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Por meio de testes, Marinha dos EUA exige que seus pilotos renovem suas habilidades de sobreviver a situações adversas

O piloto estava amarrado a uma cadeira, como se estivesse no banco traseiro de um helicóptero. Ao lado dele, em uma parede falsa, havia uma janela fechada.

O piloto usava óculos velados. Ele não conseguia ver a janela ou qualquer outra coisa. A cadeira era presa a uma moldura rotativa que ficava no fundo de uma piscina, cuja água ia até a altura do peito. Um suboficial girou a moldura, virando a cadeira para trás com um barulho suave. Com isso, o piloto ficou submerso na água de cabeça para baixo.

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Kelsey Martin consegue cumprir o treinamento no Centro de Treinamento para Sobrevivência em Aviação em Whidbey, Washington
NYT
Kelsey Martin consegue cumprir o treinamento no Centro de Treinamento para Sobrevivência em Aviação em Whidbey, Washington

Outro exercício no teste tinha começado. O piloto - com os pés perto da superfície, a cabeça perto do fundo e sem poder enxergar nada - precisava desconectar as fivelas do cinto de segurança, abrir a janela e sair em uma série de movimentos que visam simular o que ele poderia fazer caso a aeronave que pilota caísse no mar à noite.

De quatro em quatro anos, os pilotos da Marinha precisam renovar suas habilidades em escapar de aeronaves acidentadas na água e de descer de paraquedas sobre a água. A reciclagem, dependendo da base de cada estudante, acontece em escolas como o Centro de Treinamento para Sobrevivência em Aviação, localizado na base naval de Whidbey, no litoral do Estado de Washington.

Pela forma peculiar com que esse treinamento, ao mesmo tempo assustador e exigente, é visto por aqueles que muitas vezes são submetidos a ele. O curso pode ser ao mesmo tempo apreciado e detestado.

O piloto que foi virado de cabeça para baixo, o tenente comandante Kelsey N. Martin, lutou com a fivela do cinto brevemente. Ele logo se soltou e nadou pela janela sem a assistência do nadador de resgate que acompanhava o treinamento. Mais tarde, ele revelou o sentimento comum entre os pilotos.

"Eu não estava ansioso para isso", disse, antes de acrescentar: "Esse treinamento é realmente muito valioso. Eu digo isso porque eu conheço quatro pilotos que passaram por essa situação e todos sobreviveram."

O sofrimento com a cadeira que vira de cabeça para baixo - conhecida como Treinador Modular de Egresso Raso - foi apenas um de muitos exercícios.

Martin e seus colegas também tiveram que passar por um teste de natação usando botas, macacão e capacete, demonstrar que poderiam inflar um salva-vidas com um tubo de respiração dentro da água, e completar vários exercícios situacionais, inclusive escapar de um paraquedas enquanto se era puxado para trás.

Esse treinamento buscava replicar a experiência de ser puxado para trás na superfície do oceano por um paraquedas inflado por ventos fortes, algo que poderia afogar um piloto que tivesse sobrevivido a um acidente com sucesso.

O exercício final, chamado de mergulhão, envolvia usar óculos velados durante uma simulação de queda em que um helicóptero é despejado na água de uma altura de três metros e de cabeça para baixo. Vários pilotos e tripulantes precisam escapar de uma só vez, enquanto membros da equipe de resgate observam, prontos para resgatar quem fique preso.

Esse exercício, como a cadeira submersa, ensina os tripulantes a escolher uma saída e depois confiar em "pontos de referência" para chegar lá - pedaços da aeronave em que podem se apoiar e usar como apoio para chegar a uma abertura.

O curso dura dois dias e busca reproduzir reações nas tripulações para que possam sobreviver a perigos que possam enfrentar.

Martin é piloto de um E/A-18G. Embora pilotos do jato não pilotem helicópteros, eles muitas vezes são os passageiros transportados dentro deles e também precisam fazer o curso. Dois jornalistas do The New York Times também precisaram concluir o curso recentemente, antes de receber permissão para serem transportados em um F/A-18 para trabalhar na cobertura da guerra no Afeganistão .

Membro da equipe de resgate assiste ao treinamento chamado mergulhão no Centro de Treinamento para Sobrevivência em Aviação em Whidbey
AP
Membro da equipe de resgate assiste ao treinamento chamado mergulhão no Centro de Treinamento para Sobrevivência em Aviação em Whidbey

O comandante Richard V. Folga, o diretor da escola, disse que o raciocínio por trás da formação é uma simples matemática da aviação. Todos os anos, não importa quanta atenção os esquadrões prestem na manutenção e segurança, falhas em aeronaves navais levam a acidentes catastróficos. Os pilotos e suas tripulações acabam no mar.

A Marinha chega a perder de 8 a 10 aeronaves por ano, disse. Por isso, depois de um dia em sala de aula, eles seguem para a piscina para uma longa sessão prática na água, que os prepara para situações adversas.

Folga disse que sabe que alguns oficiais detestam o treinamento. "Se eu pudesse garantir que eles nunca iriam precisar deste treinamento, eu diria: 'OK, sente-se no banco do passageiro e use o seu iPhone e faça o que você quiser enquanto nós trabalhamos", disse. "Mas exercícios têm como base incidentes reais e incidentes reais muitas vezes recorrentes."

Ele acrescentou: "Ninguém planeja que esse tipo de acidente aconteça. Ninguém acorda para trabalhar um dia esperando que precisará sobreviver na água após um acidente. Mas isso acontece. E quando isso acontece, eles precisam estar prontos."

Por C. J. Chivers

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