Hoje, o café é parte da rotina de bilhões de pessoas, mas a bebida já foi considerada perigosa, herege e até uma ameaça à ordem social . Entre os séculos 17 e 18, governos e líderes religiosos em diferentes partes do mundo decretaram a proibição do consumo, temendo desde efeitos sobre a saúde até riscos políticos .
O primeiro registro relevante de restrição ocorreu em Meca, na Arábia Saudita, em 1511, quando autoridades religiosas associaram o efeito estimulante da bebida à intoxicação, proibida pela lei islâmica.
Cafés foram fechados, mas a decisão foi logo contestada por juristas egípcios, que liberaram novamente o consumo.
Poucas décadas depois, em 1532, no Cairo, casas de café foram saqueadas, num reflexo da tensão em torno do novo hábito social. A repressão não durou muito: a popularidade da bebida crescia rápido, tornando-se difícil de controlar.
No Império Otomano, cafés eram vistos como locais de reunião política, e sultões como Murad IV tentaram restringir o consumo no século 17. Já na Inglaterra de 1675, o rei Carlos II chegou a publicar uma proclamação para fechar todas as coffeehouses , acusadas de disseminar “boatos e críticas contra o governo”.
A medida, porém, durou pouco e foi revogada diante da pressão popular.
O século 18 trouxe novos embates na Europa.
Na Suécia, o café foi banido diversas vezes entre 1756 e 1802, chegando ao ponto de autoridades confiscarem xícaras e utensílios. O argumento era que a bebida era um luxo prejudicial e fomentava a ociosidade.
Na Prússia, em 1777, o rei Frederico, o Grande, publicou um manifesto contra o café, defendendo a cerveja como mais saudável e patriótica. Para conter o contrabando, foram criados os chamados “farejadores de café”, que rastreavam torrefações clandestinas.
Na Etiópia cristã, curiosamente, o café também foi alvo de restrições, considerado durante séculos uma “bebida muçulmana”. Só no final do século 19 o consumo se disseminou entre os cristãos, após a flexibilização religiosa no reinado de Menelik II.
Apesar das tentativas de proibição, o café sobreviveu. De perseguição religiosa e política, tornou-se um dos produtos mais comercializados do planeta, símbolo de encontros sociais, cultura e, claro, energia diária.
Hoje, a ironia histórica é clara: o que antes foi considerado subversivo e até prejudicial se transformou em uma das bebidas mais amadas do mundo, com impacto cultural e econômico incalculável.