ver novamente
Armínio Fraga

Longe do Banco Central, o ex-homem forte do sistema financeiro mantém sua influência

Armínio Fraga
35

Armínio Fraga

Influência

  • Política
  • Econômica
  • Social
  • Midiática

Enquete

O que você achou deste personagem?
  • GOSTEI

    VOTOS
  • NÃO GOSTEI

    VOTOS

Armínio Fraga

35

Chamado no passado de "vassalo do capital estrangeiro" e com ar de economista-estadista, Fraga é bem sucedido na iniciativa privada e mantém o vínculo junto ao primeiro escalão do tucanato

Ele já teve sob seu controle todo o sistema financeiro nacional. Hoje, contenta-se em administrar “apenas” US$ 7 bilhões. Ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Gávea Investimentos, Armínio Fraga é reconhecidamente um dos economistas mais respeitados e influentes do Brasil.

Fosse outro o resultado das urnas nas últimas três eleições presidenciais e, muito provavelmente, ainda estaria no centro do Poder. Não se pode ter tudo. Ainda assim, mesmo que grafado em letra minúscula, poder foi feito para ser exercido. A reputação que construiu em cima de uma bem-sucedida trajetória como gestor, iniciada há mais de duas décadas, e, sobretudo, dos quase quatro anos à frente da autoridade monetária, fez de Armínio Fraga um personagem acima do bem ou do mal. Suas análises prêt-à-porter sobre a conjuntura econômica – lançadas ao ar em recorrentes e bem coreografadas aparições na mídia – costumam ser recebidas com a força de um mandamento
mosaico.

Leia também:

Entenda o ranking Os 60 mais poderosos do País

Confira o ranking Os 60 mais poderosos do País

Respeito merecido

Armínio Fraga carrega um certo ar de “economista-estadista”, talvez acentuado pelas feições que o assemelham aos monarcas de Velázquez – ou Pedro Américo, diriam seus desafetos em tom de blague. Armínio fez por merecer o respeito que tem, que, às vezes, se transmuta em certa dose de prurido. É curioso, por exemplo, ver o tratamento que recebe por parte da imprensa. Armínio é comumente identificado pelos apostos “economista” e, sobretudo, “ex-presidente do Banco Central”.

Não obstante o peso do cargo que ocupou, é como se a placa do BC, por si só, beatificasse suas críticas à política econômica, que, ditas por um banqueiro ou gestor de recursos, soariam como anátemas ou, pelo menos, pecadilhos cometidos por motivações ideológicas.

“Vassalo do capital estrangeiro”, “Representante dos megaespeculadores”... A indicação de Armínio Fraga à presidência do Banco Central, em fevereiro de 1999, despertou a cólera da oposição de então. Para muitos, pouco importava sua sólida trajetória acadêmica, que incluía um período como professor da Escola de Assuntos Internacionais da Universidade de Columbia. Tudo era eclipsado pelos seis anos como diretor-gerente da Soros Fund Management, gestora de recursos do investidor George Soros. Em sua sabatina no Senado, alguns parlamentares chegaram a exclamar que Armínio não reunia “qualificações éticas” para o cargo.

Momento delicado

Partidarismos a latere, Armínio Fraga assumiu o manche do BC em um dos períodos mais tensos nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso. Uma sucessão de equívocos e erros de avaliação da equipe econômica resultou na “quarta-feira 13” do câmbio. Em 13 de janeiro, FHC demitiu o então presidente do BC, Gustavo Franco. No mesmo dia, a moeda sofreu uma desvalorização de 8,26%, os investidores estrangeiros tiraram do País mais de US$ 4 bilhões e uma das âncoras do Plano Real, o sistema de câmbio fixo, afundou para longe da visão dos escafandristas. Em uma semana, a apreciação do dólar bateu nos 17%. O então diretor de Política Econômica e Monetária do BC, Francisco Lopes, substituiu Gustavo Franco. Chegou instituindo a exótica “banda diagonal endógena”, que permitia a variação do real dentro de uma faixa. Com apenas três semanas no cargo, a banda de Lopes parou de tocar e ele acabou afastado do comando da autoridade monetária em meio ao escândalo do Caso Marka, quando o BC foi acusado de repassar informações privilegiadas e realizações operações no mercado de câmbio que favorecera determinadas instituições financeiras.

Foi neste caldeirão, com temperatura suficiente para derreter o dedo de quem se arriscasse a encostar nele, que Armínio Fraga mergulhou em março de 1999. Reza a lenda que, em sua primeira reunião de diretoria no Banco Central, Armínio declarou a seus pares: “Estou com medo”. O economista que queria ser médico, a exemplo do pai e do avô, desembarcou no BC com um bisturi em cada mão, sabendo que precisaria intervir na economia com a precisão de um neurocirurgião.

Leia mais:

Índios desocupam hotel de luxo, de Fraga, na Bahia

Filho de Fraga lança CD

Gávea compra quase 30% da rede Chilli Beans

Logo no início de sua gestão, a Selic (a taxa básica de juros) subiu a 45% – portanto, quando disse, em maio deste ano, que tinha vontade de se coçar ao ver juros de 7,5% para uma inflação anualizada próxima dos 8%, Armínio poderia tachado de várias formas, menos de incoerente. Na mesma época, Armínio adotou o sistema de metas de inflação. Resultado: ao fim do terrível ano de 1999, o dólar havia recuado de R$ 2,15 para R$ 1,81.

Nova fase

Em 2003, após entregar a presidência do Banco Central a Henrique Meirelles, Armínio Fraga voltou a pular o muro, retornando à iniciativa privada. Desta vez, guardadas as devidas proporções, seria o seu próprio George Soros. A Gávea Investimentos nasceu como uma gestora de fundos multimercados. Três anos mais tarde, consolidava-se como um dos mais importantes private equities do País.

Em 2010, Armínio vendeu o controle acionário para o JP Morgan. A Gávea detém participações em importantes negócios, como a operação latino-americana do McDonald’s, Odebrecht Óleo e Gás e Camil, uma das maiores cooperativas agrícolas do País. Apesar da transferência do controle para o JP Morgan, Armínio Fraga ainda é o rosto e o cérebro do Gávea. Os novos negócios da gestora, como a entrada nos mercados imobiliário e de dívidas de empresas, saem de sua prancheta. Armínio é também o epicentro do escrete que foi se formando no Gávea ao longo dos anos, em que se destacam Amaury Bier, ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda, José Berenguer, ex-vice-presidente do Santander, e Edward Amadeo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Se a capacidade de interferir na opinião pública é um quesito de poder, e certamente o é, Armínio Fraga segue multiplicando seu prestígio a cada sobressalto da economia ou fato marcante da vida nacional. Logo após o auge das manifestações populares de junho, lá estava Armínio na mídia dizendo que a “pressão das ruas precisa ser transformada em resposta coerente com a responsabilidade fiscal” e criticando a aposta do governo num modelo de crescimento baseado no consumo. No discurso de Armínio, a distância entre o Movimento do Passe Livre e a “excessiva flexibilização do tripé câmbio flutuante, controle de gastos e metas de inflação” é mínima. Bem inferior a R$ 0,20.

Plumagem tucana 

Armínio Fraga flerta com 2014. Diz que sua prioridade é a Gávea Investimentos, mas não esconde a plumagem tucana que salta do figurino de gestor de recursos. Mantém conversas regulares com Aécio Neves, candidato a candidato do PSDB. Ao lado de Edmar Bacha, é visto como um dos mentores da agenda econômica da Aécio.

Sua volta ao governo em uma eventual vitória do PSDB nas eleições é tratada como pule de dez. Isso valeria tanto para uma candidatura Aécio quanto para uma candidatura José Serra – ou, por ora, alguém se arrisca a tirar esta carta do baralho? Não custa lembrar que, em 2002, durante a campanha à Presidência da República, Serra disse que manteria Armínio à frente do BC caso fosse eleito. “Ótimo! Então já estamos combinados”, respondeu o economista publicamente, ao tomar conhecimento da declaração. Agora, ao que tudo indica, é preciso combinar com Dilma Rousseff.
Dados Pessoais
  • 56 anos
  • Economista, sócio-fundador da Gávea Investimentos
  • Graduado em Economia pela PUC-Rio, com doutorado pela Universidade de Princeton (EUA)
  • Nasceu no Rio de Janeiro (RJ)
  • Casado, pai de dois filhos