Decadência deixa bicentenário amargo na Argentina

Instabilidade política é uma das explicações para retrocesso de país que já foi a maior economia da América Latina

Leda Balbino, iG São Paulo | 25/04/2010 09:21

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A sensação de decadência paira pela Argentina neste ano, quando o país marca os 200 anos desde a revolução que resultou em sua independência da coroa espanhola, em 25 de maio de 1810. E, para desgosto dos argentinos, a impressão não é equivocada.

Enquanto no ano do centenário a Argentina era o maior PIB da América Latina – o equivalente a 50% da economia da região –, atualmente esse índice retrocedeu para 8%. Em 1910, o PIB do Brasil era a metade do argentino e agora é quatro vezes maior.

As ruas da “Paris do Sul”, como Buenos Aires ficou conhecida por seus tempos áureos, começaram a receber indigentes na última década, em uma conseqüência direta do encolhimento da classe média e do empobrecimento da população.

Além disso, o país que há cem anos tinha o menor número de analfabetos entre os latino-americanos, atualmente enfrenta queda na qualidade da educação pública. “Ainda contamos com um bom corpo docente, mas os salários são baixos e falta infraestrutura”, disse ao iG a professora de matemática Isabel Juarez, de 55 anos.

Por que o país não decola?

Para o analista argentino Rosendo Fraga, a constante instabilidade política é uma das principais explicações para o retrocesso da Argentina. “Entre 1930 e 1983, o país testemunhou seis golpes militares bem-sucedidos e, entre 1946 e 2010, mudou a Suprema Corte dez vezes por razões políticas”, disse ao iG.

Fraga também lembra que a Argentina detém o recorde de presidentes que, sem alterar o sistema democrático, não conseguiram terminar seus mandatos. “Foram quatro casos desde a redemocratização após a última ditadura militar (1976-1983)”, afirmou o analista, que é diretor do Centro de Estudos União para a Nova Maioria.

A declaração se refere ao ano de 2001, quando, em meio à sua pior crise econômica, o governo argentino anunciou o maior calote da história do capitalismo ao decretar a moratória da dívida externa de US$ 95 bilhões.

A medida foi tomada por Fernando de la Rúa, que, pressionado pela crise e por protestos populares contra o bloqueio das contas pelo governo, renunciou em 21 de dezembro daquele ano. A ele se seguiram Ramon Puerta (dos dias 21 a 23), Adolfo Rodríguez Saá (dia 30) e Eduardo Camaño (31 de dezembro a 1º de janeiro de 2002).

Depois das quatro renúncias, o Congresso elegeu Eduardo Duhalde, que conseguiu liderar o país interinamente até a eleição de Néstor Kirchner, em 2003, após a desistência do ex-presidente Carlos Menem (1989-1999) de disputar o segundo turno.

Quase nove anos depois do calote, a Argentina ainda tenta deixar no passado o status de pária do mercado internacional por meio da reestruturação da sua dívida de 2001, na segunda medida do gênero desde 2005. Mas, apesar de o país atualmente estar em uma boa fase econômica, analistas advertem que é preciso atacar seus problemas estruturais e o aumento da inflação para manter o crescimento.

Além dos desafios econômicos, a Argentina se prepara para uma eleição presidencial em 2011, quando se completarão oito anos de governo do casal Kirchner.

Conclamado pela retomada econômica e por iniciativas para esclarecer os crimes da última ditadura militar, que deixou 30 mil mortos, Kirchner conseguiu eleger sua mulher, Cristina Fernandez de Kirchner, em 2007. No entanto, depois de disputas com o setor rural, acusações de corrupção e de perseguição à imprensa, a popularidade dos dois caiu e muitos já se preparam para a disputa do próximo ano.

Com tantos altos e baixos, muitos argentinos recorrem ao divã para aplacar a saudade do passado e manter intacto o orgulho de ser argentino, sentimento que ainda encontra bons respaldos no cinema e na literatura do país.

Desafios futuros

Segundo Fraga, os principais desafios da Argentina são reconstruir a credibilidade institucional, reduzir a desigualdade, elevar a qualidade da educação pública e recolocar o país no mapa mundial.

Para o analista, algo que poderia reverter o atual cenário desfavorável seria uma mudança de mentalidade da elite argentina, que descreve como tendo pouca “vocação para a mudança”.

“O pior da decadência é quando ela se tolera ou se aceita como inevitável”, disse Fraga. “A elite argentina deve assumir que não há maldições históricas e é perfeitamente possível construir um horizonte diferente, como fizeram Brasil, Colômbia e Peru na primeira década do século 21”, completou.

*Com colaboração de Thomaz Favaro, especial para o iG de Buenos Aires

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