Bolacha afirma que não presenciou a instalação de grampo algum no local. A posição de Bolacha foi alvo de questionamentos. O próprio Werlang afirmou tanto à CPI da Petrobras quanto à Justiça Federal que Bolacha o auxiliou na tarefa evacuando parte da carceragem para que ele e sua auxiliar pudessem trabalhar.

Bolacha estaria supostamente sendo vítima de coação para dizer na sindicância 04/2014 que não houve instalação de nenhum grampo na custódia quando da prisão de Youssef. O tema foi abordado pelo delegado Mário Fanton à Justiça Federal. Lotado em Bauru, interior de São Paulo, Fanton foi a Curitiba com a responsabilidade de investigar a ação de policiais que supostamente estariam acordados com advogados de presos da Lava Jato para a confecção de dossiês que pudessem melar a operação na Justiça. Dentro dessa investigação, ele passa a desconfiar da ação de De Paula e da esposa dele, Daniele Gossenheimer Rodrigues, delegada-chefe do Núcleo de Inteligência.

À Justiça Federal, Fanton afirmou como tomou conhecimento do caso da suposta coação a Bolacha. “Dentre essa questão do dossiê, que é uma questão muito genérica, havia algumas ações específicas envolvendo a captura de dados dos delegados que mencionei Moscardi, De Paula, Anselmo e a delegada Érica Mialik Marena, chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros no Facebook por manifestações políticas que eles tinham feito. Também a tentativa desse grupo em cooptar o agente Bolacha, que era o agente responsável pela carceragem da Polícia Federal em Curitiba, na tentativa de que ele pudesse mudar o depoimento dele prestado na sindicância 04/14, que apurou a interceptação ambiental encontrada dentro da cela do Alberto Youssef”, disse Fanton à Justiça Federal.

Fanton mencionou à Justiça Federal um tema que também tratara na CPI da Petrobras, o inquérito 768/14, que apurou o vazamento de uma investigação sobre uso de celular na carceragem da Superintendência da Polícia Federal no Paraná em que Bolacha seria o principal suspeito. Segundo o delegado disse aos deputados da CPI da Petrobras, nenhuma das duas investigações deram em nada.

Bolacha também teria sido investigado em outros dois procedimentos. O iG teve acesso a um memorando entregue a deputados da CPI da Petrobras em que Bolacha é citado como alvo de uma sindicância, a 06/2014 instalada em 16 de maio de 2014, para “apurar suposta indicação de advogado à presa pelo servidor Paulo Romildo Rossa Filho”. O documento diz ainda que em 4 de agosto do mesmo ano, a sindicância 06/14 foi relatada pedindo a abertura de um processo administrativo disciplinar “porém, surgiram fatos novos que levaram à instalação do inquérito 453/2014”, que tramita sob segredo de Justiça. O iG procurou o agente Bolacha, mas não obteve nenhuma resposta dele. A reportagem perguntou especificamente a respeito do inquérito policial 453/2014 e da sindicância 06/2014.

O nome de Bolacha também consta no organograma apresentado por Fanton na CPI da Petrobras e noticiado em primeira mão pelo iG . Segundo o delegado disse aos deputados na ocasião, o organograma contém nomes de policiais e autoridades que deveriam ser perseguidos nas investigações que ele conduziu na Superintendência da Polícia Federal do Paraná no primeiro semestre deste ano.

Maria Inês
Maria Inês foi apontada por Werlang como a pessoa que o auxiliou na instalação do grampo que Youssef encontrou em sua cela em 2014. Ela chegou a ser convocada para falar na CPI da Petrobras, o que deveria ter ocorrido em 29 de setembro. Entretanto, a esperada confirmação ou negação daquilo que Werlag dissera aos deputados e que repetiria em seu depoimento na Justiça Federal não aconteceu, já que Maria Inês não compareceu à CPI alegando razões de saúde.

O iG teve acesso a um email enviado por Maria Inês para Werlang em 6 de maio deste ano. Deputados da CPI da Petrobras também receberam cópias deste email. Nele, Maria Inês fala a Werlang a respeito da instalação do grampo na cela de Youssef. “Você me pediu para ajudá-lo porque era urgente e tinha sido uma solicitação da cúpula! Que tínhamos que fazer um trabalho rápido! Acho que você me falou que o super [Rosalvo Ferreira Franco, superintendente da Polícia Federal no Paraná] e o Igor [Romário de Paula] tinham solicitado o serviço lá no NIP [Núcleo de Inteligência Policial] e se reuniram na sala da contra [inteligência]. Acho que neste dia cheguei mais tarde pois não vi o encontro de vocês. Mas vi outros encontros lá em outras ocasiões que aconteceram com a presença das chefias”, diz a mensagem.

No e-mail, Maria Inês prossegue e cita especificamente o agente Bolacha. “Bem, fomos à carceragem não me lembro o dia e o Bolacha já tinha isolado os presos. Lembro também que tinham duas pessoas que eu não sabia quem eram na época e que ficavam por aí interessadas no que estava acontecendo, conforme conversamos depois isso não foi legal! E penso que isso pode ter sido motivo do vazamento, muita gente circulando por lá”, afirma a agente numa referência aos vazamentos de informações que teriam tido origem no NIP, setor chefiado pela delegada Daniele Gossenheimer Rodrigues, que é muher de De Paula.

Ao final da mensagem, Maria Inês relembra alguns detalhes a ocasião da instalação do grampo na cela de Youssef. “No dia que estávamos na carceragem eu não sabia que era um preso que estava para chegar e que por isso o trabalho era urgente. Fiquei sabendo que era o Youssef depois”, diz ela, para em seguida arrematar. “Mas eu só soube mesmo quando você me falou que eles não tinham alvará (da Justiça para fazer a interceptação ambiental na cela do doleiro)! O que me deixou com muita raiva! Porque o delegado colocaria uma operação tão importante em risco!!! Afffff vai entender, né?”, termina ela. O iG procurou a agente Maria Inês, mas não obteve resposta da agente.

O i G procurou a Polícia Federal em Brasília a respeito de questões relacionadas à Operação Erupção, mas até a publicação desta reportagem não havia recebido nenhuma resposta. A segunda sindicância em curso para apurar possíveis falhas no processo de investigação do grampo encontrado na cela de Youssef conduzida por Moscardi está a cargo do delegado Alfredo Junqueira e ainda não foi concluída. Esta segunda sindicância permanece sob segredo de Justiça.