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Graça Foster

A executiva detém a couraça de quem parece ter sido, desde sempre, curtida para o cargo

Graça Foster
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Graça é Petrobras de carteirinha, uma cidadã nascida e criada na estatal – onde a recém-formada engenheira química, então com 24 anos, entrou em 1977

Num instante, ambas conversam em um tom extremante afável, pode se dizer até carinhoso; poucos minutos depois, ao menor sinal de divergência, a temperatura sobe, os ânimos se exacerbam e o diálogo passa a ser povoado por termos mais do que coloquiais, não raramente quase chulos. Mais alguns momentos e os respectivos nomes pronunciados no diminutivo confirmam que ali estão duas velhas companheiras, com todas as sístoles e diástoles que uma relação de amizade suporta. Quem já privou de uma reunião entre “Dilminha” e “Gracinha”, ou “Graciosa”, conhece bem o script. É assim desde 1999, quando ambas se conheceram – Dilma Rousseff ocupava a Secretaria de Energia do Rio Grande do Sul e Maria das Graças Foster era uma das gerentes da Petrobras responsáveis pela implantação do gasoduto entre a Bolívia e Brasil. Desde então, Graça, como ela própria gosta de ser chamada, foi levada de arrasto pela ascensão política de Dilma, tornando-se um dos personagens mais poderosos da República. Mais do que presidente da Petrobras, Graça é hoje uma espécie de “Ministra do Petróleo”. 

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São tempos difíceis na sede da Petrobras, na Avenida Chile – onde, ao menos, há o alento de se ter como vizinha a Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. A empresa carrega sobre os ombros o peso de uma crise econômica internacional e, principalmente, o fardo da defasagem dos preços dos combustíveis. Não obstante o lucro de R$ 21,8 bilhões, a empresa registrou em 2012 o seu resultado mais baixo em nove anos. No segundo semestre do mesmo ano, amargou o primeiro prejuízo em mais de uma década. As dores que tomam todo o corpo são ainda mais lancinantes na área de abastecimento, que, nos últimos dois anos, acumulou perdas superiores a R$ 30 bilhões, reflexo direto da manutenção dos valores dos combustíveis. Em meio a este cenário, a empresa se contorce para cumprir o plano de investimentos, que prevê o desembolso de US$ 236 bilhões entre 2013 e 2017.  

Dirigir a Petrobras sempre foi e será missão para espécies dotadas de uma dura carapaça. Dirigir esta Petrobras exige doses extras de queratina. É o que não falta a Graça Foster. A executiva detém a couraça de quem parece ter sido, desde sempre, curtida para o cargo. Para começar, carrega um ativo que faz toda a diferença em uma empresa que é mais do que uma empresa; é uma república dentro da República, com bandeira, hino, nacionalidade e culturas próprias. Graça é Petrobras de carteirinha, uma cidadã nascida e criada na estatal – onde a recém-formada engenheira química, então com 24 anos, entrou em 1977. Passou pelas mais diversas áreas da empresa, trabalhou em praticamente tudo e com quase todos, dobrou cada curva da mais labiríntica corporação nacional. Em setembro de 2007, tornou-se a primeira mulher a assumir uma diretoria da estatal – a de Gás e Energia. Em janeiro de 2012, repetiria o feito, desta vez no topo da companhia. Antes, já havia comandando a Petrobras Distribuidora e a Petroquisa. Teve ainda uma destacada passagem por Brasília. Entre janeiro de 2003 e setembro de 2005, comandou a Secretaria de Petróleo e Gás, do Ministério de Minas e Energia, em mais uma dobradinha com Dilma Rousseff, então titular da Pasta.  

“A Petrobras e a minha vida” 

À frente do que talvez seja a empresa brasileira que melhor encarna o esprit de corps, no sentido mais amplo da expressão, Graça Foster costuma inflamar o orgulho do seu povo com um discurso de rasgado amor pela companhia. “Para mim, existe a Petrobras e a minha vida; e não a minha vida e a Petrobras”; “Minha vida particular é que se adapta à Petrobras; nunca o contrário”; “Seria capaz de morrer pela Petrobras”. Frases superlativas como estas ajudam a levantar o moral da tropa, leia-se os mais de 85 mil funcionários da estatal. Até porque é como se todos ouvissem os seguintes dizeres na voz da chefe: “Eu sou vocês na presidência da Petrobras”.  

Graça Foster – o interlocutor que insistir em chamá-la frente a frente de Maria das Graças certamente ouvirá um desaforo – tem um estilo bem peculiar. Se a conterrânea Dilma Rousseff nasceu para a política no Rio Grande do Sul, a também mineira Graça é carioca desde que se conhece por gente. Aos dois anos, recém-chegada de Caratinga, desembarcou no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão. Aos 12 anos, mudou-se para a Ilha do Governador, onde criou raízes. Os espiões da NSA e as paredes da Petrobras sabem que, até hoje, Graça desfila na escola de samba do bairro, a União da Ilha. 

Na passarela da Petrobras, contudo, não há espaço para alegorias e adereços. O surdo toca alto, marcando cada cobrança de Graça Foster. E são muitas as batidas por dia. Graça teria de gazetear um par de horas para ser chamada de workaholic. Costuma chegar à companhia por volta das sete horas da manhã. Se bem que, entre seus colaboradores mais próximos, há quem diga que ela não chega à Petrobras, pelo simples fato de que nunca sai de lá. São comuns as ligações para assessores a altas horas da noite ou nos fins de semana. Nessas conversas, costuma despachar os mais variados assuntos como se estivesse reunida com o interlocutor em sua sala às 15 horas de uma terça-feira, por exemplo. Graça estende para o outro o nível de exigência que impõe a si própria. Segundo os mais próximos, costuma dedicar horas a estudar um tema que será discutido em uma reunião de 40 minutos. 

À frente da companhia, Graça Foster vem promovendo uma revolução. Desde que assumiu a presidência, trocou diretores e incontáveis gerentes, revisou, para baixo, todas as metas de produção (há mais de dez anos, a empresa não cumpre qualquer delas), passou, repassou e re-repassou todos os procedimentos internos para a aprovação de projetos, aumentou o orçamento para a área de exploração. Além de tudo e mais um pouco, o dínamo Foster deu a partida em um complexo processo de venda de ativos, notadamente no exterior, medida considerada vital para que a Petrobras consiga honrar seus bilionários investimentos. 

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Desde que ingressou na Petrobras, não há um só declive na trajetória de Maria das Graças Foster – “Graça! É Graça...”, diria ela, sem disfarçar a irritação. Após chegar ao cume do Everest petrolífero, que outros picos poderia alcançar? Graça já esteve cotada para ser ministra da Casa Civil. Se Dilma Rousseff realmente alimentou a ideia e depois recuou, talvez tenha pensado duas, três ou quatro vezes o ônus de indicar para o cargo alguém com um perfil notoriamente técnico e reduzido traquejo político. Por isso mesmo, para não falar da relação de cumplicidade entre ambas, talvez Graça viesse a ser a verdadeira “Dilma da Dilma”, condição atribuída a Gleisi Hoffmann quando de sua chegada à Casa Civil. 

“Como será o amanhã? Responda quem puder...”  

É provável que Graça Foster tenha passado o verão de 1978 a cantarolar pelas ruas do bairro o histórico samba da União da Ilha naquele ano. Mais de três décadas depois, uma nova versão da letra ressoa pela Avenida, não a Marques de Sapucaí, mas a Chile. “O que irá me acontecer? O meu destino será como Dilma quiser...”. Se um Ministério é coisa do passado ou do futuro, só o tempo ou a presidente poderá dizer. Por ora, Graça parece encontrar seu amanhã no mesmo lugar de sempre. Ao falar do plano de negócios da Petrobras para os próximos quatro – isso mesmo: quatro anos –, a presidente da estatal não consegue esconder o desejo de colocar em prática tudo o que lê no papel. 

Além de executar o arrojado plano de investimentos da companhia, Graça almeja consolidar a profunda reestruturação estratégica que vem tocando desde sua chegada à presidência. Some-se a tudo isso o fator pré-sal. O que mais poderia orgulhar uma executiva com Lubrax correndo nas veias do que comandar o avanço da Petrobras na chamada nova fronteira do petróleo brasileiro.
Dados Pessoais
  • 60 anos
  • Engenheira química, presidente da Petrobras
  • Graduada em Engenharia Química pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
  • Nasceu em Caratinga (MG)
  • Casada, mãe de dois filhos