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Deputados têm reclamado da presença de funcionários do banco que desconhecem fatos, aparentam bom treinamento de mídia e pouco tem acrescentado às investigações

CPI do BNDES mostra esvaziamento na pauta
Antonio Araújo/Câmara dos Deputados - 11.8.15
CPI do BNDES mostra esvaziamento na pauta

Uma das últimas a fazer questionamentos para o diretor de infraestrutura e insumos básicos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Roberto Zurli Machado, a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) perdeu a paciência. Não foi a primeira vez que um parlamentar expressou sua contrariedade com a presença de convocados na CPI do BNDES que pouco ou nada tiveram a acrescentar sobre supostas irregularidades envolvendo o banco. Enquanto outras comissões avançam, a CPI do BNDES parece patinar sem um rumo determinado.

Mantega participaria da audiência desta terça-feira na CPI do BNDES, mas adiou o comparecimento
Agência Brasil
Mantega participaria da audiência desta terça-feira na CPI do BNDES, mas adiou o comparecimento

Instalada em 6 de agosto, a CPI pouco produziu ao longo das 15 sessões que realizou. Tanto que na última quinta-feira (24), muitos parlamentares comemoraram a audiência realizada com Roberto Graziano Russo, ex-presidente do frigorífico Independência. “A CPI começou hoje”, sintetizou Arnaldo Jordy (PPS-PA).

A sessão desta terça-feira (29) era aguardada com ansiedade já que estava programada audiência pública com o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, que presidiu o BNDES no período que vai de novembro de 2004 a março de 2006. A presença de Mantega, entretanto, teve de ser adiada a pedido do ex-ministro que alegou questões de saúde.

“Há essa comparação com as outras CPI. As informações estão chegando. Acho que com o tempo a CPI vai encorpar e seguir sua trajetória, encontrar seu norte. Vivemos um momento de curso natural das coisas. Não há um único fato determinado na mira da CPI, há vários fatos. Estamos vencendo etapas. Ouvimos os técnicos do banco e agora entramos na fase de ouvir as empresas que se beneficiaram de créditos”, pondera o presidente da CPI, deputado Marcos Rotta (PMDB-AM).

Cristiane questionava Machado sobre a existência de um suposto tráfico de influências pautando os investimentos do BNDES no estrangeiro. O diretor do banco disse acreditar que não. “Fico feliz que tenha terminado a agenda do meu querido relator (José Rocha) porque acredito que temos de fazer uma reunião urgente”, disse a deputada, que em seguida criticou. “Para que a gente pudesse falar sobre alguns temas mais delicados, uma reunião interna nossa, a continuar (assim) também não vejo nenhum sentido em continuarmos aqui”, acrescentou ela.

Veja aqui o momento de impaciência de Cristiane:

A reação de Cristiane não foi a primeira dessa natureza a acontecer na CPI do BNDES. Dias antes, em 15 de setembro, foi a vez de Caio Narcio (PSDB-MG) perder a paciência com outro convocado, Ricardo Liáo, Secretário-Executivo do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Ao questionar Liáo sobre o maior caso do qual teria participado no Coaf, o tucano descobriu que o interlocutor nada tinha a dizer por nunca ter atuado no setor de inteligência.

“Então não teríamos nem de estar ouvindo Vossa Senhoria”, disparou. “Vossa senhoria não tem conhecimento, não tem deliberação, portanto, não deveria estar sentado nessa cadeira”, criticou. “Agradeço sua participação. Acho que tivemos uma convocação equivocada porque em relação a tudo que foi dito aqui Vossa Senhoria não sabe de nada, não conhece nada e o que poderia saber não está no âmbito de sua atuação. Agradeço sua participação mesmo não dirimindo nossas dúvidas”, declarou Narcio.

Assista ao momento de irritação de Narcio:

Quando citou a “agenda de querido relator”, Cristiane reagia a informação dada pelo presidente naquela sessão de que o convidado era parte de uma lista de requerimentos do relatora da CPI, deputado José Rocha (PR-BA). Para muitos na comissão, parece ter caído nas costas dele a sequência de audiências públicas inócuas. Mas Rocha se defende ao dizer que a convocação de Machado por exemplo, não foi um requerimento dele, mas de Betinho Gomes (PSDB-PE).

Formalmente, Rocha também subscreve o requerimento de Betinho.

“Não é verdade que é uma pauta minha. É uma pauta da CPI. A pauta foi aprovada por unanimidade por todos os membros da CPI. Além disso, alguns diretores do banco que estiveram aqui não foram por requerimento assinado por mim. Eles estiveram aqui a pedido de deputados da oposição, inclusive pelo Betinho Gomes, que pediu aqui a presença de três diretores do BNDES. Portanto, não posso ser eu o dono dessa conta”, defende-se Rocha. “E todos concordaram com a presença dessas pessoas aqui”.

Financiamentos concedidos pelo BNDES estão sob suspeita
ALE SILVA
Financiamentos concedidos pelo BNDES estão sob suspeita

Corpo técnico
O presidente da CPI admite que a comissão tem tido dificuldades também por causa da ausência de um corpo técnico qualificado para auxiliar os deputados na tarefa de destrinchar os números que tem chegado para a CPI. A comissão tentou contratar a Fundação Getúlio Vargas para ajudar nesse sentido, mas não houve acordo. Agora, segundo o presidente da CPI, torna-se primordial a contratação de uma auditoria.

“Acho que na semana que vem resolvemos a contratação da auditoria externa. Tem muitos dados técnicos chegando à CPI e precisamos deles para fazer a leitura desses dados”, diz Rotta. A comissão também cobra ajuda de outros órgão que supostamente deveriam já ter enviado representantes, mas ainda não mandar, casos do Coaf e do Banco do Brasil.

“Técnico para vir aqui dar aula de como o banco funciona, não precisamos”, diz Narcio. “A pauta precisa ser mais objetiva. Tem muitas coisas suspeitas que precisamos investigar. E falta também um corpo técnico para nos dar sustentação. O trabalho hoje da comissão está subaproveitado”, afirma o tucano.

“Não me decepcionei com a fala deles (técnicos do BNDES). Mesmo porque, precisávamos da versão do banco. E a versão do banco só podemos ter ouvindo seus diretores, ex-presidentes e o presidente. Senão não teríamos a versão do banco. Agora passaremos a ter a versão dos clientes do banco”, diz o relator. “Se você ouve a versão do banco e depois ela é confrontada com os clientes é mais produtivo. Se fosse o inverso, teríamos uma versão do banco adaptada a versão dada pelo cliente”, declara Rocha.

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