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Com períodos de ostracismo na campanha, tucano chega à reta final com chance de superar Marina para enfrentar Dilma

O presidenciável tucano Aécio Neves busca neste domingo (05) uma virada na última hora. Seria um feito inédito para um candidato à Presidência conseguir sair da terceira colocação depois de enfrentar semanas de quase ostracismo na campanha, empatar com Marina Silva (PSB) na última semana obter uma virada que o leve ao segundo turno. Aécio também luta para evitar ser o maior fiasco eleitoral do PSDB: desde a eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, o seu partido nunca deixou de ganhar a disputa ou, no mínimo, chegar ao segundo turno.

A candidatura do mineiro foi talhada pelo próprio FHC, que se engajou pessoalmente para evitar disputas internas. O ex-presidente foi o responsável por abrir as portas de São Paulo para Aécio. FHC ajudou a apaziguar o PSDB paulista, que ainda guarda alguma mágoa de Aécio por considerar que o senador mineiro pouco fez para ajudar nas campanhas presidenciais de correligionários, como Geraldo Alckmin, em 2006, e José Serra, em 2010. Nas duas oportunidades, Aécio disputou nos bastidores o direito de ser o candidato do PSDB a presidente e acabou derrotado internamente.

A queixa é que Aécio, na época governador de Minas Gerais, poderia ter feito muito mais por seus aliados no segundo maior colégio eleitoral do País. Foi acusado de fazer corpo mole. O próprio Serra, empolgado com a queda de popularidade da presidente Dilma Rousseff durante as manifestações de junho de 2013, nutria esperanças de disputar a Presidência da República pela terceira vez. Ele tensionou o PSDB quando da escolha definitiva de qual tucano representaria o partido na disputa nacional de 2014.

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Depois viver momentos de ostracismo durante a campanha, tucano Aécio Neves chega à reta final com chance ir para o segundo turno com a petista Dilma Rousseff
AP Photo/Felipe Dana
Depois viver momentos de ostracismo durante a campanha, tucano Aécio Neves chega à reta final com chance ir para o segundo turno com a petista Dilma Rousseff


Mas era chegada a vez de Aécio, e o senador mineiro amarrou bem sua costura interna. Deu a devida atenção para São Paulo e ganhou a confiança dos tucanos paulistas. Deu os passos certos nos momentos certos. O primeiro deles foi a eleição que escolheu o novo presidente nacional do PSDB. Aécio assumiu o cargo e convidou nomes do PSDB de São Paulo para compor o novo núcleo do partido. A posição foi decisiva na consolidação de seu nome como candidato a presidente

Convidou o paulista Mendes Thame para a Secretaria-Geral do PSDB. Alberto Goldman, que foi vice de Serra em 2006 e aliado próximo do ex-governador paulista, tornou-se vice-presidente do partido e aproximou-se de Aécio. Outro aliado histórico de Serra, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), foi o escolhido para vice pelo mineiro. Dessa forma, além de se aproximar do PSDB paulista, Aécio neutralizou o peso de Serra na disputa interna do PSDB.

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Não foram só as portas do PSDB paulista que FHC abriu para Aécio. O ex-presidente também foi o intermediário do senador mineiro junto ao empresariado de São Paulo. FHC fez reuniões, jantares e apresentações e usou seu prestígio para aproximar Aécio dos donos do PIB paulista, de olho nos gastos de campanha e de apoios no setor.

Renovação

Aos 54 anos, Aécio é uma das poucas opções de renovação dentro do PSDB. O partido, que perdeu disputas para novas lideranças lançadas pelo PT sob a bênção do ex-presidente Lula, casos de Dilma Rousseff e Fernando Haddad, começa a colher os amargos frutos da falta de renovação de seus quadros. Isso, aliado a três derrotas consecutivas para o PT no plano nacional, fez o partido diminuir sua representação no Congresso Nacional.

E foi sob esse argumento que FHC vendeu Aécio para o PSDB paulista. Não apenas era a chegada a vez do senador, mas também era preciso oferecer uma novidade para um eleitor que parecia cada vez mais refratário aos nomes mais tradicionais do partido. E os planos de FHC e PSDB caminhavam dentro de um scritp certeiro até que o impensável criou uma enorme dúvida sobre a viabilidade do tucano: a morte de Eduardo Campos. Com isso, Marina Silva entrou na disputa e tomou do tucano a segunda posição nas pesquisas de intenção de votos.

Os próprios correligionários chegaram a duvidar da capacidade de Aécio em reagir a esse novo cenário. Entretanto, o PSDB contou com a ajuda do PT na tarefa de buscar superar Marina. Isso porque a presidente Dilma bateu pesado na ex-ministra do Meio Ambiente depois que ficou claro, naquela altura, que o perigo para a reeleição dela era a socialista e não mais Aécio. A artilharia do PT ajudou a desconstruir a imagem de Marina e a desidratar a adversária, colocando Aécio de volta na disputa com alguma possibilidade de ir ao segundo turno. A própria campanha de Aécio pegou carona na estratégia do PT e também passou a atuar na desconstrução da candidata do PSB.

Nem tudo, entretanto, foi acerto na trajetória de Aécio neste ano. Sua defesa da candidatura de Pimenta da Veiga para a corrida eleitoral em Minas Gerais é comparado ao fiasco da escolha de Alexandre Padilha por Lula para a disputa do governo de São Paulo. Como resultado, tudo indica que o PSDB leve uma surra em Minas Gerais, perdendo ainda no primeiro turno o governo local depois de 12 anos de gestão consecutiva, 8 anos deles geridos pelo próprio Aécio. Derrota em casa que deve também ter consequências na votação de Aécio em seu Estado.

Outra grande dificuldade enfrentada por Aécio foi emplacar um discurso convincente de mudança. No plano econômico, precisou buscar um modo de se diferenciar da adversária Marina Silva (PSB), cujas diretrizes econômicas se assemelham e muito às políticas defendidas pelos tucanos. No plano social, o PSDB ainda tenta se livrar da imagem de pouco sensíveis à ênfase dada pelo PT a programas sociais. E mesmo no combate à corrupção, uma das principais marcas do ataque de Aécio aos governos Lula e Dilma, o PSDB enfrenta dificuldades, dado o caso do chamado “mensalão mineiro” que envolveu o ex-governador Eduardo Azeredo, tucano e aliado de Aécio.

Trajetória

Aécio deu os primeiros passos de sua carreira política com a ajuda do avô Tancredo Neves. Aos 21 anos, o senador mineiro se juntou a Tancredo na campanha ao governo mineiro de 1982. Vencedor, Tancredo assumiu o governo de Minas em 15 de março de 1983. Ficaria pouco mais de um ano no cargo, renunciando justamente para concorrer à Presidência em janeiro de 1985, na primeira disputa depois do longo período ditatorial enfrentado pelo Brasil a partir de 1964. Nesse período, Aécio foi para dentro do gabinete do avô e passou a ser seu braço direito.

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Nascido em 10 de março de 1960, em Belo Horizonte, Aécio era nessa época um jovem promissor, recém-formado em Economia pela PUC-MG, que tinha como professor e mentor um político tradicional que ocupava posição chave no movimento que buscava restabelecer a democracia no Brasil. Filho de Aécio Ferreira da Cunha e Inês Maria Tolentino Neves, não demorou muito para que ele debutasse na vida eleitoral. Foi eleito deputado federal um ano depois da morte do avô, em 1986.

Em Belo Horizonte, Aécio corre atrás de votos em seu reduto eleitoral, o Estado de Minas
Divulgação
Em Belo Horizonte, Aécio corre atrás de votos em seu reduto eleitoral, o Estado de Minas

Seria reeleito outras três vezes, totalizando 15 anos como deputado federal. O auge de sua carreira na Câmara dos Deputados veio no final do segundo mandato do ex-presidente FHC. Embora já fosse líder do partido do presidente na Casa em de 1997 a 2001, foi nesse ano que Aécio chegou à presidência da Câmara. Ele não chegaria a cumprir os dois anos no cargo, já que renunciou ao mandato de deputado em 17 de dezembro de 2002. Naquele ano, Aécio fora eleito governador de Minas Gerais pela primeira vez e decidiu dedicar-se totalmente ao processo de transição.

Da mesma forma que ganhava relevância no cenário político nacional, Aécio foi se consolidando internamente no PSDB, partido criado por dissidentes do PMDB em 1988. Foi secretário nacional do partido para a Região Centro-Oeste, vice-líder do PSDB na Câmara, em 1991-1992 e chegou a presidência do PSDB mineiro, cargo que ocupou de 1996 a 1998. Assim, quando foi reeleito governador em Minas Gerais em 2006, Aécio já tinha uma sólida posição dentro do PSDB e começava a ser apontado como opção para a disputa presidencial. Foi nessa época que Aécio passou a disputar nos bastidores do partido com Geraldo Alckmin e José Serra o direito de representar o PSDB nas disputas nacionais.

Aécio é casado atualmente com Letícia Weber, com quem teve dois filhos, Julia e Bernardo, nascidos em junho deste ano. Aécio já tinha uma filha, Gabriela, nascida em 1991, fruto de seu primeiro casamento com a advogada Andréa Falcão.

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