
Com movimentos rápidos que produzem flashes parecidos com luzes de uma discoteca, a amêijoa-disco (Ctenoides ales) chama a atenção de mergulhadores em recifes de coral das águas tropicais do Indo-Pacífico.
Também conhecida como amêijoa-elétrica, a espécie tem uma estrutura avermelhada ao redor do corpo chamada manto . É nessa região que aparecem os flashes que dão o apelido de amêijoa-disco.
Apesar da aparência, o animal não produz luz própria. A borda do manto tem células ricas em sílica, um material que reflete a luz com intensidade. Ao movimentar esse tecido, o molusco alterna rapidamente entre mostrar e esconder essas células. O resultado são clarões que lembram luzes piscando .
O fenômeno é diferente da bioluminescência, que acontece quando um ser vivo produz a própria luz com processos naturais. No caso da amêijoa-disco, os flashes dependem da luz que chega ao animal e é refletida por seu corpo.
Em entrevista à revista Science News, a pesquisadora Lindsey Dougherty descreveu o efeito como “muito vívido e muito dramático”.

Flashes ajudam a afastar predadores
Os movimentos luminosos podem funcionar como uma forma de defesa . Segundo o Museu de História Natural da Universidade do Colorado em Boulder, a combinação entre a cor avermelhada e os flashes pode servir de aviso para animais que tentam comer o molusco .
Um de seus predadores é o camarão-louva-a-deus, que consegue quebrar conchas com seus golpes. Como esse crustáceo tem uma visão sensível, pode ser afetado pelos flashes produzidos pela amêijoa-disco.
Em testes feitos em laboratório, Dougherty ainda observou que os animais lançavam um muco ácido contra os camarões-louva-a-deus. No experimento, a substância deixava os crustáceos incapacitados por até 15 minutos.
A pesquisadora também descobriu que a parte avermelhada do manto tem uma composição química diferente das regiões sem cor. Algumas substâncias presentes nesse tecido podem tornar o animal menos atraente ou desagradável ao paladar dos predadores. Ainda não se sabe exatamente como esses compostos funcionam.
Por que o animal pisca até no escuro?
O animal vive em áreas pouco iluminadas, como fendas e cavidades nos recifes de coral, e pode ser encontrado a até 50 metros de profundidade.
Isso chama a atenção dos pesquisadores porque os clarões dependem da reflexão da luz . Mesmo assim, Dougherty observou que os moluscos continuam movimentando o manto durante a noite, quando há pouca luz disponível.
Uma das hipóteses é que os flashes ajudem a atrair animais jovens que ficam soltos na água antes de se fixarem em algum lugar. Durante visitas a esses ambientes, a pesquisadora encontrou mais de um exemplar adulto em cerca de metade das cavidades examinadas. Ainda não se sabe se os filhotes conseguem enxergar os sinais luminosos .
Outra possibilidade é que os flashes atraiam pequenos organismos aquáticos que servem de alimento para o molusco . À Science News, Dougherty comparou a exibição a uma placa luminosa de restaurante, como se o animal anunciasse que há comida disponível.
Reprodução depende da oferta de alimento
A amêijoa-disco se reproduz liberando células reprodutivas na água. Quando essas células se encontram, ocorre a fecundação, dando início ao desenvolvimento dos filhotes.
A sobrevivência dos animais jovens depende, entre outros fatores, da quantidade de plâncton disponível. Esses pequenos organismos são a principal fonte de alimento da espécie. Quando há pouco plâncton, poucos filhotes conseguem sobreviver.
O aumento da temperatura dos oceanos também preocupa os pesquisadores. Segundo o Museu de História Natural da Universidade do Colorado em Boulder, a amêijoa-disco está entre os animais cujas populações vêm diminuindo em meio às mudanças que afetam os ambientes de recifes de coral .