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Maior lixão de Havana, que se estende das imediações da CUJAE (Universidade de Ciências Técnicas) até a avenida Boyeros, um dos principais boulevares da capital

Maior lixão da capital de Cuba, Havana, "El Bote de 100" ("O bote de 100") é mais do que um lugar onde se abandonam de dejetos.

Em meio à montanha de sujeira sem vida, germinam histórias de perseverança e superação.

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O jornalista cubano Carlos M. Álvarez visitou o lugar e escreveu sobre o que viu. Leia o relato a seguir:

Luz María carregava no rosto as marcas do tempo ─ e do trabalho pesado. Aos 39 anos, ela aparentava muito mais idade.

A mulher que conheci morava no "El bote de 100", o maior lixão de Havana, que se estende das imediações da CUJAE (Universidade de Ciências Técnicas) até a avenida Boyeros, um dos principais boulevares da capital.

Luz María era apenas uma das inúmeras histórias vivas dentro desse amontoado de sujeira, sobre o qual muitos sabem pouco.

Em primeiro lugar, ali os minutos não se acumulam, se autofagocitam. Isso torna tudo muito mais selvagem.

E não há nenhuma maneira de descrever, senão quimicamente, os odores que exalam lá de dentro. O fedor impregna nos pelos do nariz e se espalha pelas entranhas do cérebro.

Em terceiro lugar, viver lá dentro só é possível alcoolizado.

Tudo o que se faz nessa imensa lata de lixo, desde cozinhar o frango encontrado no meio da sujeira a cantar uma música, passando por um bate-papo rápido, tem de ser feito com muito álcool. Mas o álcool é tanto que ninguém fica bêbado.

'Lei do lixo'

A lei do lixão ─ vidas precárias, mas desenfreadas ─ impõe uma forma de liberdade "escravizada".

O lixão é um negócio. De suas matérias-primas ─ metais, caixas, roupas, garrafas ─ vivem centenas de pessoas.

Mas Luz María, que sabia de tudo ─ a que horas se recolhe o lixo, como fugir das autoridades, como suborná-las, o que se vende mais rápido ─ não conseguia falar de seu passado.

Sua memória não era nada além de uma fantasia. Ela dizia que tinha vivido em Varadero (uma das principais praias de Cuba) e dançado no Tropicana (famoso cabaré cubano).

No entanto, Luz María não sabia precisar a data exata de nenhum desses acontecimentos. Nem sequer tem uma cronologia mais ou menos coerente em sua cabeça de quando os episódios mais marcantes de sua vida ocorreram, antes de chegar ao lixão.

Tudo parece mentira, mas provavelmente era tudo verdade.

Quando lhe perguntei em que ano estávamos, Luz María não soube me responder. Decidi, naquele momento, acreditar piamente em tudo o que ela falava.

Sua casa era composta por tábuas, sacos, tampas de plástico, isopor, peças de diferentes materiais. Seus objetos de decoração também saíram do lixo.

Ali não há nenhuma composição ou ordem. Apenas um desejo excessivo de acumular tudo o que fosse possível – apesar de seu pouco valor.

Luz María me mostrou flores de plástico e bonecos feitos de biscuit. Lembro-me de moscas pairando a nosso redor.

De repente, vi um retrato do papa João Paulo 2º e toquei no papel, que pareceu aderir à minha pele. O chorume era tanto que tudo se tornava pegajoso.

Sobre uma prateleira do local que Luz María chama de casa repousava uma revista de moda. O rosto limpo e estéril de uma modelo loira deslumbrante, sorriso estampado na capa rosa brilhante, contrastava com a imundície ao redor.

Faz um ano que visitei o lixão ─ e parece que foi ontem. Luz María está morta. Me disseram que ela teve algum tipo de infecção vaginal.

As pessoas que vi se mudaram para outro local e, na área onde morava Luz María, cresce densa vegetação rasteira.

Na época, quase todos os homens que passaram por lá mantinham relações sexuais com ela.

Luz María estava longe ser, contudo, um pedaço de carne. Privaram-lhe a humanidade, deixaram-lhe a carniça, mas sempre que podia ela coloria seus lábios pálidos pelo sol e pintava seus olhos. Vi beleza no caos.

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