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Pela primeira vez, dois candidatos disputam lugar em um segundo turno que pode sequer não ocorrer

O Brasil realiza neste domingo (5) sua sétima eleição presidencial direta desde a redemocratização e, possivelmente, a mais imprevisível de todas, com  Dilma Rousseff (PT) , a atual presidente, a ex-senadora Marina Silva (PSB) e o senador Aécio Neves (PSDB) como os três candidatos mais bem colocados.

Desde 1989, a eleição presidencial não chega à véspera da votação com dois candidatos embolados na 2ª posição, disputando um segundo turno que sequer está  garantido. Segundo levantamento do iG em pesquisas de véspera de votação realizadas pelo Instituto Datafolha, esse cenário é inédito.

Marina, Aécio e Dilma: eleição deste ano tem três nomes com chances de chegar ao 2º turno
Divulgação
Marina, Aécio e Dilma: eleição deste ano tem três nomes com chances de chegar ao 2º turno

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Com isso, três cenários podem sair das urnas hoje: vitória de Dilma no primeiro turno, algo que não ocorre desde 1998 com a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB); segundo turno entre Dilma e Aécio, que já chegou a estar 20 pontos atrás das duas adversárias; e segundo turno entre Dilma e Marina, que já esteve empatada tecnicamente com a petista na liderança, mas desidratou em ritmo acelerado nas últimas semanas.

Segundo o último Datafolha, divulgado neste sábado (4), Dilma lidera com uma margem de 16 pontos sobre Aécio nas inteções de voto totais (incluídos brancos e nulos). A vantagem é a mais apertada desde 2006, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) levava 11 pontos à frente do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), contra quem disputou e venceu o segundo turno.

Aécio, entretanto, está apenas dois pontos à frente de Marina neste ano - Alckmin tinha 27 pontos sobre Heloísa Helena (PSOL). A vantagem do senador, neste ano, configura empate técnico entre o segundo e o terceiro colocados da disputa, algo que não ocorria desde 1989, quando Lula tinha 15% dos votos válidos contra 14% do ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola (PDT), enquanto Fernando Collor (PRN) registrava 26%.

Essa competitividade quase inédita é explicada, em parte, por um acontecimento inédito: a morte de um candidato à Presidência durante o período de campanha. Em 13 de agosto, o avião que levava o ex-governador Eduardo Campos , o então presidenciável do PSB, caiu em Santos, no litoral paulista. Ele e outras seis pessoas morreram

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Campos foi substituído por Marina, então candidata a vice. Apresentando-se como terceira via entre PT e PSDB e representante do movimento que tomou as ruas do País em junho de 2013 - numa ocupação política dos espaços públicos comparável à que exigia o impeachment de Fernando Collor em em 1992 e à campanha pelas Diretas Já em 1984 - a ex-senadora fez a chapa do PSB disparar do terceiro lugar a um empate numérico na liderança da corrida presidencial com Dilma, que até então parecia inalcançável.

A nova configuração do cenário jogou o PSDB para o terceiro lugar na disputa presidencial, posição que o partido ainda pode estar ocupando - já que está em empate técnico com o PSB - e que é uma novidade para o partido. Os tucanos nunca ficaram em terceiro lugar às vésperas da eleição desde que começaram a disputar a presidência em 1994, com Fernando Henrique Cardoso.

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Duas semanas depois de alcançar a liderança compartilhada, entretanto, Marina começou a perder apoio. O fenômeno é atribuído por ela aos ataques de ambos adversários, mas a própria ex-senadora ofereceu armas contra si ao voltar atrás em pontos de seu programa de governo, como o combate à homofobia.

A queda foi rápida. Da pesquisa de 28 e 29 de agosto, que apontou a ex-senadora com os mesmos 34% de Dilma, até a de 3 e 4 de outubro, passou-se pouco mais de um mês. O intervalo foi suficiente para Marina perder 12 pontos e chegar à véspera da eleição com 22% das intenções de voto.

Aécio fez o caminho inverso e, do fundo do poço de 14% a que caiu em 28 a 29 de agosto, disparou dez pontos e chega à véspera do pleito com 24% das intenções de voto.

Veja imagens dos candidatos à Presidência durante a campanha:

Caso, de fato, ultrapasse Marina nas urnas, Aécio manterá a tradição que vigora há duas décadas de segundos turnos presidenciais entre PSDB e PT, que a ex-senadora ainda está apta a quebrar, embora com chances muito menores.

Dilma, entretanto, pode garantir uma vitória em primeiro turno da eleição presidencial - algo inédito para o PT - e quatro mandatos consecutivos para sua legenda - algo inédito para qualquer partido.

Alckmin: chance de vitória no 1º turno em SP
Marcelo Ribeiro/ Alckmin 45
Alckmin: chance de vitória no 1º turno em SP

Dois maiores colégios eleitorais devem ter só primeiro turno

Em dois dos três maiores colégios eleitorais brasileiros, a disputa, por outro lado, é bem menos concorrida, e pode acabar ainda em primeiro turno.

Em São Paulo, que concentra 22% dos eleitores do País, Geraldo Alckmin (PSDB), que já venceu duas eleições para o Palácio dos Bandeirantes, tem 51% das intenções de votos ante 21% do presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf (PMDB).

Skaf: risco de ficar de fora do 2º turno em SP
Willian Volcov/ Skaf 15
Skaf: risco de ficar de fora do 2º turno em SP

Durante a campanha, Skaf evitou qualquer identificação de sua candidatura com a de Dilma, apesar da aliança do PMDB com a pestita no plano nacional. A estratégia, que visava evitar contágio pela rejeição à presidente no Estado, tirou do empresário a oportunidade de subir no palanque de uma candidata que tem a intenção de voto de aproximadamente 1/4 dos eleitores do Estado.

Pimentel: liderança folgada em Minas Gerais
Site oficial/Fernando Pimentel
Pimentel: liderança folgada em Minas Gerais

O cenário também tem seu ineditismo: com 11% das intenções de voto, o candidato do PT, Alexandre Padilha, chega às vésperas da eleição em terceiro lugar, algo que não ocorria desde 2002 com o partido. Caso o prognóstico se confirme, o petismo terá tido, desde então, o seu pior desempenho numa disputa pelo governo do Estado em que nasceu, mas que nunca comandou. O PSDB, por sua vez, poderá chegar a também inéditos 24 anos consecutivos à frente do Estado.

Pimenta da Veiga: 18 pontos atrás em Minas
Facebook/Pimenta da Veiga
Pimenta da Veiga: 18 pontos atrás em Minas

Em Minas Gerais, por outro lado, a hegemonia tucana está perto do fim. No Estado de origem de Aécio, onde PSDB venceu as quatro últimas eleições, Fernando Pimentel (PT) tem 43% das intenções de voto - 54% dos válidos (excluídos brancos e nulos) - contra 30% do tucano Pimenta da Veiga, o que indica fim da disputa em primeiro turno.

O resultado é uma ameaça a mais para a carreira de Aécio como liderança do PSDB, que terá a legitimidade questionada se sair desta eleição derrotado duplamente  - no País e no Estado, que é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil (11% do eleitorado), e que esteve sob o comando da legenda ao longo da última década.

Pezão lidera no RJ apesar de críticas a Cabral
Instagram/lfpezao
Pezão lidera no RJ apesar de críticas a Cabral

No Rio de Janeiro, terceiro maior colégio (8,5% das intenções de voto) as pesquisas indicam uma disputa de segundo turno entre o atual governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB), que tem 31% das intenções de voto, e o ex-governador Anthony Garotinho (PR), que comandou o Estado entre 1999 e 2002, e tem 21%.

Tentativa do PMDB de manter o comando do Palácio da Guanabara após dois mandatos de Sergio Cabral - que renunciou em abril deste ano para dar visibilidade ao atual candidato -, Pezão conseguiu a liderança da disputa apesar da impopularidade do ex-governador, alvo de protestos intensos desde junho de 2013 até a saída.

Garotinho: tentativa de voltar ao poder no RJ
Inácio Teixeira/Coperphoto
Garotinho: tentativa de voltar ao poder no RJ

Entre o início da campanha, quando tinha 14% das intenções de voto, e o início de outubro, Pezão conseguiu subir 16 pontos, deixando para trás Garotinho e Marcelo Crivella (PRB) - hoje 19%, que inicialmente despontaram como os candidatos mais bem posicionados.

O PT, que com Lindbergh Farias está com 9% das intenções de voto, segue fora das duas primeiras posições da disputa fluminense, o que ocorre desde 2002, quando Benedita da Silva foi derrotada por Rosinha Garotinho (PSB).


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