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Um dia após ser acusado de receber propina, presidente da Casa fala de cadeia nacional de rádio e TV sobre as "conquistas" sob sua gestão e evita explicitar desavenças com o governo

Cunha guardou as armas e preferiu fazer propaganda positiva de sua gestão na Câmara
Alan Sampaio / iG Brasília
Cunha guardou as armas e preferiu fazer propaganda positiva de sua gestão na Câmara

A movimentada semana de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, terminou com o pronunciamento do parlamentar em cadeia de rádio e TV na noite desta sexta-feira (17). O líder peemedebista, que pela manhã disparou munição pesada contra o governo, Rodrigo Janot (da Procuradoria Geral da República), a Polícia Federal e Sergio Moro (juiz federal responsável pelas investigações da Operação Lava Jato , optou por um discurso bem mais ameno.

Foi em tom enfadonho que Cunha procurou ressaltar a pauta positiva liderada por ele na Câmara desde 1º de fevereiro, quando tomou posse na presidência da Casa. O parlamentar iniciou seu pronunciamento relembrando que Brasília foi inaugurada para ser "a capital onde os três poderes viveriam em harmonia e equilíbrio", recordou que a cidade passou por uma ditadura e, hoje, vive um período "histórico", com uma Câmara dos Deputados independente, "com muito mais iniciativa e amplamente conectada com as demandas da população", enumerando a série de projetos votados pelos deputados nos primeiro semestre – incluindo os mais polêmicos. 

Veja 10 frases polêmicas de Eduardo Cunha:

Um fato chamou a atenção. Enquanto o presidente da Câmara falava, a expressão #CunhaNaCadeia liderava entre os tópicos mais comentados pelo brasileiros no Twitter. Nos trending topics mundiais, a expressão aparecia em segundo lugar. A mesma reprovação não se viu nas ruas. Pontualmente foram registrados alguns protestos, os panelaços. Houve relatos de manifestações na região da Avenida Paulista, em São Paulo, e na Asa Norte, região de Brasília onde se concentram moradores de classe média alta.

No discurso de Cunha, foram muitos os momentos de auto-elogio. "Com coragem e maturidade, debatemos a redução da maioridade penal e aprovamos o projeto com 323 votos, ampla maioria. Dentre outros, também já foi aprovado – e virou lei – o projeto que transforma o assassinato de policiais e seus parentes em crime hediondo."

Durante o discurso, que foi bastante mecânico, Cunha prosseguiu citando os esforços de seu mandato em aprovar a PEC das domésticas e votar projetos como que regulamenta os direitos do trabalhador terceirizado, o que veta mudanças no fator previdenciário e os que corrigem o FGTS e as dívidas dos municípios com a União.

A reforma política também entrou no discurso de Cunha. "Trouxemos ao debate nacional um tema importante para a vida do País: a reforma política. Entre as medidas já aprovadas estão o fim da reeleição, o limite de gastos, a redução do tempo de campanha eleitoral e o comprovante de voto impresso em papel, garantindo que o seu voto seja respeitado e a eleição, mais transparente", ressaltou Cunha. "Aprovamos a PEC da Bengala [...], aprovamos o Marco Regulatório da Biodiversidade [...], criamos a Comissão de Defesa às Pessoas com Deficiência."

Protesto contra Eduardo Cunha liderou os trending topics no dia em que ele fez o primeiro pronunciamento como presidente da Câmara
Reprodução/Twitter
Protesto contra Eduardo Cunha liderou os trending topics no dia em que ele fez o primeiro pronunciamento como presidente da Câmara

Cunha preferiu evitar o confronto com o Palácio do Planalto em seu pronunciamento. Com essa decisão, o parlamentar foi numa direção oposta a vista nesta sexta-feira pela manhã, quando anunciou o rompimento pessoal com o governo da presidente Dilma Rousseff e fez uma série de críticas ao Planalto.

A reação agressiva de Cunha ocorreu um dia depois de o presidente da Câmara ter sido acusado pelo doleiro Alberto Youssef de usar emissários e a CPI da Petrobras para intimidar testemunhas.

Mas o principal ponto dos cinco minutos de pronunciamento foi a insistência por algumas vezes no discurso de que o atual Parlamento tem avançado muito em 2015, à medida em que tem "votado temas que a sociedade aguarda há anos e, em alguns casos, há décadas". "Nunca a Câmara trabalhou tanto quanto agora", exaltou. "O passo histórico que estamos dando está nos avanços que temos ajudado o país a fazer, buscando as suas demandas [...] E é para o povo que vamos continuar trabalhando, com independência, coragem, responsabilidade e eficiência."

Propina de US$ 5 milhões
De acordo com depoimento de delação premiada de Júlio Camargo à Justiça Federal do Paraná, realizado na quinta-feira (16), o atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, recebeu US$ 5 milhões em propina para liberar dois contratos da Petrobras, entre os anos de 2006 e 2007.

De acordo com Camargo, consultor ligado à empresa Toyo Setal, partiu do próprio Cunha a pressão pelo pagamento da propina. O dinheiro é referente a dois contratos de cerca de US$ 1,2 bilhão relativos a navios-sonda – projetados para perfuração submarina – para a Petrobras.

Em nota à imprensa logo após a divulgação do depoimento, Cunha negou com veemência o conteúdo das acusações de Camargo, às quais chamou de mentiras, desafiando o delator a comprová-las. 

"É muito estranho, às vésperas da eleição do Procurador Geral da República e às vésperas de pronunciamento meu em rede nacional que as ameaças ao delator tenham conseguido o efeito desejado pelo Procurador Geral da República, ou seja, obrigar o delator a mentir", atacou o presidente da Câmara. 

Ainda na mesma noite, conforme revelou a coluna de Tales Faria  nesta sexta-feira (17), Cunha se reuniu com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e com o vice-presidente da República, Michel Temer, líder nacional do partido. 

Na ocasião, ele, visivelmente nervoso, afirmou que anunciaria no dia seguinte o rompimento definitivo com o governo, justificando que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o está perseguindo na Operação Lava Jato, além de ter garantido ter "absoluta certeza" de que o governo Dilma e o PT estão por trás das acusações do Ministério Público e da Polícia Federal. 

"Saiba que o presidente da Câmara a partir de hoje é oposição", anunciou Cunha à imprensa, nesta sexta-feira. Ele garantiu que, devido ao seu foro privilegiado – por ser parlamentar –, levará o processo de investigação da Lava Jato para o Supremo Tribunal Federal (STF). 

"O juiz [Sérgio Moro] não poderia conduzir o processo daquela maneira [...] Ele se acha dono do País", atacou Cunha. "Sou acima de tudo um agente político, vou pregar no meu partido que a gente vá para a oposição."

Em pronunciamento, o governo federal afirmou que o rompimento de Cunha é uma decisão pessoal do parlamentar.

Assista a íntegra do pronunciamento de Eduardo Cunha (PMDB):