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Corrente majoritária, comandada pelo ex-presidente Lula, quer abrandar ataques à atual política econômica do país

Brasil Econômico

A aliança com o PMDB e a política fiscal do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, são candidatas ao tema mais polêmico e de maior divergência do 5º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores, que começa amanhã e vai até o domingo em Salvador. Os 800 delegados esperados no encontro votarão em pontos do regimento interno, mas também vão discutir e deliberar sobre a atualização do projeto petista e sobre a ação partidária para os próximos anos.

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Atualmente, a chapa O Partido que Muda o Brasil, de maior afinidade com o governo, é a que possui o maior número de delegados: 429. Já a Mensagem ao Partido, que tem como nomes fortes o ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro, o deputado federal Alessandro Molon (RJ) e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, conta com 164 delegados. A ex-ministra e deputada federal Maria do Rosário (RS) compõe a terceira maior ala petista, a Partido é Para Todos, Na Luta, com 114 delegados.

Entusiasta e principal articulador da frente democrática que começará pelo Rio de Janeiro, engloba PCdoB e tenta conquistar partidos como PSB e Psol, em detrimento da manutenção da aliança com o PMDB, Tarso Genro antecipa a crítica e as contradições entre a proposta de um projeto de esquerda e a permanência de peemedebistas na base aliada do governo. Líderes como o presidente do PT fluminense, Washington Quaquá, são alguns dos que defenderão a coalizão com o PMDB.

“Há uma contradição, já que estes [líderes] condicionam a aliança pela ‘esquerda’ à manutenção da hegemonia do PMDB, com o que nós não concordamos. Concordamos que não devemos romper com o PMDB, pois daí a sustentação do governo Dilma se tornaria mais precária”, afirma Genro, apontando, porém, para uma nova frente para 2018, na qual o PMDB não seja o partido hegemônico. “Nós estamos levando esta posição de um novo sistema de alianças, mas não é de ruptura com o PMDB, na sua relação com o governo Dilma”.

Para o cientista político Cristiano Noronha, da consultora Arko Advice, apesar das críticas de alas petistas mais à esquerda sobre a hegemonia do PMDB na base aliada, a realidade é que, desde o final de seu primeiro mandato, a presidenta Dilma Rousseff tem tentado reduzir essa dependência.

“Esse atrito começou no início do ano, quando o PMDB percebeu que o governo estava estimulando o fortalecimento do PSD e do Pros. Isso foi ruim, e agora o governo enfrenta essa desconfiança dos peemedebistas”, afirma Noronha, acrescentando que a busca por novos parceiros responde também à sinalização do PMDB de que pode ter candidato próprio em 2018. “Nesse sentido, o debate sobre novas alianças que as correntes devem propor no congresso está em consonância com o que o governo tenta fazer, até mesmo para o PT não perder para a oposição potenciais aliados importantes em 2018”, complementa.

Quanto às críticas ao ajuste fiscal, o cientista político recorreu à presença forte do ex-presidente Lula. Segundo Noronha, o principal líder petista vem colocando “panos quentes” para que as críticas sejam brandas. “Evidentemente, a política econômica gera descontentamento dentro do PT, não pelo ajuste em si, mas porque eles acham que o que o governo fez acabou atingindo os mais pobres. Tanto é que eles podem aprovar no congresso uma resolução em defesa do imposto sobre grandes fortunas e a volta da CPMF”, aposta.

A despeito das últimas ações do governo no Congresso Nacional — para convencer os parlamentares petistas e da base aliada a aprovar as MPs 664 e 665 — e no PT, para amenizar as críticas ao ajuste fiscal, o ex-ministro Tarso Genro, que disse em entrevista recente ao Brasil Econômico não acreditar na mudança de orientação da política econômica, garante que o documento da corrente Mensagem e as proposições no congresso do partido “não estarão limitados por demandas, venham de onde vierem”.

Para Cristiano Noronha, a postura contrária, embora crítica, do ex-presidente Lula, é sinal de que ele próprio depende muito do sucesso do governo: “O PT não pode criar problemas para o governo, porque isso fragiliza a legenda e sua candidatura em 2018”.

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