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Joseph Safra

Ardiloso e inteligente financista, construiu um império como um dos mais importantes banqueiros do Brasil

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Com história envolta por supostos mitos, Joseph Safra vive discretamente administrando seus bilhões e protegido por agentes que seriam treinados pelo serviço secreto israelense

Joseph Safra é o mais lendário dos banqueiros nacionais. Quanto mais se diz, menos se sabe quem, de fato, é o homem por trás do mito. O Safra que povoa o imaginário coletivo é descendente de uma longeva linhagem de financistas, dispõe de uma estrutura de segurança que mais se assemelha a uma central de inteligência, com agentes treinados pelo Mossad, serviço secreto israelense, e reside em uma mansão com mais de cem cômodos, construída sobre um emaranhado de túneis. A relação com os irmãos Moise e Edmond Safra, falecido em 1999, sempre foi alvo de especulações, na maioria das vezes na fronteira entre a maledicência e o escabroso.

Até mesmo a origem de boa parte da fortuna dos Safra costuma despertar insidiosos questionamentos. Neste ziguezague entre a realidade e a fábula, o fato é que Joseph Safra consolidou um império financeiro, amealhou um patrimônio estimado em US$ 16 bilhões e personificou uma estirpe de tradicionais banqueiros da qual talvez seja o último dos representantes. O próprio Joseph Safra ajudou a construir as lendas - ou não - que o cercam, em razão do comportamento recluso.

Talvez o principal ativo do Banco Safra seja a imagem de solidez que o acompanha há décadas, a ponto de receber do mercado o epíteto "O banco dos banqueiros"


Seu habitat são as brumas. Safra nunca teve simpatia por aparições públicas. Da imprensa, fez mais do que guardar distância; montou um sistema de blindagem praticamente intransponível que vale tanto para si quanto para os familiares e o próprio Banco Safra. A comunicação da instituição é feita quase exclusivamente por meio de instrumentos oficiais e em ocasiões pontuais e formais, como os períodos de divulgação de resultados. Os executivos do banco quase nunca aparecem na mídia. Refletem, assim, a postura de "Seu" José, como Joseph Safra gosta de ser chamado por seus funcionários.

Montou um sistema de blindagem praticamente intransponível que vale tanto para si quanto para os familiares e o próprio banco Safra


Ao longo da vida, o banqueiro concedeu raríssimas entrevistas, invariavelmente caracterizadas por declarações curtas e formais. Certa vez, atribuiu esta atitude ao receio de não ser bem interpretado: "Às vezes, tenho alguma dificuldade de me expressar em português". Safra chegou ao Brasil em 1962. Quando desembarcou no país, o libanês Joseph Safra tinha 24 anos. O clã dos Safra, formado por judeus originários da Síria, tem longa tradição em atividades financeiras. As primeiras gerações trocavam dinheiro e concediam crédito para comerciantes do Oriente Médio. O pai de Joseph, Jacob Safra, era conhecido pela grande habilidade em calcular de cabeça o câmbio das diversas moedas usadas nas rotas mercantis do Mediterrâneo. Por volta de 1915, Jacob foi enviado a Beirute pelo tio Ezra com a missão de abrir uma filial da casa bancária Safra Frères & Cie. A família deixou o Líbano após a Segunda Guerra Mundial. Os filhos de Jacob vieram para o Brasil em momentos distintos. Joseph, por exemplo, viveu um período na Inglaterra, onde completou seus estudos. Passou ainda pelos Estados Unidos – trabalhou no Bank of America – e pela Argentina. Quando chegou ao país, seu pai e o irmão mais velho, Edmond, já haviam criado uma financeira, que daria origem ao Banco Safra, fundado em 1967.

Separação

Os irmãos tomariam rumos distintos. Ao lado de Moise, Joseph assumiria o comando do Safra. Edmond, por sua vez, mesmo antes da criação do Banco Safra já havia sido tomado pelo espírito nômade dos antepassados. Em 1956, apenas um ano após fundar a financeira no Brasil ao lado do pai, desembarcou em Genebra. Dez anos depois abriria o Republic National Bank of New York, que chegou a figurar entre os 15 maiores bancos dos Estados Unidos. Em 1999, pouco depois de vender o Republic ao HSBC, Edmond morreu vítima de um incêndio na cobertura onde morava, em Mônaco. Seu enfermeiro particular foi condenado, após confessar ter ateado fogo no apartamento. Mas, até hoje, o episódio é alvo de rumores e terríveis ilações. 

Talvez o principal ativo do Banco Safra seja a imagem de solidez que o acompanha há décadas, a ponto de receber do mercado o epíteto "O banco dos banqueiros". Esta reputação se deve, notadamente, a uma política de crédito historicamente conservadora. "Os Safra seguem à risca a máxima de que dinheiro só se empresta a quem não precisa", provoca um banqueiro concorrente.

Quando os Safra desembarcaram no Brasil, o sistema financeiro nacional ainda era rudimentar, tanto do ponto de vista das práticas quanto das normas. Valendo-se de sua vasta experiência, Jacob e seus filhos passaram a usar técnicas e modalidades de operação desconhecidas dos banqueiros brasileiros. Talvez daí venham a desconfiança e as aleivosias da concorrência em relação às práticas adotadas pelos Safra. Mitos à parte, Joseph sempre demonstrou enorme capacidade de enxergar além. Um dos exemplos mais marcantes remonta ao ano de 1988. Ao perceber que o mês de maio teria dois feriados e cinco finais de semana e os rendimentos da poupança seriam superiores ao das demais aplicações, o banqueiro depositou uma pequena fortuna em cadernetas da Caixa Econômica Federal. Obteve um lucro espetacular. A partir de então, os bancos passaram a restringir o depósito de grandes somas em uma única conta. 

Ajustes

O sangue de financista que corre em suas veias e a forte intuição para os negócios não resguardaram Joseph Safra de ter feito algumas correções de rota nas últimas décadas. Em 1998, o banqueiro ingressou no setor de telecomunicações. Em parceria com a americana Bell South, Grupo O Estado de S. Paulo e o Grupo Splice, investiu US$ 1 bilhão na compra da concessão da chamada Banda B da telefonia celular em São Paulo. Quatro anos depois deixou o negócio, que, àquela altura, já somava perdas superiores a R$ 1,5 bilhão e um passivo próximo de US$ 1,7 bilhão. Segundo o banco, a BCP fazia parte de uma estratégia de participação em um segmento específico, telecomunicações, que incluía ainda a Celcom, de Israel. Safra se desfez das duas empresas ao mesmo tempo e o lucro obtido na venda da Celcom foi suficiente para cobrir a perda na BCP. Safra também desistiu de ser acionista da Aracruz. Em 1988, quando tornou-se sócio da empresa, aportou US$ 35,5 milhões. Em 2009, quando passou sua fatia ao Grupo Votorantim, embolsou US$ 570 milhões.

Não há nenhuma evidência de que tais episódios tenham deixado cicatrizes na imagem dos Safra junto a seus fiéis seguidores. Reza a lenda que os clientes do Safra não pertencem ao banco, e sim à família – investidores leais, que seriam capazes de seguir o clã para qualquer lado. Lenda? No auge do conturbado relacionamento com o irmão Moise, que por anos se recusou a vender sua participação na sociedade, Joseph lançou mão de um ardiloso expediente. Em 2004, criou o J. Safra e entregou a gestão aos filhos. A instituição passou a concorrer diretamente com o próprio Safra, cooptando tradicionais clientes do banco. Longe de repetir o mito de Erisictão, o rei da Tessália, que, após derrubar um bosque sagrado foi punido pelos deuses com uma fome incontrolável e acabou devorando a si próprio, Joseph sabia muito bem até onde ia seu apetite. O banqueiro passou a perder em uma mão, o Safra, para ganhar na outra, o J. Safra.

No auge do conturbado relacionamento com o irmão Moise, que por anos se recusou a vender sua participação na sociedade, Joseph lançou mão de um ardiloso expediente. Em 2004, criou o J. Safra e entregou a gestão aos filhos


O calculado exercício de antropofagia bancária surtiu efeito. Diante do risco de uma irrefreável diáspora de clientes e de ficar apenas com uma casca vazia, Moise se viu cada vez mais acuado. Até que em 2006, vendeu sua participação no Safra para Joseph. Hoje, esta vitoriosa manobra soa como um alerta para Joseph Safra e, sobretudo, seus herdeiros. Até que ponto o Banco Safra conseguirá manter sua aura e, principalmente, seus clientes no futuro?

Herdeiros

No fim de 2012, após um gradual processo de sucessão, "Seu" José deixou a gestão da instituição, entregue aos filhos Jacob, que trabalha no exterior, Alberto e David. Na ocasião, o Safra fez questão de informar que o banqueiro continuaria envolvido com seus negócios, dedicando-se, principalmente, à administração do banco suíço Sarasin, comprado em novembro de 2011. Para o banqueiro, a dedicação ao Sarasin, focado em clientes private bank, pode abrir as portas para a globalização das atividades financeiras, além de significar um passo importante na consolidação de suas operações no exterior na “holding” Bank J. Safra Sarasin Ltd, com sede na Suíça. O J.Safra Group administra uma carteira de US$ 200 bilhões e tem representantes no Brasil, EUA, Eroupa, Oriente Médio e Ásia.

De qualquer forma, Jacob, Alberto e David estão diante do desafio de provar que o Banco Safra é imune ao tempo. E que, ao menos no caso da instituição, o sobrenome Safra é maior do que o prenome Joseph.
Dados Pessoais
  • 74 anos
  • Banqueiro e empresário
  • Nasceu em Beirute, no Líbano
  • Casado, pai de quatro filhos