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Fernando Henrique Cardoso

Inteligente e vaidoso, ex-presidente possui ainda grande influência em ambientes políticos, acadêmicos e sociais

Fernando Henrique Cardoso
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Após oito anos na presidência da República, FHC prefere agora atuar nos bastidores da política e descarta qualquer outro cargo público: "Meu tempo passou. Chega"

A boca e a palavra, escreveu Maquiavel, são o arco e a flecha do político. Ou, como dizia Ulysses Guimarães, o instrumento de trabalho do político é o cuspe, a saliva. Como político, e também como acadêmico, Fernando Henrique Cardoso levou a expressão ao limite. Ele sempre foi considerado um virtuose consumado na arte da argumentação persuasiva e no uso habilidoso da conversa para envolver e cooptar os seus interlocutores. Tamanho atributo, no entanto, não impediu FHC de deixar a Presidência da República, após oito anos de mandato, com um raquítico índice de aprovação popular. Feito que levou sucessivos candidatos tucanos a esconder ou maquiar seu legado.

Para muitos, uma injustiça para quem foi o líder e aglutinador da equipe que desenhou e implementou o mais bem-sucedido plano de estabilização da moeda e do controle inflacionário da história do Brasil. Para outros tantos, o resultado de um governo que se resumiu à busca incessante do combate à inflação e esqueceu de outras urgências do País, como o crescimento econômico e a desigualdade de renda. Entre um plano e outro, FHC já gastou bastante tempo defendendo-se da tese de que seu governo se entregou de corpo e alma ao ideário neoliberal – o que, na sintaxe brasileira, significou pregar o Estado mínimo, ter baixa nível de preocupação social e, no limite, ser um entreguista.

Numa entrevista a João Moreira Salles, publicada na revista “Piauí”, ele afirmou, como se entregasse o seu julgamento à História: “Diante do Estado inepto e da prevalência da burguesia estatal, privatizar era o jeito”. Ao seu estilo, completou: “Batizaram de Consenso de Washington a constatação de que o Estado estava falido e de que não se pode gastar o que não se tem; se tivessem batizado de Consenso de La Paz, não teria havido problema”. O neoliberalismo é uma espécie de assombração a ser exorcizada por ele.

Para um político, acadêmico e homem vaidoso como FHC, as críticas que recebe devem soar como um acinte. Tornou-se lendária sua declaração de que é mais inteligente do que vaidoso.

Um paradoxo em si: quem diz tal coisa está, primeiro, afirmando o que nega. Em outras palavras, reafirma a enorme vaidade de se considerar mais inteligente do que vaidoso. O que parecia manifestação de bom senso do inteligente era falsa modéstia do vaidoso. O inteligente e o vaidoso se somam ao sedutor em tempo integral. Num primeiro movimento dirigido aos seus interlocutores, sobretudo os que acabam de lhe conhecer pessoalmente, FHC costuma adotar a tática de impressionar de imediato. Depois, desarma-se. Em seguida, vem o ataque a si mesmo, para a seguir travestir-se de homem comum. Invariavelmente faz o interlocutor sentir-se alguém singularmente inteligente, capaz de dizer algo que o impressiona. É tudo jogo de sedução, capaz de convencer até o mais empedernido dos críticos e adversários.

O "imortal"  

Para alguém que teria dito a frase famosa “esqueçam o que escrevi” – que ele nega ter dito – a cerimônia de posse de Fernando Henrique Cardoso na cadeira 36 Academia Brasileira de Letras (ABL) foi impressionante. Por motivo de segurança, desde o fim da tarde do dia 10 de setembro, foi feito um cordão de isolamento no entorno do Petit Trianon, e o policiamento foi reforçado na Avenida Presidente Wilson, no Centro do Rio d Janeiro. Não houve, contudo, manifestações. A não ser as de cumprimentos e elogios à trajetória do ex-presidente.

Em seu discurso, porém, FHC abordou os protestos de rua. Definiu o momento como uma “crise de democracia representativa” no mundo inteiro, não apenas no Brasil. “Não é só o oprimido que se manifesta. Não estamos diante de uma elite que sabe e de um povo que desconhece. Não há tempo a perder para reconstruir a democracia e as instituições para captar os reais interesses da população”, disse o sociólogo ao analisar a questão, e concluiu: “Como no passado dos oráculos, a história nos pregou uma peça: ‘Decifra-me ou te devoro’ é o enigma das ruas”.

Aos 82 anos, Fernando Henrique – o vaidoso – estava à vontade dentro do fardão – se diria que foram feitos um para o outro. A fina flor de certa elite política compareceu à cerimônia: os senadores Aécio Neves e Francisco Dornelles; os ex-senadores Jorge Bornhausen e Tasso Jereissati; o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves; e os governadores de São Paulo e Rio, Geraldo Alckmin e Sérgio Cabral, respectivamente; os ministros Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello e Wellington Moreira Franco; o prefeito do Rio, Eduardo Paes. Também estava na plateia o também tucano José Serra.

Curiosidades: o fundador da cadeira 35 foi o conde Afonso Celso, autor de “Porque me ufano de meu país”; antes de FHC, dois outros presidentes tiveram assento na Casa de Machado de Assis: Getúlio Vargas e José Sarney. O fardão – vestimenta verde escuro com folhas bordadas a ouro, tendo como complemento um chapéu de veludo negro com plumas brancas e uma espada – custou aos cofres públicos dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro cerca de R$ 70 mil. Como Fernando Henrique – que recebeu 34 votos dos 39 possíveis – nasceu no Rio mas construiu a carreira política em São Paulo, os governos dividiram o gasto, segundo a assessoria do Instituto Fernando Henrique Cardoso.

O instituto é fruto de um trabalho iniciado ainda na Presidência da República. Poucos meses antes de terminar o segundo mandato, Fernando Henrique convidou um grupo de empresários para jantar no Palácio da Alvorada. Explicou-lhes que desejava criar uma fundação, nos moldes das bibliotecas presidenciais norte-americanas. Ali conservaria toda a sua documentação presidencial e promoveria palestras e debates sobre o futuro do País. Pediu contribuições. Do encontro nasceu o instituto, com dotação inicial de R$ 7 milhões.

Era sua estratégia para uma liturgia de pouca ou nenhuma tradição no Brasil. Para citar seus antecessores imediatos, todos pareceram padecer do viço daqueles que não conseguem sair de campo. José Sarney foi até o Amapá para poder retornar ao Senado. Collor passou anos em Miami, voltou a Maceió para voltar à política também no Senado. Itamar Franco não gostou de Roma, para onde foi como embaixador, e voltou para Juiz de Fora. FHC inaugurou no Brasil a profissão de ex-presidente, com prestígio em círculos acadêmicos e entre ex-governantes – marca seguida por Luiz Inácio Lula da Silva.

Ainda com bastante influência, sobretudo em ambientes liberais – no conceito brasileiro, próximo a “conservadores” –, o próprio FHC admite que não tem o poder real à mão. Já declarou que poder, no Brasil atual, mede-se pela quantidade de votos futuros; por essa conta, seu cacife é nulo. “Meu tempo passou. Chega”, chegou a afirmar, diante da possibilidade de disputar o governo de São Paulo, depois de dois mandatos na Presidência da República.

A resistência a pensar qualquer projeto político que não seja apenas pela zona de influência decorre também de uma impaciência crônica para a política miúda – diferente da linhagem seguida por Sarney e Collor. Queriam que eu concorresse ao governo de São Paulo. Eu disse: aí eu ganho e no dia seguinte tem rebelião em presídio e prefeito querendo encontro. O Senado é igual. Aquela convivência é muito desinteressante”. Como afirmou o cineasta João Moreira Salles, seu interlocutor que ouviu esta frase, a declaração parecia sincera: “Depois de trocar ideias com Chirac e Clinton, deve ser meio desanimadora a perspectiva de puxar conversa com Epitácio Cafeteira”.

23 obras, 100 artigos acadêmicos

Ao contrário de outros candidatos recém-eleitos na Academia, a lista de livros de ex-presidente é longa. Ele é autor ou coautor de 23 volumes, sem contar os mais de 100 artigos acadêmicos. Entre as obras mais recentes estão “A arte da política” (2006), “The accidental president of Brazil (2006) e “Pensadores que inventaram o Brasil” (2013). Seu livro “Dependência e desenvolvimento”, publicado originalmente em espanhol em 1969, em coautoria com Enzo Falleto, é considerado um marco nos estudos sobre a teoria do desenvolvimento, com dezenas de edições em 16 idiomas.

O conceito demonstrado em “Dependência e desenvolvimento” mudou, dos anos 1960 para cá, segundo o autor, para quem o trabalho era, na época, uma clara crítica ao capitalismo, que impedia o desenvolvimento dos países periféricos. Com o tempo, a quadro se alterou, pois países como o Brasil puderam se desenvolver com capitais externos. A opção revolucionária, para o sociólogo, findava aí.

De todos os elogios que recebeu ao tornar-se imortal, nenhum deve ter calado tão fundo como aquele sussurrado pela atriz Maitê Proença. Mais que um elogio, foi quase um galanteio: “Você é o homem mais lindo que eu conheço. E só para ficar claro: na categoria de lindo a que me refiro, em segundo lugar está o Chico Buarque”.

Viúvo da antropóloga Ruth Cardoso, morta em junho de 2008 em decorrência de problemas cardíacos – tiveram três filhos: Paulo Henrique, Luciana e Beatriz –, Fernando Henrique está namorando Patrícia Kundrát, de 35 anos. É tão comum a presença do casal em restaurante finos de São Paulo, de mãos dadas, trocando carinhos na nuca e beijinhos no rosto e no canto da boca, que ninguém repara mais.

Atualmente FHC é membro do The Elders – grupo de 10 líderes globais criado por Nelson Mandela para defender a paz e os direitos humanos. Dele também fazem parte o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, o arcebispo emérito da África do Sul, Desmond Tutu, e o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, entre outros. Deve se sentir em casa: pois, segundo ele próprio, os líderes mundiais com os quais teve contato e mais admirou foram Bill Clinton, Felipe González e Nelson Mandela: “Mandela é uma força moral”.

Carioca de alma paulista  

Fernando Henrique Cardoso nasceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de junho de 1931, no seio de uma família de militares de tradição nacionalista. Com 8 anos, mudou-se para São Paulo, onde se formou em ciências sociais pela USP. Fez pós-graduação na Universidade de Paris. Após o golpe militar de 1964, exilou-se no Chile e depois na França. Voltou ao Brasil em 1968, para dar aulas na USP, mas foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5.

Em 1978 foi eleito suplente de Franco Montoro para o Senado pelo antigo MDB, assumindo a cadeira em 1983. Dois anos depois, foi candidato à prefeitura de São Paulo, perdendo por 1,3% dos votos para o ex-presidente Jânio Quadros. FHC, que nessa época gostava de dizer que tinha “um pé na cozinha” em referência a sua tez morena, chegou a tirar uma foto na cadeira de prefeito um dia antes da derrota nas urnas. Em 1986 recuperou-se ao eleger-se senador. No ano seguinte fundou o PSDB.

Em 1993 assumiu a pasta da Fazenda no governo Itamar Franco. Seu plano de estabilização econômica inclui medidas de controle do déficit público e uma reforma monetária, com a criação do real. Afastado do ministério para disputar as eleições presidenciais de 1994, venceu no primeiro turno, com 54,3% dos votos. Com o crescimento econômico e o fim da inflação, reelegeu-se presidente em 1998, também em primeiro turno, com 52,06% dos votos. Em ambas ocasiões, derrotou Luiz Inácio Lula da Silva, do PT.

Em 2011, no tempo pós-Presidência, Fernando Henrique lançou-se numa cruzada pela descriminalização das drogas. Mas fez questão de assumir-se “um careta”.
Dados Pessoais
  • 82 anos
  • Sociólogo, ex-presidente da República
  • Graduado em Sociologia pela USP, com doutorado na Sorbonne
  • Nasceu no Rio de Janeiro (RJ)
  • Viúvo, pai de quatro filhos