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Vicente Falconi

O consultor de gestão conseguiu o improvável: ter a admiração de empresários e políticos

Vicente Falconi
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Passaram pelas mãos do principal guru brasileiro na área de gestão empresas como Gerdau e Ambev. Para Falconi, o importante é o resultado apontado na última linha do balanço

Na primeira semana de novembro, durante três dias seguidos cerca de 20 mil romeiros deverão peregrinar até o centro de convenções do hotel Transamérica, em São Paulo, em busca de uma palavra, uma luz, uma revelação. Nas mãos, em vez de crucifixos, velas e ex-votos, carregarão folders, fones de ouvido e livros. Todos aplaudirão quando o senhor de cabelos brancos – ao menos os sobreviventes a uma avançada calvície – começar a recitar as 13, sim, supersticiosos, as 13 medidas que caracterizam a agenda de um líder. Há muito que eventos como este povoam a atribulada agenda de um dos palestrantes mais requisitados do País; o engenheiro, professor universitário, consultor e best-seller nas prateleiras de autoajuda corporativa Vicente Falconi . Fama é fama e Falconi fez à sua junto a empresários, executivos e governantes como um dos maiores especialistas em gestão do Brasil, notadamente na esfera pública.

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Fevereiro de 2019. Nas palavras do próprio, esta data marcará o epílogo da carreira de Vicente Falconi. Ou, ao menos, a sua saída em definitivo do capital e do Conselho de Administração da Falconi Consultores de Resultados. 

Consultores de resultados? Mais do que um nome, sua empresa recebeu na pia batismal um mote publicitário, sugestivo, persuasivo, sedutor. Falconi sempre mirou suas teses e ações na direção da última linha do balanço. Antes que alguém diga, com ar de fastio, ser esta exatamente a missão precípua de todo consultor de empresas, registre-se que Falconi levou esta busca ao paroxismo. Criou métodos, passos, modelos, cálculos de aferição de metas e resultados financeiros para qualificar e balizar seu trabalho. Como costuma dizer, se o consultor promete um aumento de receita de 15% e entrega 18%, ganha credibilidade. E certamente um fee adicional.  

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A lista de clientes corporativos de Vicente Falconi é uma espécie de country club do empresariado nacional. Pense no nome de um grande grupo... Pois bem, muito provavelmente Falconi já terá passado por ali para promover o “desenvolvimento do pensamento sistêmico e do foco nos resultados”, “redução de redundâncias, esperas e retrabalhos dos processos estruturados” ou a “diminuição sustentável dos gastos, com efetivo envolvimento das áreas e desafios compatíveis com as oportunidades mapeadas”. Das 100 maiores empresas brasileiras, ele já prestou algum tipo de consultoria a 80 delas. Falconi calcula ter conduzido mais de 1,5 milhão de sessões de orientação técnica a clientes. Numa conta de mercearia – onde a matemática costuma ser uma ciência mais exata do que em muitas grandes corporações, diria ele –, significa dizer que, em pouco mais de três décadas como consultor, foram mais de 50 mil sessões por ano, ou 136 por dia. Quantos Falconi circulam por aí? 

Xamã da gestão empresarial 

A trajetória de Vicente Falconi como xamã da gestão empresarial começou na década de 1980, mais precisamente na Fundação Christiano Ottoni, ligada à Universidade Federal de Minas Gerais. Na época, ao beber na fonte de corporações japonesas, notadamente a Toyota, Falconi trouxe para o Brasil o conceito da Qualidade Total. Tal qual a Gillette para as lâminas de barbear ou o Band-aiid para curativos adesivos, a expressão virou sinônimo de eficiência na gestão, espalhando-se rapidamente pelos mais diversos escalões da administração empresarial. Organizações de variados setores e tamanhos recorreram aos preceitos da Qualidade Total para navalhar custos e sarar suas lesões financeiras.

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O tema deu origem também ao primeiro dos blockbusters editoriais de Vicente Falconi. Ao folhear as páginas de “Qualidade Total – Padronização das Empresas”, lançado no início dos anos 1990, o leitor de hoje pode ter a impressão de estar passeando por uma galeria de pinturas rupestres, tal a profusão de quadros, setas e tracejados com razoável dose de primarismo pictórico, um pouco pelos limitados recursos gráficos da época, um pouco pela própria iconografia característica do assunto. Na literatura da gestão empresarial, um fluxograma vale por mil palavras. Mas a aparência é apenas um detalhe perto do sucesso alcançado pelo conceito e pela obra, que vendeu como água, a irrigar o início de uma exitosa trajetória editorial. Em mais de duas décadas nas melhores estantes do ramo, Falconi acumula seis livros e aproximadamente um milhão de exemplares vendidos.  

Vicente Falconi tem notórios serviços prestados à iniciativa privada. Entre os grandes grupos que figuram em seu cartel de clientes triple A estão Gerdau e Ambev, empresas com as quais sempre manteve estreito relacionamento. Falconi, inclusive, integra o seleto escrete de conselheiros de Ambev. A recíproca, aliás, é verdadeira. Marcel Telles, um dos acionistas da empresa, tem cadeira cativa no Conselho de Administração da Falconi Consultores. No entanto, na última década, sem prejuízo de sua imagem de guru da gestão empresarial, Falconi tornou-se o darling de políticos e autoridades pelo seu trabalho na área pública. O consultor notabilizou-se por construir uma ponte entre estas duas esferas, levando para estados e municípios premissas e conceitos adotados com êxito na administração privada. 

Proximidade com o poder  

Na sala de troféus de Vicente Falconi ocupa lugar de destaque a consultoria realizada para o governo de Minas Gerais na gestão de Aécio Neves. Tudo começou em 2003, mesmo ano, por sinal, em que fundou o Instituto de Desenvolvimento Gerencial (INDG), sucessor da Fundação de Desenvolvimento Gerencial – só mais tarde, ele deixaria de recorrer a eufemismos e, enfim, perderia o inexplicável pudor de chamar sua empresa pelo que realmente ela é, uma consultoria. Na ocasião, em português mais do que claro, Falconi foi chamado para tirar Minas Gerais do atoleiro financeiro. O Estado amargava um déficit de 12% do orçamento e quase uma década no vermelho. Apenas em um exercício hipotético, se, àquela altura, zerasse todos os seus investimentos, ainda assim o governo mineiro aumentaria sua dívida em R$ 200 milhões a cada mês. 

Vicente Falconi e sua equipe promoveram um bota-abaixo na máquina pública. Com base na recomendação de Falconi, o governo mineiro usou armas e munição da gestão pública. Instituiu um plano de metas e adotou critérios de meritocracia para o preenchimento dos postos de comando em estatais e autarquias – logicamente até onde os compromissos e o bom senso político permitiram.  

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Na ocasião, foram extintas seis secretarias e mais de 3 mil funções e cargos públicos. O Estado fixou ainda um teto salarial para o Poder Executivo. Com estas medidas, o peso da folha salarial caiu de 74% para 59% da arrecadação pública. Em 2006, três anos após o início da consultoria de Vicente Falconi, o governo mineiro tinha limpinhos na mão cerca de R$ 3 bilhões para investimentos.  

Grife junto aos políticos 

Vicente Falconi consolidou-se como uma grife à qual políticos das mais diversas raças e credos querem associar sua gestão. Pelo seu valor simbólico, o simples anúncio de sua contratação tornou-se um fato político positivo para prefeitos e governadores. Falconi vale quanto pesa. Chamado por Sergio Cabral, implantou uma série de medidas que permitiram ao governo fluminense economizar cerca de R$ 1,5 bilhão em gastos. Entre tantos outros cantos do Brasil, já prestou consultoria aos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Alagoas e Espírito Santo, quase sempre com resultados contundentes. A pedido do presidente Lula, elaborou um minucioso diagnóstico sobre os problemas do INSS. 

Ao que consta, nenhuma de suas sugestões foi acolhida. A julgar pelo déficit de R$ 42 bilhões da Previdência em 2012, melhor mesmo para o seu currículo que não tenham sido. Vez por outra, a interseção com o setor público rende alguns dissabores a Vicente Falconi. No início deste ano, por recomendação do velho amigo e cliente Jorge Gerdau, um dos mais próximos colaboradores da presidente Dilma Rousseff, o Ministério do Planejamento, os Correios e a Infraero convocaram Falconi para azeitar suas finanças e sua estrutura administrativa. Os três contratos, no valor total de R$ 59 milhões, foram fechados sem licitação. O “notório saber” do consultor falou mais alto. Em Brasília, diz-se que o episódio sepultou o sonho de Gerdau de assumir o Ministério da Fazenda no lugar de Guido Mantega. O fato é que os críticos do governo não perderam a oportunidade. Com ironia, apontaram que, logo na partida, a contratação desmentiu seu maior objetivo: reduzir o gasto público. Falconi, certamente, cobrará a troça com juros, correção monetária e TR mais 6% quando os primeiros resultados de seu trabalho vierem à tona. Um novo best-seller estará a caminho?
Dados Pessoais
  • 73 anos
  • consultor de gestão
  • Graduado em Engenharia pela UFMG e PhD em Engenharia pela Colorado School of Mines (EUA)
  • Nasceu em Niterói (RJ)
  • Casado