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Sérgio Cabral

De candidato ao governo abraçado pelo povo a alvo de manifestações sucessivas no Rio: Cabral tenta reverter o jogo

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Jornalista, reeleito em primeiro turno com mais de 66% dos votos em 2010, amigo do empresário Fernando Cavendish. Conheça mais sobre o polêmico governador do Rio

Na tentativa de apagar a fogueira em torno de seu nome, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, começou a desfazer tudo que fez ou que prometera fazer após meses de polêmicas e protestos sem fim: desistiu de vender o quartel-general da Polícia Militar, na Rua Evaristo da Veiga, no Centro do Rio; desistiu de demolir a Escola Friendenreich, o Parque Aquático Júlio Delamare e o Estádio de Atletismo Célio de Barros, que cairiam com as obras da Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016; e o próprio contrato de concessão privada do Maracanã, já assinado, corre o risco de ser cancelado. Há quem diga, em tom de blague, que nesse ritmo o governador pode até mandar construir o estádio como era antes, refundando o velho Maraca. Seus correligionários políticos, no entanto, dizem que ele foi tocado pela visita do papa Francisco, em julho.

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Além disso, Cabral devolveu aos cofres públicos R$ 1.525,40, valor referente a duas diárias de uma viagem que fez à França em 2008. Sobrou até para o funk: uma resolução que, na teoria, limitava os eventos culturais em comunidades pacificadas do Rio e, na prática, proibia festas com bailes funks, foi derrubada. Por essas e outras, o governador está sendo chamado de Benjamin Button, personagem de F. Scott Fitzgerald, encarnado no cinema por Brad Pitt, que nasceu velho e morreu novo, como se desfizesse a vida que viveu.  

A tentativa de Sérgio Cabral é clara: limpar sua barra. Os atos contra ele, contudo, continuam – em vários pontos da cidade e em várias cidades do Estado, mas em especial em frente à casa do governador, no Leblon, e nos arredores da sede do governo, em Laranjeiras – algumas seguidas de atos de depredação de bens públicos e privados. Assim como também continuam os relatos de violência da PM do Rio, cujo comandante, o coronel Erir Ribeiro, foi exonerado, depois de revogar punições de "menor potencial ofensivo" aos policiais militares. Em seu lugar, assumiu o coronel José Luís Castro Menezes, prometendo mais diálogo. Na contramão dessa afirmativa, está testando o uso de canhões de som para coibir as manifestações. 

Um das maiores pedras – e põe pedra nisso – no sapato do governador Sérgio Cabral envolve a PM: o sumiço do pedreiro Amarildo de Souza, no dia 14 de julho. Ele desapareceu logo depois de prestar depoimento na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Após vários protestos de moradores, que chegaram a fechar a Autoestrada Lagoa-Barra, e o início das investigações pela Polícia Civil, a PM afastou quatro policiais do trabalho nas ruas. 

Sérgio Cabral se reuniu com a mulher de Amarildo, Elisabeth Gomes Silva, no Palácio Laranjeiras, prometendo empenho máximo para resolver a situação. Segundo Elisabeth, o governador a recebeu com educação, mas nenhuma solução concreta foi dada no sentido de encontrar o marido e oferecer maior segurança para a família, que continua morando na Rocinha. A mulher de Amarildo não tem dúvida: o marido foi morto por policiais da UPP e a qualquer momento ela e os seus seis filhos podem ter o mesmo destino. É uma acusação grave – e quanto mais demorar a solução do caso, mais grave ela vai se tornar – que recai nas costas de um político que pretendeu acabar com a violência no Rio e, dessa forma, armar um trampolim para chegar à Presidência da República.  

Um das maiores pedras no sapato do governador Sérgio Cabral envolve a PM: o sumiço do pedreiro Amarildo
 

Sérgio Cabral Filho nasceu no dia 27 de janeiro de 1963, no Engenho Novo, bairro do Zona Norte do Rio, primogênito da professora e museóloga Magaly Cabral e do jornalista Sérgio Cabral – este, bastante conhecido pelos seus livros sobre música popular, por ter trabalhado no "Pasquim" e na televisão, e por ter sido eleito vereador por três vezes, com a vitoriosa atuação do filho passou a ser referido com "o Pai". 

O filho começou na política integrando a equipe do pai, como articulador de campanha. No governo Moreira Franco (1987-1991), foi nomeado diretor da TurisRio. Em 1990 foi eleito deputado estadual pelo PMDB, com a força do voto dos idosos – ele organizava os famosos bailes da terceira idade em clubes cariocas. Recusando mordomias na Assembleia, indo para o trabalho no próprio carro, foi reeleito em 1994 e 1998; nesse meio tempo, em 1996, tentou uma candidatura a prefeito do Rio, pelo PSDB, perdendo a eleição no segundo turno para Luiz Paulo Conde, do então PFL. Teve um longo reinado como presidente da Alerj, de 1995 a 2007. 

Em 1999, Cabral voltou para o PMDB, aproximando-se do então governador Anthony Garotinho, que se elegera numa ampla coalizão de partidos de esquerda (PDT, PT, PSB e PC do B). Garotinho o ajudou a se tornar senador em 2002, e depois esteve a seu lado na campanha para governador em 2006. Em outubro de 2010, foi reeleito para o governo do Rio de Janeiro, ainda no primeiro turno, com mais de 66% dos votos válidos, recebendo o apoio do PT, principalmente do presidente Lula, que subiu nos palanques, e de outros 14 partidos. Serginho, com os amigos o chamam, vivia o seu paraíso astral.  

Que, aos poucos, foi se transformando em inferno. Inflado com o sucesso das UPPs junto à opinião pública e à mídia, em 2006 Sérgio Cabral afirmou que as altas taxas de natalidade em comunidades pobres, como a Rocinha, são verdadeiras fábricas de marginais: "Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pela na Rocinha, é padrão Zâmbia, Gabão." 

Pesquisas apontam que mais de 60% da população do Rio considera o governo de Cabral ruim ou péssimo
 

A queda de um helicóptero, em 2001, revelou a amizade entre o governador e o empresário Fernando Cavendish, da Delta Construções, acusado de tráfico de influência no governo federal para vencer licitações e citado nos processos contra o bicheiro Carlinhos Cachoeira. O acidente ocorreu quando Sérgio Cabral e seu filho, Marco Antônio, aguardavam o helicóptero que os levaria do Aeroporto de Porto Seguro para um hotel de luxo na Praia de Trancoso, sul da Bahia, onde Cavendish comemorava seu aniversário. Somente naquele ano, a Delta Construções faturou mais de R$ 1,4 bilhão dos cofres do Rio. 

Ex-aliado político, Anthony Garotinho aumentou a crise ao publicar em seu blog fotos do governador e seus secretários em luxuosos jantares em Paris, com a presença de Cavendish à mesa. Eles também apareciam dançando no meio da rua com guardanapos na cabeça, e as respectivas mulheres exibindo a sola de sapatos de grife, numa cena carnavalesca de puro mau gosto "nouveau riche". Em julho, a revista "Veja" revelou outro "voo da alegria": o governo gastava mensalmente R$ 312 mil para manter helicópteros que levavam a família de Sérgio Cabral, inclusive o cachorro de estimação Juquinha, para passear nos fins de semana. 

"Riqueza" 

Mais suspeitas: a advogada Adriana Ancelmo, mulher de Cabral, é sócia-proprietária de um banca que experimentou nos últimos seis anos um crescimento espetacular. A receita do escritório era de R$ 2,1 milhões em 2006 e saltou para R$ 9,5 milhões no ano passado. Deste total, 60% vêm de honorários por serviços prestados a empresas que, direta ou indiretamente, dependem do dinheiro público estadual. A primeira-dama, a quem Sérgio chama carinhosamente de "Riqueza", ganha hoje dez vezes mais que o marido. 

Pesquisas apontam que mais de 60% da população do Rio de Janeiro considera o governo de Sérgio Cabral ruim ou péssimo. Queda livre de um índice que já chegou a mais de 50% de aprovação entre a população fluminense – eram números robustos adquiridos ao trabalho na área de segurança pública e ao que muitos chamaram de resgate da autoestima do Rio. (Cabral estava ao lado do prefeito Eduardo Paes e do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na tarefa de devolver à população a vontade de acreditar no Rio.)  

Os ventos mudaram desfavoravelmente para Cabral. Diante desse quadro e dos protestos que não param, ele pensa em deixar o governo entre janeiro e abril, em favor de seu vice, Luiz Fernando Pezão, candidato à sucessão. Falar, como já fizera em outros tempos, em ser o vice na chapa de Dilma à reeleição, ficou complicado.
Dados Pessoais
  • 50 anos
  • Político, governador do Estado do Rio de Janeiro
  • Jornalista formado pela Faculdade da Cidade (atual UniverCidade)
  • Nasceu no Rio de Janeiro (RJ)
  • Casado, pai de cinco filhos