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Ex-presidente relembrou caso de Collor, o "caçador de marajás", ao encerrar seminário sobre os 50 anos da ditadura

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o país está vacinado contra a influência do militarismo no poder, mas alertou para outro risco: o surgimento de um “justiceiro” no vácuo das ações de segurança pública diante da possível convocação das Forças Armadas para atuar nos conflitos envolvendo traficantes e policiais das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), no Rio. 

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“A violência é uma questão nacional, de Estado. As forças federais até deveriam atuar no Rio, mas não são treinadas para isso. De repente surge a figura de um justiceiro. Veja o caso do Collor (Fernando)”, disse o ex-presidente, ao se referir a ascensão do então governador de Alagoas como “caçador de marajás”, em 1989, no vácuo de autoridade no combate a corrupção durante o governo José Sarney. FHC deu a declaração ao encerrar o seminário do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) sobre os 50 anos do golpe, na noite desta terça-feira (25), em São Paulo.

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O ex-presidente acha que os frequentes incêndios de ônibus em São Paulo são atos típicos de quem está criando um “mal estar” para demonstrar a ineficiência das instituições. Ele acha que as manifestações e a rápida mobilização pelas redes sociais sinalizam para mudanças no sistema eleitoral que “não estão no horizonte” político e vê as instituições num dilema. “Existem demandas novas. É preciso ter mais capacidade para ouvir”, disse.

Sem citar a presidente Dilma Rousseff, Fernando Henrique afirmou que há uma “burocracia paralisante” nas instituições”, avalia que o regime de governabilidade é “de cooptação e não de coalizão” e que, em vez de programa, “é a barganha que funciona o tempo todo”. Ainda assim, segundo ele, a governabilidade não está funcionando porque “a base aliada começa a reclamar”.

“A democracia está se consolidando de forma complicada, com mais de 20 partidos e 39 ministérios”, alfinetou.

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Fernando Henrique sustenta que a ideologia militar inaugurada na proclamação da República e que deu no golpe de 1964 e os 21 anos de ditadura encerrada em 1985 está superada. As Forças Armadas, segundo ele, têm hoje um novo papel, que é a garantia da Constituição e a soberania do país controlando regiões como a Amazônia. Citando frase do brigadeiro Eduardo Gomes lembrou, no entanto, que “o preço da democracia é a eterna vigilância”.

Testemunha ocular dos acontecimentos de 1964, o ex-presidente disse que a queda do governo foi antecedida por um clima tão amplo de contradições que ele e seus amigos acharam que quem havia dado o golpe era o presidente deposto João Goulart. “Amigos e inimigos do Jango estavam no mesmo jogo. Nem os militares tinham certeza quem iam ganhar”, disse.

Para Fernando Henrique, além da fragilidade da democracia e da falta de consistência das propostas das reformas de base, influíram na queda de Jango a interferência militar - “inseridos na vida política do País desde a Guerra do Paraguai” - e o jogo internacional no clima da Guerra Fria. O ex-presidente afirma que os Estados Unidos só não intervieram para dar suporte militar ao golpe porque as Forças Armadas já haviam ganho o jogo.

O encerramento do evento do Cebrap, “Seminário 1964: 50 anos depois”, que discutiu a deposição do governo João Goulart e os efeitos do regime militar na vida do país, teve um clima de nostalgia. Os três últimos palestrantes, Fernando Henrique Cardoso, José Artur Giannotti e Elza Berquó, professores aposentados compulsoriamente da Universidade de São Paulo (USP) pela ditadura, são fundadores do Cebrap e lá se refugiaram para driblar a perseguição política e fazer a resistência intelectual ao regime militar.

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